Sobre Ideologia, Alienação e Pertencimento

Nos últimos anos temos acompanhado o surgimento de muitos grupos, coletivos, ONGs e pessoas que lutam por direitos e por igualdade. Isso é algo realmente incrível, que se intensificou como contraponto às críticas ao governo progressista e assistencialista do pt. Em especial, temos a luta do movimento Negro e o Feminismo.

É normal levantar uma bandeira, seguir uma ideologia. Mas isso não faz de você alguém especial ou superior. Isso não faz com que a luta dos outros seja menos importante e nem com que todos sejam seus inimigos. Quando aderimos a uma determinada ideologia, recebemos um conjunto de posturas, pensamentos, ideias e práticas que temos que seguir. Para pertencer a tal ideologia, devemos seguir seus passos.

O problema é que, ao agirmos assim, corremos o risco de ficarmos alienados. A alienação consiste em não entender, em ignorar a existência do outro. Já vi sites de cultura Afro endeusando Floyd Mayweather, um espancador de mulheres convicto. Já vi feministas que se fecham em seu grupinho branco de classe média e querem mudar o mundo de dentro de seus apartamentos, através das redes sociais. Não gostam de favelados, nunca pisaram em uma periferia e pensam que os problemas da mulher branca de classe média são os mesmos da mulher negra do gueto.

O que acontece quando você participa de um desses movimentos, mas tem alguma ideia que não se encaixa neles, ou tem certas reservas e críticas em relação a algumas posturas adotadas? Em outras palavras, o que acontece quando você pensa fora da caixa, fora desse conjunto comportamental e consciencial que vem com qualquer ideologia? Você se torna um pária. É excluído do movimento, é duramente (raivosamente) criticado.

Pertencer significa aceitar para permanecer. Aceitar para fazer parte. Ao aceitar todo esse “conjunto de ser e pensar” você abre mão de seu pensamento crítico, de sua jornada pessoal por conhecimento. Toda ideologia, se praticada sem debate, sem críticas e de maneira agressiva, torna-se extremista.

Como a maioria das pessoas sente uma grande necessidade de fazer parte de algum grupo, de representatividade, de inclusão, é muito fácil adotar alguma bandeira de combate, alguma ideologia e então a seguir cegamente, lutando contra qualquer crítica, por mais construtiva que seja, ignorando qualquer pensamento divergente. Sua ideologia é a melhor e a mais necessária.

Some-se a isso a ausência de um recorte de classes ao se tratar de assuntos ideológicos abordados por esses movimentos. Sem a distinção de classe, sem esse entendimento, tudo se torna generalizante e superficial.

Li meu texto até aqui e não sei dizer qual foi o objetivo principal, onde eu quis chegar com isso. Até sei, mas creio que não ficou muito claro. Poderia ter utilizado dezenas de exemplos concretos, mas acho que exemplos empobrecem e delimitam o discurso. Tentarei arrematar no parágrafo seguinte.

Esquerdistas me chamam de fascista e direitistas me chamam de comunista. Ao ver que sou odiado pelos setores mais agressivos da política, sinto que estou no caminho certo. O caminho do meio, do bom senso, da humildade em aceitar e ver que algumas coisas da esquerda são necessárias, mas que algumas da direita também. E acho que isso vale para qualquer ideologia, seja ela política ou social. Não aceite nada sem criticar, não engula discursos prontos. Duvide, pesquise, analise e tire suas próprias conclusões. O melhor caminho é a moderação. A não ser, é claro, que queira espumar ignorância e ser extremista como a maioria parece ser em todas as redes sociais. Maioria que, ao ser contestada, mal sabe falar sobre a ideologia que defende, mal sabe debater com alguém.