O que há entre a reportagem e o extraordinário


Considerando que é objeto do Jornalismo apurar e valorizar versões sobre os fenômenos cotidianos de interesse público, pode-se avaliar o quanto de legitimidade tais versões ganham a partir do posicionamento do jornalista em relação ao que está em pauta. Nesse sentido, é importante reconhecer que há um lugar de posição no Jornalismo que valoriza determinados pontos de vista e versões de uma história.

Não se trata de apenas buscar “entender” ou “explicar” (um está relacionado ao outro) certos fenômenos do dia-a-dia, uma vez que há aspectos “sensíveis” ao processo de produção jornalística que escapam à pura interpretação racional dos fenômenos que acontecem ao nosso redor. Essa “sensibilidade”, muitas vezes, está associada ao “extraordinário” como fundamento para justificar o que merece divulgação.

A ideia de extraordinário, cujas qualidades estão associadas a princípios de produção que valorizam a competitividade e a concorrência, precisa ser entendida em seu próprio universo. Ora, se considerarmos qualidade como “o que é próprio de”, um conjunto de características inerentes a tudo o que nos cerca, relativizamos um pouco as estratificações usadas para “desqualificar” algo. Tudo, dentro dessa concepção, tem qualidades porque reúne propriedades como característica. Sendo assim, o Jornalismo pode servir para “qualificar” o senso comum, não no sentido de “melhorar” as ideias das pessoas sobre seu cotidiano. Mas “qualificar” como forma de descobrir, apurar e descrever as propriedades dos fenômenos cotidianos.

Há quem entenda que o jornalista, de algum modo, busca uma certa “lógica dos acontecimentos” para contar uma história. A controvérsia nessa afirmação reside no fato de que é difícil imputar aos acontecimentos em si mesmos uma lógica. Isso porque há uma importante dose de interpretação que associa os acontecimentos a seus contextos e uma carga importante de valoração oferecida pelas versões apuradas. E a própria ideia de acontecimento merece avaliações conceituais.

Para “ilustrar” essa conversa, vale assistir a uma entrevista dada pela repórter (como ela se identifica) Eliane Brum a Antônio Abujamra, no programa “Provocações”, em julho de 2012.

Provocações — Programa 553 com a repórter Eliane Brum — 07/02/2012 — Bloco 1

É importante reconhecer que a reportagem, atividade que tem justificado a existência do Jornalismo diante das sucessivas crises, oferece possibilidades de aprender sobre o mundo que nos cerca. Aprender, no sentido de ouvir histórias contadas por pessoas comuns, cuja memória e as experiências de vida são tão significativas quanto a voz dos letrados, voz essa que domina o universo da imprensa na percepção de Eliane Brum.

Provocações — Programa 553 com a repórter Eliane Brum — 07/02/2012 — Bloco 2

Ela também faz uma relação interessante entre a grande reportagem, no sentido da contribuição para o Jornalismo e para a sociedade, e as pautas que "dão errado". O repórter é alguém que precisa duvidar o tempo todo das certezas, inclusive as dele próprio, como expressa Eliane no prefácio do livro O Olho da Rua, da própria autora.

Provocações — Programa 553 com a repórter Eliane Brum — 07/02/2012 — Bloco 3

O Jornalismo, a partir da reportagem, se revela, portanto, uma forma de conhecimento muito mais pela oportunidade que oferece de descoberta por coisas simples que estão invisíveis e inaudíveis ou são mesmo “desqualificadas” pelo senso comum, no sentido de não se reconhecer as propriedades dos fenômenos cotidianos.

Vale pensar porque a reportagem anda tão rara.

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