Stan Lee: Entrevista para a Playboy

Com 91 anos, Stan Lee é o que pode se chamar de Super Herói Emérito. Suas aventuras épicas estão, em sua maioria, no seu passado e seus poderes estão em declínio (ele não pode ver nem ouvir muito bem e um marca-passo regula seu coração). Mas o escritor de quadrinhos que inventou Homem-Aranha, X-Men, O Hulk, Homem de Ferro e o Quarteto Fantástico ainda trabalha cinco dias por semana, viaja onde qualquer convenção Geek esteja e assina cada autógrafo com sua marca registrada: “Excelsior”!

Filho de pobres imigrantes judeus vindos da Romênia, Stanley Martin Lieber (ele depois encurtou o nome legalmente) nunca se tornou o novelista que aspirava ser enquanto crescia na Upper West Side, em Nova York. Mas fantasiar sobre aranhas radioativas, campos de força magnéticos e beldades como a Viúva Negra deram a ele uma grandiosa vida e um legado que ultrapassará a todos nós.

Em 1939 um tio de Lee o ajudou a conseguir um emprego de assistente na Timely Comics, uma companhia onde o chefe, Martin Goodman (parente de Lee), depois renomeou para Marvel. Mostrando ser promissor ao providenciar texto para Capitão América, Lee se tornou editor da Marvel com 18 anos de idade, um cargo “provisório” que ele acabou ocupando até 1972. Na maior parte desse tempo Lee tomou conta de quase tudo na Marvel até o ponto de ter um esgotamento. Sua carreira só decolou depois que sua esposa, Joan, uma ex-modelo britânica, convenceu-o a criar personagens “do modo que sempre sonhou”.

Entre 1961 e 1965, em um dos mais notáveis rompantes criativos da cultura pop, Lee, trabalhando com artistas freelance como Jack Kirby e Steve Ditko, criou os personagens chave do que seria conhecido como Revolução Marvel (os herdeiros de Kirby anos depois processariam Lee por uma parte dessa criação). Super Heróis não eram mais bidimensionais e bonzinhos, mas peculiares, falhos e angustiados. O Quarteto Fantástico brigava. O Hulk e os X-Men lutavam com seus alter-egos. Até o Homem-Aranha, um personagem que Lee criou — ou assim é contada a história — enquanto ele observava uma mosca andando em uma parede, estava um caco.

As criações de Lee hoje desfrutam de sua maior audiência. Depois de declarar falência em 1996, a Marvel voltou com blockbusters, entretenimento digital e, claro, mais quadrinhos. A Disney comprou a companhia por 4,2 bilhões de dólares em 2009, no entanto, surpreendentemente Lee não recebeu um centavo por isso. Na época ele já tinha criado sua própria empresa, a “POW! Entertainment”. Mas ele sempre será o Sr. Marvel.

David Hochman, editor e colaborador da Playboy, passou dois dias com Lee em seu escritório em Berverly Hills. “Stan tem o rosnado áspero de uma era passada, mas ele é notavelmente afiado, plugado e rápido nas respostas. Todos nós deveríamos ser tão cool quanto Stan Lee nessa idade”.

LEE: Então a Playboy quer saber sobre a minha vida sexual?

PLAYBOY: Se é por onde você gostaria de começar…

LEE: É interessante. Anos e anos atrás a revista estava considerando em fazer uma dessas entrevistas comigo, mas acho que não era a hora. Um de seus editores disse “nós conhecemos Stan Lee. Nós amamos Stan Lee. Stan Lee é amigo de Hef [n.t.:Hugh Hefner, o garanhão dono da revista]. Mas o Homem-Aranha é mais famoso do que ele”. Isso significa que eu finalmente sou maior que o Homem-Aranha?

