O paupérrimo ateísmo do Pondé

Luiz Felipe Pondé é um desses filósofos que se diz de direita, mas que mais contribui com a esquerda do que muitos revolucionários. Ele chegou a dizer que a Igreja Católica tira a liberdade das pessoas como se ela definisse o que é pecado e o que não e tivesse autoridade para fazer algum ato deixar de ser pecado.

Porém, não é isso o que quero comentar, mas o seguinte vídeo:

Como podemos ver, Pondé tem o seu ateísmo na seguinte premissa: Deus não existe porque não deixou o mundo da maneira que eu gosto. Ele considera que Deus não pode existir com a maneira que o mundo é, teoricamente abandonado.

Ora, caríssimo Pondé. A sua justificação para o seu ateísmo é tão pobre que chega a ser decepcionante porque esperava algo mais sofisticado de um filósofo como o senhor. Apesar de que sempre devemos desconfiar dos filósofos que aparecem demais na mídia.

Para o mundo em tese ser abandonado por Deus, em tese teria de estar num caos, porque Deus não apenas é o criador de todas as coisas, mas também o ordenador de todas as coisas. Sabemos que Deus deve ser o criador de todas as coisas pela terceira das cinco vias do Santo Tomás de Aquino. Aqui reproduzirei ainda um trecho da Suma Teológica do Santo Tomás de Aquino em Forma de Catecismo do Padre Tomás Pègues, O.P.:

«O que existe e pode não existir, depende, em última análise, de alguma coisa que existe necessariamente, e a esta alguma coisa chamamos Deus. Assim é que nada do que existe, exceto Deus, existe por si mesmo, isto é, em virtude de forçosa exigência de sua natureza. Logo, há de, necessariamente, receber de Deus a existência».

Ou seja, a existência dos seres contingentes provam a existência do Ser Necessário e esse Ser Necessário não pode ser contingente de ninguém, que necessariamente deverá ser Deus. Se pegarmos uma pedra como exemplo, essa pedra depende de diversos seres (agentes) que mantém a sua existência e que principalmente deu a existência a ela. Logo, até uma simples pedra prova a existência de Deus.

Vejamos agora a argumentação do Pondé: para o Pondé provar que o mundo é tão ruim como ele afirma ser, é preciso demonstrar as razões. Se Deus é o Ser Necessário como demonstrado acima, o mundo ou simplesmente seria aniquilado ou estaria no meio caótico caso esteja abandonado por Deus. Ora, mas não vivemos no caos porque a matéria ainda apresenta ordem e a prova de que há ordem na matéria é que as formas tomadas por ela são compreendidas pelo nosso intelecto. A pedra é compreendida pelo nosso intelecto como uma pedra porque existe ordem na matéria que compõe a pedra e a faz ser pedra. Isso é o básico.

Claro que Pondé também poderia estar se referindo à existência do mal. Mas isso também não é irrespondível. Antonio Royo Marín, em Dios y su obra dedicou 47 páginas para responder a essa pergunta (Madrid: B.A.C., 1963, pp. 600–647).

Por que o mal existe? O mal não é uma criação de Deus, é uma negação de um bem por parte do nosso livre arbítrio. Deus não criou o assassinato, o assassinato é a negação do direito à vida por parte do assassino com relação à vítima. O mal está na violação desse direito à vida. Como podemos ver, a vida é um bem e o assassinato é mal por negar a vida.

Como o mal entrou no mundo pelo pecado original, podemos dizer que o mal pode ser usado por Deus para extrair dele um bem maior, mas seria imbecilidade dizer que é uma criação de Deus, ainda que Ele soubesse que isso ia acontecer. É sabido, porém, que o mal não faz parte do projeto original de Deus uma vez que Ele é o Bem Supremo.

Não li os livros do Pondé para avaliar o trabalho dele como filósofo, mas fica difícil ser algo bom com base no que ele fala. Talvez não seja mesmo.

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