Sobre morar no interior e como as pessoas são (quase todas) estranhas
Sinto-me frustrado, como qualquer um com um pouco de cérebro e menos de 50 anos se sente ou deveria se sentir quando mora no interior. Não que eu more no meio do nada, há grandes cidades que ficam a uma hora de distância e SP está logo ali, a uns 300 e tantos quilômetros. Sempre posso viajar até qualquer lugar desses. Mas isso não é o problema. O problema, a droga do problema é passar dia após dia após dia trabalhando e convivendo e vendo as mesmas coisas e pessoas sempre, sem alternativa ou opções de escolha (de emprego, de carreira, de relacionamento, de amizades).
A vida no interior passa depressa, os sonhos e vontades e ambições também morrem depressa. Aos 20 eu só queria sumir daqui. Se aos 30 eu ainda estiver aqui, sinceramente, nem sei. É tudo muito difícil quando não se tem papai nem mamãe que sustentam o tempo todo, quando tudo o que tem que fazer tem que ser construído com o próprio esforço (ou talvez eu esteja dizendo isso apenas para me vitimizar e para ter a quem culpar pelo meu fracasso em todos os âmbitos de minha vida) . Some a isso a introspecção e a introversão e o universo realmente se fecha, se limita, paraliza.
Tenho cortado muitas relações. Tenho saído menos de casa também. Não uso nenhum tipo de droga a não ser cerveja (se não fosse por uma maldita gastrite eu tomaria whisky todos os dias. Mas a única coisa com álcool que consigo beber sem imediatamente sentir uma dor estomacal infernal que me faz deitar em qualquer lugar em posição fetal e abraçar a barriga enquando gemo de dor é a cerveja). Tenho pensado cada vez mais em ficar mais e mais só e gastar todo o meu tempo livre com leitura e estudo. Isso não é bom, essa espécie de misantropia urbana que é enaltecida por vários idiotas com ar blasé que se acham cool nihillists é algo ruim, grave e patológico. Mas infelizmente esse desejo de isolamento tem se tornado cada vez mais forte.
Por outro lado, sinto que todos os lugares são iguais. Porque lugares têm pessoas e pessoas… Não me dou muito bem com elas. Sou o rei dos silêncios constrangedores e criador experiente de situações patéticas. E falando em pessoas…
Com exceção de 6 amigos que conheço desde moleque, todas as demais pessoas com quem me relaciono vieram até mim. Nunca tentei me relacionar com ninguém ( por timidez, preguiça ou falta de empatia mesmo). Não entendo muito bem porque alguém queira conhecer e se relacionar com um freak como eu, mas talvez as pessoas teimem em se relacionar comigo justamente por isso. No entanto, todas essas pessoas somem depois de um tempo. Geralmente porque ou não tem profundidade e sinceridade e maturidade para cultivar uma amizade com amor ou, mais comumente, porque se cansam mesmo ou ainda porque não tenho ou não posso oferecer o que elas querem — atenção exclusiva, dinheiro, facilidades ou apenas meu pau (sim, já perdi “amizade” por isso). Enfim, isso é algo que me pego sempre pensando, os motivos das pessoas. Mas no fim a coisa é bem simples e cliché: pessoas vêm e vão e etc. Num dia estamos bebendo juntos e sorrindo com sinceridade, no outro compartilhamos de um belo momento e depois nem nos lembramos mais um do outro. Por isso dou muita importância aos que ficam. E desprezo todos os demais.