PLAYBOY: Esse certamente pode ser o caso. Os personagens que você criou décadas atrás dominam a cultura pop. “Homem de Ferro 3” foi o filme com maior orçamento de 2013. “Os Vingadores” foi o maior de 2012. “X-Men — Dias de Um Futuro Esquecido” pode facilmente liderar 2014. Sem mencionar TV, publicidade, merchandising e vídeo games. Como você maneja o continuo sucesso desses antigos Super Heróis?

LEE: É porque os criei tão magnificamente, não acha? Na verdade, tenho uma teoria. Podemos nos tornar filosóficos?

PLAYBOY: Por favor.

LEE: É uma extensão dos contos de fadas que lemos quando éramos crianças. Ou das histórias de monstros, sobre bruxas e feiticeiras. Você envelhece um pouco e você não se importa com histórias de monstros e de fadas mais, mas eu acho que você não perde seu amor pelas coisas que são fantásticas, que são maiores que você — os gigantes ou as criaturas de outros planetas com super poderes que podem fazer coisas que você não pode.

O encanto desses tantos personagens é que eles são extraordinários e ordinários ao mesmo tempo. Isso os fez mais compreensíveis. O Quarteto Fantástico têm poderes incomuns, mas eles também são uma família com suas fraquezas. Sr. Fantástico, por exemplo, pode ser um verdadeiro pé no saco. E o Homem-Aranha era como vários adolescentes — confuso, problemático. Ele tinha complicações tentando achar seu lugar no mundo ao mesmo tempo em que lidava com o fato de ser Super-Herói. O Coisa e O Hulk eram monstros desorientados — aberrações, é o que eram — e isso os deu certo ar patético. Os X-Men eram desajustados magníficos. E tínhamos o Demolidor, que era cego mas podia fazer qualquer coisa melhor do que a maioria das pessoas que enxergavam. Não criei o Capitão América, mas eu tentei fazer dele mais do que só um homem forte que lutava contra caras maus. Tentei dar a ele uma personalidade e seus próprios medos, problemas e frustrações. E sobre Dr. Estranho então?! Amo esse cara, um cirurgião que teve as mãos destruídas em um acidente. Ele teve que lutar para encontrar seu lugar e eventualmente aprender mágica das antigas tradições místicas. Não fizeram um filme sobre o Dr. Estranho ainda, mas farão.

Então veja, quadrinhos para mim são contos de fadas para adultos. Homem de Ferro, Os Vingadores, Homem-Aranha e todo o resto são populares pelos mesmos motivos que João e o Pé de Feijão ainda é popular depois de milhões de anos. São boas histórias sobre personagens que são como nós, mas também maiores que nós. Esse é o fim de minha lição de filosofia. Isso deveria ser esculpido em uma pedra.

PLAYBOY: De um ponto de vista criativo, quais experiências você teve durante o intenso período de 1961 a 1965, quando você escreveu O Quarteto Fantástico, O Espetacular Homem-Aranha, Os Vingadores — que incluíam os personagens Thor, O Hulk, Homem de Ferro e Loki — Demolidor e os X-Men, entre outros?

LEE: Para ser honesto, eu poderia ter feito isso antes; eu poderia ter feito isso depois. Foi só porque meu chefe me pediu para fazer. Por exemplo, depois de eu ter feito O Quarteto Fantástico, Martin, meu editor, disse “Dê-me outro monte de Heróis”. Ele também não estava vibrando com o fato da concorrência, DC Comics, ter a Liga da Justiça. Então fiz o que eu sabia fazer. Criei outro grupo de personagens.

Primeiramente inventei a origem. Como esse grupo conseguiu seus super poderes? Bem, O Quarteto fantástico tinha sido atingido com raios cósmicos. O Hulk foi atingido com raios gama. A propósito, eu não tinha ideia do que raios cósmicos ou raios gama eram, mas eles soavam bem. E eram os únicos raios que eu conhecia. Eu havia ficado sem raios, então que diabos eu iria criar para esse novo grupo? Encontrei a solução mais covarde e disse que eles haviam nascido daquele jeito, que eles eram mutantes. Na verdade eu os chamei de Mutantes. Martin odiou o nome, então mudamos para X-Men. Em um certo ponto nós tínhamos toda a variedade de Super heróis com todas as origens e poderes possíveis.

