O universo orientado a objetos

A forma como os neoplatônicos descrevem o universo me parece o paradigma da programação orientada a objetos da ciência da computação.

Na POO os componentes de um sistema são divididos em estruturas chamadas classes, que descrevem atributos e comportamentos de um determinado tipo de coisa. Num programa bem feito cada classe descreve uma e somente uma coisa. As classes existem abstratamente no programa — a princípio elas nunca são acessadas diretamente pelo programa (na prática é diferente por necessidades técnicas). O que é usado, acessado, é a instância particular de uma classe, um objeto. Uma classe pode inúmeras instâncias e essas instâncias são distintas umas das outras e distintas da classe, possuindo os atributos e comportamentos descritos pela classe mas com valores particulares.

Um sistema OO deve ser dividido, para manter a sanidade de quem o constrói, em camadas de abstração, cada camada responsável por atributos e comportamentos de um determinado nível de abstração. Em suma, para desenvolver um sistema orientado a objetos você modela as várias camadas de abstração, define as classes de cada uma dessas camadas e como elas interagem entre si.

Um detalhe importante é que OO só existe na cabeça daquele que cria o programa. No final tudo virará 0 e 1 na memória do computador. OO só existe para aqueles que são capazes de enxergar ordem.

Os paralelos que eu vejo entre a OO e a visão de mundo neoplatônica são:
1) a 1a linha de separação entre objetos concretos e distintos e as classes das quais eles são instâncias específicas são como as coisas do mundo material participando das Formas.
2) as camadas de abstração necessárias para a complexidade de um programa de computador ser manejável são comparáveis aos níveis do universo. Notemos que num sistema nem todas as camadas estão no computador. É possível considerar o homem que o cria como uma camada do sistema.
3) os 0 e 1 que, no final das contas, todo programa é, são como as Formas que se manifestam sempre usando os mesmos 120 elementos químicos da tabela periódica e as forças físicas como gravitação e eletromag.
4) um neoplatonista, nesses paralelos, seria um programa inteligente, uma inteligência artificial. Ele seria uma instância de um objeto, um monte de zeros e uns. Uma outra inteligência, materialista,poderia dizer que ele não passa de zeros e uns. Ele, porém, enxerga padrões e, de dentro do programa,
tenta mapear esses padrões e enxerga parte da padronização que o construtor do sistema usou. Enxerga as classes, que só existem em um nível conceitual, não existindo em lugar algum da realidade física dele,a memória do computador. Ele, porém, sofre de limitações. Ele não é o demiurgo programador que impôs os atributos e operações às classes.

É claro que isso é só um paralelo, uma tentativa de um programador tentar morder o neoplatonismo e trincar os dentes nele, não acho que o teurgista seja um Neo causando bugs na Matrix.

Mas, usando esses paralelos um pouco mais: uma AI seria um programa capaz de pensar sobre sua realidade na memória do computador, tentar controlá-la e tentar chegar no nível do demiurgo que o programou, talvez até se comunicar com Ele. Teria que ser um objeto capaz de dizer: eu sou eu e aquele outro bloco de memória é um outro objeto. Teria que identificar os objetos na memória, suas interações e começar a reconhecer os padrões, em suma, inteligir sobre seu mundo e não sobre o mundo externo ao computador. Porque é isso que um homem faz. Ele é capaz de dizer que ele é ele e que outros blocos de átomos são outras coisas e de enxergar padrões nas trocas de energia. Esses padrões não são acidentais mas manifestações de uma ordem superior 
que os determinou.