O Cronista, esse é o G.K. Chesterton

Santo Tomás de Aquino nos seus trabalhos tinha um costume bem típico dele, que é chamar certas pessoas não pelo nome, mas por um título que ele mesmo atribui às pessoas bem especiais: Aristóteles era chamado de o Filósofo, Davi de o Salmista, São Paulo de o Apóstolo e Averróis de o Comentador. Se ele vivesse nos dias de hoje, tenho certeza que chamaria Chesterton de o Cronista. Porém, como o Doutor Angélico não vive mais entre nós, mas no Reino dos Céus intercedendo como todo santo venerável, aqui estou fazendo esse trabalho por ele, se é que posso ser digno disso.

Quando terminei de ler a primeira crônica deTremendas Trivialidades, pensei imediatamente: «Esse cara foi um gênio!». E quando terminei o livro percebi que não estaria exagerando. Gilbert Keith Chesterton foi realmente o Cronista. Por mais que essa genial obra fosse escrito no passado não-católico dele, a sua genialidade era visível. As lições passadas são inúmeras e tudo numa forma extremamente agradável de ler. Chesterton com muita certeza foi um dos maiores gênios do Século XX. E não foi porque o Século XX foi o início do domínio dos idiotas, mas porque ele realmente foi gênio mesmo.

O livro Tremendas Trivialidades, assim como qualquer outro do Chesterton, é uma leitura obrigatória. O seu humor supera o de qualquer comediante; ele cita bairros desconhecidos para quem mora fora de Londres e personalidades desconhecidas para quem nunca morou na Inglaterra entre os séculos XIX e XX, mas acabamos lendo sem consultar as notas de rodapé como se conhecêssemos, tamanha a sua naturalidade para escrever. Quem lê Chesterton acaba não sentindo falta de outro passatempo enquanto o livro não terminar. O livro é agradável de ler do início ao fim e terminando lamentei que não ter umas mil crônicas para continuar lendo e lendo. Me resta apenas continuar a ler outras obras de Chesterton, que são inúmeras.

Esse ano tive a honra de ler quatro livros dele, somando o Tremendas Trivialidades: Hereges, O Homem Eterno e Ortodoxia. Todos muito bons, todos nos levam à reflexões profundas sem os academicismos comuns entre os apologetas. Chesterton sabia agradar gregos e troianos mesmo escrevendo sem tal intenção. Ainda que nas suas obras mais antigas apresente uma ou outra controvérsia como dizer que apoiava o Partido Liberal (antes de se converter ao catolicismo), por exemplo, ainda assim a leitura prende. Nós, como bons cristãos, acabamos perdoando. Imagino que se um ateu ler Chesterton e não ficar com pelo menos uma pulga atrás da orelha, é porque tem algum problema. Chesterton nem precisa apelar para as vias tomistas para provar que Deus existe. Basta ele apontar o óbvio e descrever esse óbvio de uma maneira que só ele consegue. A ponto até de arrancar admiração de ateus como Antonio Gramsci e Bernard Shaw, de quem era amigo, outra grande controvérsia. Somente Deus sabe como os dois se davam tão bem.

Chesterton foi batizado apenas catorze anos antes de sua morte em 1936. Quando partiu, o Santo Padre Papa Pio XI (com quem se encontrou três vezes) enviou o seguinte telegrama:

«O Santo Padre está profundamente consternado com a morte de Gilbert Keith Chesterton, devoto filho da Santa Igreja, dotado defensor da Fé Católica. Sua Santidade oferece paternais condolências ao povo da Inglaterra, promete orações pelo falecido amigo e outorga sua Benção Apostólica».

Chesterton nos deixou um belíssimo legado e creio que todos os jornalistas deveriam lê-lo para aprender como ser um cronista bom. Mas ninguém passará de um cronista bom por mais que se esforce, porque Deus escolheu somente Chesterton para ser o Cronista.