PLAYBOY: E de algum modo todos eles viviam na cidade de Nova York.

LEE: Oh, isso era conveniente para mim, já que eu vivia ali. Para mim, esses personagens existiriam só se eu pudesse vê-los pela cidade. Tony Stark, o Homem de Ferro, por exemplo, era muito rico e vivia em uma mansão no Central Park. O Quarteto Fantástico vivia no Edifício Baxter, que ficava longe do Centro. Eles podiam então aparecer nos quadrinhos um do outro. Um dia escrevi uma história onde o Homem-Aranha, que vivia em Forest Hills, no Queens, decide que ele não está ganhando o suficiente sendo Super Herói e pensa em talvez se juntar ao Quarteto fantástico. Poderia haver um dinheirinho ali para ele. Então ele vai até a vizinhança do Quarteto fantástico e balança pela janela. Ele diz “Quero me juntar a vocês, caras”. Eles dizem “Nós não estamos procurando por ninguém”. Então ele não se junta a eles.

Diverti-me com todos esses personagens porque eu literalmente sabia onde eles moravam, assim como também sabia como eram suas personalidades. Tudo o que sobrou para fazer foi criar os vilões, que eram ainda mais divertidos do que fazer os Heróis. Até eu ficar sem nomes de animais, estava tudo Ok. Havia o Lagarto, o Escorpião, Dr. Octopus, o Abutre e o Rhino.

PLAYBOY: Isso parece divertido, mas a pressão deve ter sido intensa. Em 1968 a Marvel estava gastando 50 milhões com quadrinhos ao ano.

LEE: Pressão não é a palavra. Eu estava sempre na beira do abismo. Se algo desse errado, eu cairia. Veja, eu não era somente o escritor principal, mas também o editor. Era minha responsabilidade fazer com que os quadrinhos fossem enviados a gráfica a tempo. Se perdêssemos uma data de impressão, teríamos que pagar de qualquer modo, o que custaria milhares de dólares.

Em alguns meses fazíamos 40, 50 revistas. E não só de Super Heróis. Tínhamos todos aqueles outros tipos também — My Romance, Her Romance, Their Romance. Meu editor adorava faroestes com a palavra “kid” neles, então tínhamos Two-Gun Kid, Texas Kid, Rawhide Kid e todo o tipo de “kid”. Naqueles dias eu estava apenas publicando coisas.

PLAYBOY: Qual o seu papel na Marvel hoje?

LEE: Basicamente sou só um rosto bonito que eles mantêm para o público. Toda a minha carreira tratei a Marvel como uma grande empresa, com slogans como “Make Mine Marvel”, “Welcome to the Marvel age of comics” e afins. Depois de um tempo me tornei o embaixador da Marvel no mundo. Palestrei em cada cidade do país provavelmente duas ou três vezes. Estive na China, Europa, Japão, Austrália e em todo lugar por aí. Hoje, meu principal foco é minha própria companhia, “POW! Entertainment”, que significa Purveyors of Wonder [N.t.: algo como Fornecedores de Maravilha], e temos projetos independentes da Marvel acontecendo. Temos um filme para a TV, outro filme com parceiros na China, e também um na Índia. Estamos fazendo uma linha de revistas para crianças e a série Stan Lee’s Superhumans na internet.

Não tenho nenhum lugar na Marvel onde decido que projetos serão feitos ou quem será contratado, e certamente nenhum na Disney, que agora é dona da Marvel. Sou um cara que eles contratam como escritor ou produtor e também para ir a convenções e fazer coisas do tipo.

PLAYBOY: Só para deixar claro: você não tem nenhum direito sobre os personagens que criou.

