Anna Katharina Emmerick

Tradução do artigo de Rino Cammilleri na revista Il Timone

O filme de Mel Gibson, “A Paixão de Cristo”, trouxe à cena as visões de Anna Katharina Emmerick, a mística alemã morta em 1824 aos cinqüenta anos . O filme, como é sabido, foi largamente inspirado naquela mística que “via” as cenas da vida de Cristo e de Nossa Senhora. Por exemplo, em certo ponto o filme mostra a mulher de Pilatos, Claudia Procula ou Procla, entregando a Maria e a Madalena um pacote de linhos brancos que posteriormente são usados para recolher o sangue da flagelação. Parece uma cena que não tem nada a ver com a história narrada, sequer aparece nos evangelhos. Bem, ela é tirada diretamente das visões de Emmerick.

Mas quem era essa mulher que a Igreja beatificou? Nasce no ano de 1774 em Flamschen, na casa de pobres camponeses da Westfalia, e foi sempre frágil e doente. Aos vinte e oito anos consegue ser admitida como freira agostiniana no monastério de Dülmen, onde fica por nove anos. Quando a invasão napoleônica impôs o fechamento dos monastérios, Emmerick passou os doze anos que lhe restavam em uma mísera sala de missal dependendo de benfeitores, sempre doente e sem poder sair da cama. Quinta de nove filhos, desde pequena sentira o impulso de rezar para ter sobre si os sofrimentos dos outros. O menino Jesus lhe aparecia e se entretinha com ela, revelando-lhe os segredos das ervas medicinais. A garotinha estava convicta de que todos viam aquele que ela via, mas só recebia dos outros uma comiseração incrédula (foi assim que aprendeu a guardar as suas visões apenas para si). Pôde freqüentar a escola somente por muito pouco tempo, em compensação aprendeu a costurar. Crescida, tentou ser admitida em três monastérios diferentes, porém nenhum a quis por causa de sua má saúde e extrema pobreza (naquele tempo as vestes, os lençóis, toalhas, tudo devia ser feito à mão e custava muito: os conventos, vivendo de esmolas, não podiam aceitar uma freira privada de dote).

No entanto, suas visões tornavam-se ricas de profecias: “vê” a Revolução Francesa, a morte do rei da França na guilhotina, o advento de Napoleão, a prisão do papa Pio VI, a Restauração… Aos vinte e cinco anos, enquanto rezava na igreja, aparece-lhe Cristo que lhe estendia duas coroas, uma de flores e uma de espinhos. Ela escolhe a segunda e daquele momento em diante teve de esconder os estigmas em sua cabeça sob uma touca de camponesa. Foi à serviço para a casa de um organista cuja filha acaba por se fazer agostiniana e coloca como condição do seu ingresso no monastério que viesse acolhida também Emmerick. As freiras aceitaram porque precisavam de alguém que soubesse tocar órgão. Emmerick trabalhava no jardim e os pássaros vinham pousar-se em seus ombros. Era capaz de conversar com seu anjo da guarda e freqüentemente passava a noite diante do Santíssimo. O confessor da freira afeiçoou-se por ela: era o francês Martin Lambert, padre “refratário” que havia fugido da França por se recusar a prestar o juramento cismático “constitucional”.

