Jogo no escuro: futebol de cegos forma craques em superação

Conheça a história de Ricardo Steinmetz Alves, atleta gaúcho multicampeão no futebol adaptado para deficientes visuais

Natural de Osório (RS), Ricardinho encontrou no futebol a sua consagração (Foto: Comitê Paralímpico Brasileiro — CPO)

Aos oito anos de idade, após dois lutando contra um deslocamento de retina, Ricardo Steinmetz Alves ficou cego. Na época, ainda garoto e apaixonado por futebol, acreditava que era o fim do sonho de ser jogador. Hoje, aos 27, se tornou o melhor do mundo no futebol para cegos, ou futebol de cinco. Bicampeão mundial, paralímpico e recém sagrado tricampeão parapanamericano, em Toronto, utiliza-se da memória visual da infância para fazer os movimentos que o transformam em craque.

Nascido em Osório, no litoral do Rio Grande do Sul, Ricardinho mudou-se para Porto Alegre para estudar no Instituto Santa Luzia, escola tradicional de ensino do método braile. Aos dez anos, entretanto, tudo mudou. Ainda jovem, o atleta descobriu a existência do futebol de cinco, adaptado para deficientes visuais. Os primeiros passos foram na equipe da própria escola. Guiado por um professor de educação física, voltou a alimentar o sonho de se tornar um atleta profissional.

Os passos que transformaram o gaúcho de Osório em craque

O começo, segundo o próprio jogador, foi muito complicado. Diferentemente do futebol comum, o futebol de cinco não pode ser treinado em qualquer lugar. É preciso um espaço adaptado para que o deficiente visual possa desenvolver fundamentos e praticar o esporte. “Se você largar uma bola em uma festa de aniversário, cheio de cadeiras, as crianças que enxergam vão sair jogando sem problema algum. O deficiente visual fica muito limitado, pois precisa de um ambiente seguro para poder praticar e isso foi uma das coisas que dificultou bastante”, conta o atleta.

Multicampeão, Ricardinho sonha com o ouro na Paralimpíada de 2016, no Rio de Janeiro (Foto: CPO)

Aos 15 anos de idade, Ricardinho encontrou na Associação dos Cegos do Rio Grande do Sul (Acergs) o seu primeiro clube. Entretanto, treinadores despreparados, dificuldades de locomoção, desconfiança e outros problemas atrapalharam o começo de carreira do jogador. Mas, sempre dedicado e otimista, ele não desistiu. “Sempre confiei muito em Deus, pois ele me acolheu e me deu esta oportunidade. Treinava dribles e chutes no quintal de casa e, com humildade, aprendi que, acreditando em mim e com personalidade, conseguiria o que queria. Sem o apoio da minha família e principalmente de Deus eu não teria conseguido nada”.

Dedicado somente ao futebol, Ricardinho treina seis vezes por semana, sempre em dois turnos. O empenho o levou a grandes conquistas e o tornou referência mundial no esporte paralímpico. Com apenas 16 anos, foi convocado para a Seleção Brasileira. Um ano depois, foi escolhido o melhor jogador do mundo de futebol de cinco. Desde então, acumula dois mundiais, duas paralimpíadas, três parapanamericanos e outro título de melhor do mundo no currículo. Multicampeão, o jogador garante ter motivação para continuar jogando. Com espírito vencedor, busca superar o próprio limite e garante que quer ganhar de novo tudo o que já conquistou.

Atualmente, Ricardinho integra a equipe da Associação Gaúcha de Futsal para Cegos (Agafuc). Em parceria com a Prefeitura de Canoas, a entidade possui a única quadra de futsal adaptada para deficientes visuais do Rio Grande do Sul. O time, que disputa competições por todo o Brasil, recentemente sagrou-se Tetracampeão Regional Sul, torneio que reúne os principais clubes do Estado.

No Parapan de Toronto 215, Seleção Brasileira conquistou outro ouro no futebol de cinco (Vídeo: CPO)

O esporte paralímpico do Brasil

No Parapan de Toronto 2015, o Brasil registrou o melhor desempenho de todos os tempos da competição. Com 109 medalhas de ouro, terminou o torneio na primeira colocação e com vantagem de 59 ouros para o Canadá, segundo colocado. No futebol de cinco, depois do tricampeonato, a Seleção Brasileira e Ricardinho iniciaram a preparação para as Paralimpíadas de 2016, que serão disputadas no Rio de Janeiro. Segundo o atleta, “a expectativa da equipe de futebol de cinco é garantir o primeiro lugar e conquistar a medalha de ouro em casa, diante da torcida brasileira”.

Sobre a falta de interesse no esporte paralímpico no país, Ricardinho é bastante cauteloso. Na visão do craque brasileiro, ainda é muito pouco divulgado. Apesar de concordar com o aumento de interesse dos veículos de comunicação na modalidade, o jogador critica os baixos investimentos de patrocinadores no esporte. “Até pelo nosso desempenho recente nas competições que disputamos, eu vejo um crescimento, mas ainda é um processo lento. O esporte paralímpico não é um esporte que recebe muito investimento, como o futebol de campo, por exemplo. O patrocínio e a mídia caminham juntos, como um negócio. Enquanto não tivermos mais interesse dos patrocinadores, não teremos grande divulgação”, analisou.

Nos pés de Ricardinho, Seleção Brasileira mantém hegemonia no futebol de cinco (Foto: CPO)

Conheça o futebol de cinco

O futebol de cinco é exclusivo para cegos ou deficientes visuais. As partidas normalmente são disputadas em uma quadra de futsal adaptada. Entretanto, desde os Jogos Paralímpicos de Atenas, também tem sido praticadas em campos de grama sintética. O goleiro tem que, obrigatoriamente, enxergar. Junto às linhas laterais, são colocadas bandas que impedem que a bola saia do campo. Cada time é formado por cinco jogadores — um goleiro e quatro na linha. Diferente dos estádios com a torcida gritando, as partidas de futebol de cinco são silenciosas, em locais sem eco.

A bola tem guizos internos para que os atletas consigam localizá-la. A torcida pode se manifestar apenas em comemorações de gols. Os jogadores utilizam uma venda nos olhos para garantir que nenhum deles tem um pouco de visão e está trapaceando. Com cinco infrações, o jogador é expulso de campo, mas ainda pode ser substituído por outro.

Há, ainda, um guia, conhecido como chamador. Ele fica atrás do gol para orientar os atletas, instruindo posicionamento e dizendo para onde devem chutar. O jogo tem dois tempos de 25 minutos, com intervalo de 10 minutos. No Brasil, a modalidade é administrada pela Confederação Brasileira de Deportos de Deficientes Visuais (CBDV). A hegemonia da Seleção Brasileira na modalidade dura aproximadamente nove anos, período em que a equipe conquistou simplesmente tudo o que disputou.

Confira o áudio da entrevista com o craque

https://soundcloud.com/luciano-kaminski/entrevista-com-ricardinho-alves

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