LEE: Nunca tive. Sempre fui um empregado da Marvel, um escritor contratado e, depois, parte da gerência. Meu papel na Marvel é estritamente honorário. A Marvel sempre teve direito sobre os personagens. Se eu fosse dono deles, provavelmente não estaria falando com você agora.

PLAYBOY: A Disney pagou mais de 4 bilhões pela Marvel há alguns anos. Você pelo menos teve um helicóptero no estilo do Tony Stark na negociação?

LEE: Vou te contar algo que aconteceu recentemente. Minha filha estava olhando na internet um dia desses e leu que “Stan Lee tinha cerca de 280 milhões”. Digo, isso é ridículo! Eu não tenho 200 milhões. Eu não tenho 150 milhões. Não tenho nem 100 milhões ou algo próximo disso.

PLAYBOY: Você não acha que deveria ter?

LEE: Não.

PLAYBOY: George Lucas criou poucos personagens e agora poderia comprar um país se quisesse.

STAN LEE: Sim, mas George Lucas fez tudo sozinho. Ele surgiu com as ideias. Produziu os filmes. Escreveu e dirigiu e manteve todos os direitos de merchandising. Foi tudo ele. Em meu caso, trabalhei para o editor. Se a revista não vendesse o editor falia — e um monte de editores faliu. O artista e o escritor faziam uma “aposta“ com o editor na esperança de que as revistas vendessem bem.

Você tem que entender que ao ter crescido durante a depressão, vi meus pais batalhando para pagar o aluguel. Meu pai sempre estava desempregado e quando conseguia um emprego era como alfaiate. Não havia muito dinheiro ali. Eu estava feliz em ter um bom contracheque e ser tratado bem. Sempre tive um alto salário. Qualquer tanto que Martin pagasse a outro escritor, eu ganharia pelo menos o mesmo. Era um ótimo trabalho. Pude comprar uma casa em Long Island. Nunca sonhei em ter 100 ou 250 milhões ou qualquer número louco que seja. Tudo o que sei é que criei um monte de personagens e adorei o trabalho que fiz.

PLAYBOY: Um dos maiores personagens da Marvel tem sido Stan Lee. Você apareceu em quadrinhos, em uma coluna chamada Stan’s Soapbox e em cameos nos filmes da Marvel, no estilo do Hitchcock.

LEE: Eu até mesmo fiz um personagem baseado no Hef em Homem de Ferro. Todos foram divertidos de fazer. O que eu tomei o maior fora foi provavelmente no filme do Quarteto Fantástico, quando não fui convidado para o casamento de Sue e Reed e não me deixaram entrar. Eu disse “Mas eu sou Stan Lee”, e o segurança empurrou-me para fora.

PLAYBOY: Quando o Stan Lee dos quadrinhos termina e o verdadeiro você começa?

LEE: Honestamente, o que você vê é o verdadeiro Eu, particularmente se o que você vê é um tipo de cara maravilhoso, adorável, interessante e excitante. Então, garoto, eles me deixaram mais humilde. “Por favor, diga que ele disse isso com uma risada“.

PLAYBOY: Brincadeiras a parte, um problema te persegue e afeta seu legado — a ideia de que você levou muito crédito por personagens que você criou com artistas como Jack Kirby e Steve Ditko. Você fez muito para reconhecer suas contribuições e autorias, mas a controvérsia persiste. Algo pode ser feito para acalmar a situação e fazer o certo por esses caras de uma vez por todas?

LEE: Eu não sei o que você quer dizer com “fazer o certo” por eles. Sempre tentei colocá-los na mais favorável luz, até nos créditos. Nunca houve um tempo em que eu apenas disse “por Stan Lee”. Sempre foi “por Stan Lee e Steve Ditko” ou “por Stan Lee e Jack Kirby”. Sempre me assegurei para que seus nomes fossem tão grandes quanto o meu.