Emmerick, sempre doente por sua carga (sobrenatural) das dores alheias, em 1802 sentiu uma forte dor no peito e encontrou-se com um estigma em forma de cruz impressa sobre sua pele. Em 1811, devido à abolição das ordens religiosas, os monastérios são fechados e as monjas mandadas de volta às suas famílias. Lambert alugou uma casa e ali alojou Emmerick, tão doente que sequer podia deixar o leito. Fizeram vir sua irmã, Gertrud, par ajudá-la, mas esta se revelou embrutecida e limitada, de caráter mal-intencionado e insensível. Por sua vez, Anna Katharina sofria arrebatamentos que duravam horas, mas também sofrimentos indizíveis. Em 1812 aparecem-lhe outros dois estigmas em forma de cruz no peito e os signos da Paixão nas mãos, pés e tórax. A notícia se espalha e deixa curioso o médico racionalista Franz Wilhelm Wesener, que foi ter à cabeceira da estigmatizada para desmascarar o imbróglio. Quando a visionária o vê entrar, revelou-lhe particularidades biográficas que somente ele podia conhecer. Wesener se converteu e não deixou mais a freira. Via-a entrar em êxtase e tornar-se insensível a tudo, exceto à água benta e às bênçãos partidas de um padre, ainda que à distância: naquele momento, Emmerick fazia o sinal da cruz. O médico atestou ainda um outro fenômeno: Emmerick viveu por anos só de água e da comunhão. Não podia comer nada sólido, porque vomitava. No entanto, as pessoas vinham cada vez mais para vê-la, e o vigário da diocese, August von Droste Vischering, busca esclarecer o que estava acontecendo. Ordenou uma severa investigação que foi conduzida pelo médico, maçom, von Druffel. Este tentou por semanas curar as feridas de Emmerick, mas no fim teve de resignar-se a certificar que não eram produzidas artificialmente. A visionária sofria toda sexta-feira as dores da Paixão, inclusas aquelas da flagelação e da crucificação. A isso unia uma capacidade sobrenatural de reconhecer relíquias verdadeiras em meio às falsas e de dar informações detalhadas sobre a que mártir estas pertenciam. Importantes personagens da época vieram visitá-la, como o conde Stolberg (amigo de Goethe que em seguida se converteu ao catolicismo), a famosa poetisa Luise Hensel (que também se fez católica) e sobretudo o grande poeta romântico alemão, Clemens Brentano. Este último, após um passado conturbado (com dois casamentos falidos), foi a Dülmen por curiosidade, instigado por Hensel (por quem estava apaixonado). A visionária apenas o vê e lhe diz que era ele o homem que, pela revelação divina, esperarava. No fim, Bretano se estabelece em Dülmen e por seis anos não deixou a cabeceira de Emmerick. Foi ele a escrever as visões dela. Encheu dezessete mil páginas que compuseram diversos volumes. A obra, publicada em seguida aos poucos, teve um clamoroso sucesso e foi seguindo as indicações presentes nela que alguns arqueólogos encontraram a casa de Nossa Senhora em Éfeso.

Os prodígios de Emmerick pareciam não ter fim: durante os arrebatamentos seguia ordens que o sacerdote dava em latim (ela, que nunca havia estudado); uma vez, em uma só noite — e na mais completa escuridão — costura um inacreditável número de roupinhas para as crianças pobres; tocando um objeto, sabia dizer tudo sobre o seu proprietário; respondia perguntas formuladas mentalmente por Brentano que lhe segurava a mão… Em 1819 o governo prussiano, preocupado com a grande afluência de pessoas a Dülmen, decide fazer um investigação sobre a freira estigmatizada e mandou a polícia até sua casa. Emmerick foi levada à força e posta em uma maca numa outra casa: ali, por três semanas, mantiveram-na em um quarto iluminado dia e noite, vigiada ininterruptamente e à vista de uma guarda de homens que se revezavam, com interrogatórios contínuos e reiteradas inspeções dos estigmas.

Ameaçada, perseguida, obrigada a engolir a comida que regularmente vomitava, não se consegue fazê-la “confessar” o seu “engano”. A pobre mulher, que era capaz de exprimir-se apenas em dialeto e não sabia escrever, sofreu toda sorte de opressão inutilmente e,por fim, também a investigação estatal teve de jogar a toalha. Finalmente levaram-na novamente à sua casa e Brentano pôde retomar as notas que ela lhe ditava.

A precisão com a qual Emmerick descrevia os lugares e usos judaicos e os detalhes das roupas do tempo de Jesus era estupefaciente. Como já foi dito, era analfabeta e nunca tinha saído da Westfalia. Mas também Brentano não tinha nenhuma preparação teológica ou histórica. No entanto, aquilo que foi escrito sobre as visões de Emmerick tinha uma precisão incrível (o poeta Paul Claudel se converteu depois de ter lido a narração da Paixão ditada pela freira). Em 1819, depois de anos de oração, as feridas da estigmatizada se fecharam (havia pedido a Deus para livrá-la do embaraço que elas lhe traziam e deixar apenas a dor): elas reabriam somente na Sexta-Feira Santa. Em 9 de fevereiro de 1824, como havia profetizado há meses, Emmerick morre de paralisia pulmonar. Dois meses depois, corre a notícia de que seu corpo havia sido roubado para ser estudado, abre-se a tumba e o cadáver foi encontrado absolutamente fresco e incorrupto.

Brentando durante sua vida consegue publicar apenas os volumes “A dolorosa paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo” e “Vida da santa Virgem Maria”. O Volume “Anos de ensinamento de Jesus” vem à luz apenas depois da sua morte, ocorrida em 1842. Em 1869 sai “Os segredos do Antigo e do Novo Testamento”. Em 1881, seguindo as indicações contidas nestes livros, dois arqueólogos encontraram na Turquia, nas proximidades da antiga Éfeso, a casa onde Maria passou os últimos anos antes da Assunção: Meryem- Ana-Evi. Que Paulo VI visitou em 1967 e João Paulo II em 1979. É bom recordar que todos os textos de Brentano sobre as visões de Emmerick receberam o imprimatur.