O verdadeiro culpado pelo ataque a Bolsonaro
Os políticos minimamente democráticos e humanistas do Brasil, adjetivos pelos quais Jair Bolsonaro dificilmente será conhecido um dia, reagiram com repúdio ao infame ataque contra a vida do presidenciável do PSL, ocorrido na tarde de ontem (6), durante uma passeata de campanha na cidade de Juiz de Fora (MG). A maioria desses políticos, incluindo quase todos os outros presidenciáveis, tacharam o episódio como um atentado contra democracia.

Eles estão certos! A violência por si só já é abominável. Quando ela é praticada de forma simbólica, política, para atingir um número maior de pessoas, como parece ter sido o caso, maior ela é e mais grave para o regime democrático. É uma agressão contra toda a nação.
Mas tenho lá minhas dúvidas se o candidato atacado teria a mesma postura caso o alvo, em condições semelhantes, não tivesse sido ele, mas um adversário político de espectro oposto ao seu.
A minha dúvida tem fundamento. Em março deste ano, quando a caravana do ex-presidente Lula da Silva foi atingida por tiros no Paraná, Bolsonaro disse, entre outras coisas, que o petista “quis transformar o Brasil num galinheiro” e que “agora está por aí colhendo ovos por onde passa”.
Bolsonaro foi além e, mesmo sem qualquer tipo de prova, sugeriu que o ataque à comitiva petista foi forjado. “Está na cara que alguém deles deu os tiros”, disse o deputado na ocasião.
Arrisco dizer que nenhum político sério sugeriu que a facada em Bolsonaro tenha sido uma armação, ainda que eleitores opositores dele tripudiassem sobre o caso com essa conotação nas redes sociais.
Os eleitores podem desconfiar e os jornalistas e historiadores, por ofício, devem, até porque nada mais parece ser tão inverossímil nos últimos anos nesse país; já os políticos, ainda mais os presidenciáveis, se desconfiam devem ter elementos concretos para fazer tal afirmação ao público. E nenhum deles o fez ontem. Pelo contrário, os que se manifestaram demonstraram solidariedade, artigo em falta no Brasil atual e um termo que parece não ser constante no vocabulário de Bolsonaro, ao menos não com os diferentes dele.
Fico tentado a dizer que Bolsonaro colheu o que plantou. O deputado tem um exército de milhares seguidores fanáticos e violentos, tanto ou mais que aquele que o feriu.
E do fanatismo dos seus, Bolsonaro é diretamente responsável. Seu discurso não é só simplista e tosco, mas também perigoso. Ele incita ódio dos seus seguidores contra seus adversários. Para ficar no caso mais recente, dois dias antes de ser esfaqueado ele disse, em um comício no Acre, que iria metralhar petistas e usou um tripé simulando uma metralhadora.

E, apesar de todos os indícios apontarem que, sim, Bolsonaro tem em parte responsabilidade no que lhe aconteceu ontem, nada justifica o ato contra ele, absolutamente nada.
Bolsonaro ainda não é um mal completo para o país; seu discurso e suas propostas são e sua irresponsabilidade de igual forma. Se ele será esse mal absoluto da nação depende de como agirá a partir desta sexta-feira (7).
Repito. Fico tentado a dizer que Bolsonaro colheu aquilo que plantou. Mas, só o rumo que ele tomará partir de hoje pode se encarregar plenamente de confirmar isso, ou não.

Se mantiver a sanha protofascista de seus militantes com discursos de intolerância e ódio, ele estará atestando sua total responsabilidade com o que lhe aconteceu e com o que mais puder vir a acontecer nesse sentido, de ações extremadas, durante e depois das eleições. Será como se ele estivesse dando aval aos seus para uma disputa com ares de guerra civil.
A despeito de todo mal que muitas de suas propostas representam, torço por sua recuperação plena.
Torço para que a democracia lhe dê esta lição de solidariedade manifestada por seus adversários na disputa pelo Planalto.
Que ao ter visto a morte de perto ele seja capaz de compreender que insuflar odientos fanáticos — seja de direita ou esquerda, acima ou abaixo… — é ruim para todo mundo.
