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Ao conviver em grupo, as armas ficam no lado de fora

Chegou a hora de embarcar (ou re-embarcar)

Eu tinha como plano ficar em Los Angeles por quase sessenta dias e voltar para o Brasil com algum contrato de produção (naive, eu sei). Mas é assim que se pesca, lança a isca buscando o maior peixe. Se pescar dois médios, tá de bom tamanho. Disse para um amigo, não importa o que acontecer depois. O que vai valer mesmo é que daqui a dois meses, não seremos mais as mesmas pessoas de hoje. Eu mudei bem antes disso.

Qualquer investida que fazemos para aprimorar, crescer ou renovar é como tentar se inserir num outro organismo. Ele tem suas regras, seu comportamento, sua dieta, sua linguagem, sua cultura e sua própria rotina. Certas ou não, ninguém vai mudar isso da noite para o dia.

Tive também alguns incômodos que ofuscaram um pouco o caminho. Mas, ao contabilizar os valores positivos, me arrepiei. Era como se uma constelação de oportunidades e novas ideias pipocassem num espaço escuro e vazio.

Pus na balança o que me manteria aqui. Os motivos para retornar ao Brasil são muitos, para ficar são poucos.

Decidi voltar. Não parece uma história muito animadora, né? Pois bem, vou consertar isso.

Mas antes, uma outra história.

Uma vez, andando pelas ruas de uma cidade do interior (agora não lembro qual cidade nem qual estado) tive uma visão que me fez congelar. Talvez você tenha já passado por uma situação a qual seu corpo parece não estar mais nas suas mãos. A respiração fica tão menos automática, os membros do corpo adormecem, o tempo fica lento, os sons se misturam e apenas sussurram algo dentro da cabeça. Aconteceu quando vi dois meninos correndo por uma rua de terra. Deviam ter cerca de dez anos ou mais, mantidos novos em razão da vida difícil. Eram magros, de pele e cabelos claros e ofuscados pelo pó. Usavam camisa e calça menores que a proporção do corpo. Exibiam por fora sua pobreza, mas por dentro a felicidade da infância que brinca indiferente.

Eu via ali naqueles meninos meu pai e meu tio João, ambos falecidos. Aquelas crianças estavam ali para ilustrar as histórias que meu pai contava. Qual poderia ser? Qualquer delas, eles saíam correndo e sorrindo assim o tempo todo. A que me veio à cabeça foi a seguinte:

José e João (sim, nomes simples) fugiam dos arredores da casa que fazia parte da fazendo de seu avô. O homem não era fácil, surrava as crianças sem dó. Para os dois meninos sorrirem daquele jeito, só longe da fazenda e quanto mais tempo fora, melhor. As vezes a fome vinha e não tinha como acalmá-la a não ser explorando os campos e a mata. Quem sabe não encontrassem alguma árvore frutífera ou alguma planta comestível. E João apontou algo no chão, que logo entendeu ser mandioca. Foi rápido. Descascou e comeu, crua mesmo. Mandioca é uma raiz comum no Brasil e muitas são comestíveis. Há, no entanto, a mandioca-brava, com alto teor de ácido cianídrico, praticamente veneno. Foi a que João comeu. Ao ver o pequeno irmão se debater e contorcer o corpo, José correu em busca de ajuda. Não sei em quanto tempo a ajuda deve ter chegado e como foi feito o procedimento de socorro, mas João escapou dessa.

De volta ao presente… Eu olhava os meninos com uma expressão abobalhada no rosto. Eles iam no sentido oposto e já estavam longe. Me senti obrigado a caminhar e arrastava minhas pernas que queriam permanecer plantadas. Sentia minhas costelas se entrelaçando e comprimindo meu peito, como fazem os dedos ao juntarmos as mãos. Era como se eu tivesse que fazer algo, falar com eles, sei lá. Mas o tempo passou para ambos, para eles e para mim.

Aqueles meninos cresceriam brincalhões, constituiriam família, José com seus cinco filhos, e João com seus quatro. E eles dedicariam suas vidas a cria-los. Se seriam felizes ou não eu não saberia dizer olhando assim, mas não importaria. Eles fariam do mesmo modo porque eu estava ali para provar.

As histórias que meu pai contava eram bastante simples, mas, para meus irmãos e eu, era como se fosse o próprio capitão Nemo narrando uma de suas aventuras para os náufragos. Ele se divertia ao contar, parecia ter orgulho mesmo com as dificuldades.

Isso me faz pensar nas tais bagagens pesadas que carregamos e que arcam nossas costas durante a vida (falei delas no início do texto).

Dividir aventuras com outras pessoas é apreciável, mas cada um traz sua bagagem de expectativas, frustrações e estresse. Alguns lidam com isso de forma mais madura, outras não. Acaba com você tendo que lidar com sua própria carga de estresse e a de um terceiro. Fica ainda mais complicado quando a pessoa tem na bagagem títulos, rotinas, teorias, bandeiras para se defender. Saber e conhecer nunca é errado, mas ao passar pela porta da convivência em bando, as armas precisam ficar no lado de fora.

Há um tempo tenho lutado contra a ideia de ter bandeiras e títulos. Ser, ou estar presente é muito significativo. Ter e poder ser não definem uma pessoa, vemos apenas sua projeção. Parte do peso da bagagem são autoafirmações, coisas e ideias para nos agarrarmos quando a pressão vier. Será que nossos hormônios não serão suficientes para nos preparar para o ataque ou a defesa?

Já percebeu quanto espaço é preciso para desempacotar toda essa bagagem quando estamos confinados? Quanto dessa bagagem levamos para a vida social e a exibimos antes de termos a chance de mostrar quem somos de verdade?

Lembrando de Tim Ferris, geralmente quando se pergunta a alguém o que ela faz, a pessoa prontamente responde ser uma médica, um designer, uma advogada, um professor, um analista financeiro, etc. O que você faz deveria ser o que o faz viver. Você dança? Viaja? Convive? Vai ao cinema? Vai ao teatro? Joga futebol? Joga pingue-pongue?

Não somos nosso trabalho, nosso cargo, nossas tarefas. Somos o que nos faz apreciar a vida. Aí não importa a simplicidade das coisas, se é difícil, se não tem dinheiro nem recursos. Ao se valorizar os fatores impeditivos como definidores de nossas vidas, cria-se uma rampa para a lama de negatividade. É vital haver um equilíbrio adequado com as coisas boas afim de reposicionar a balança na horizontal. E, se possível, elevar o que nos faz bem um pouquinho mais.

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