Contanto que eles estivessem sendo pagos, eu não tinha nada a ver com aquilo. Eram contratados como artistas free-lance, e trabalharam como artistas free-lance. Em algum ponto eles aparentemente sentiram que deveriam ganhar mais dinheiro. Tudo bem, cabia a eles falar com o editor. Não tinha nada a ver comigo. Eu também gostaria de ter tido mais dinheiro. Nunca fiz disso um problema. Fui pago por páginas pelo que escrevi, o mesmo que outros escritores, talvez um dólar a mais por página.

Se você me perguntar “eles deveriam ter ganhado mais?” Então terei que dizer, John Romita não deveria ter ganhado mais? Gil Kane não deveria ter ganhado mais? John Buscema não deveria? Todos eles foram grandes artistas da Marvel. Em outras palavras, se alguém faz um quadrinho e ele faz sucesso, você volta atrás? Eu não sei. Essa é a razão pela qual eu nunca fui e nunca quis ser um homem de negócios. Eu não sei como lidar com essas coisas.

PLAYBOY: Você fez parte da gerência da Marvel por muitos anos.

LEE: É verdade. E duas vezes, não uma só, eu ofereci trabalho a Jack Kirby. Eu disse a ele “Jack, por que não trabalha na Marvel comigo?” Eu era diretor de arte na época. Eu disse “você será o diretor de arte. Eu serei somente o editor e escritor principal e você terá seguramente isso”. Ele não iria fazer isso. Ele não queria. Eu adoraria ter ele trabalhando lado a lado comigo. Eu adorava o jeito que Jack desenhava. Ele poderia desenhar algo que tivesse aparecido em sua mente, poderia traçar algo assim que tivesse pensado nisso. Eu nunca vi um homem desenhar tão rápido quando Jack desenhou. “Venha trabalhar comigo, Jack”, eu disse. Mas ele disse não. Ele não queria um emprego de funcionário. Tanto ele quando Ditko, não vejo onde foram tratados injustamente.

PLAYBOY: Kirby morreu em 1994. Você se lembra da última vez que o viu?

LEE: Vou te contar, a última coisa que Kirby me disse fui muito estranha. Encontrei-o em uma convenção de quadrinhos pouco antes de ele morrer. Ele não estava bem. Veio até mim e disse ”Stan, você não deve sentir vergonha de si mesmo”. Ele sabia que as pessoas estavam dizendo coisas sobre mim, mas ele quis que eu soubesse que eu não tinha feito nada de errado aos olhos dele. Acho que ele entendeu isso. Então foi embora. Fui a seu funeral, aliás.

PLAYBOY: E como foi?

LEE: Bem, foi terrível. Digo, ele não deveria ter morrido tão jovem. [n.e.: Kirby morreu com 76] Fiquei mais ao fundo porque não queria que ninguém me visse. Era o funeral de Jack. Sua esposa, Roz, me viu. Ela sabia que eu estava lá. Então fui embora, foi isso. Jack era um cara grandioso e também é Steve. Sinto muito que alguém pense que há algum amargor.

PLAYBOY: Steve Ditko está com seus oitenta e poucos anos agora, mas não faz uma aparição pública em décadas. Você tem falado com ele?

LEE: Encontrei-me com ele há cerca de dez anos. Eu estava nos escritórios da Marvel. Conversamos por um tempo, muito amigavelmente. Eu disse que seria ótimo se pudéssemos fazer algo juntos novamente. Eu gostaria disso. Nunca soube por que ele se demitiu, em primeiro lugar. Pode ter a ver com o fato de eu ter dito a ele como fazer as histórias. Com o Duende verde, nós não sabíamos quem de fato era o personagem. Eu queria que fosse o pai de Harry Osborn. Ditko disse “Não, eu não quero que seja assim. Deve ser alguém que não conhecemos”. Então eu disse “Steve, os leitores têm seguido a série por um longo tempo, esperando para saber quem ele é. Se é alguém que nunca viram, ficarão frustrados”. De qualquer modo, não pude convencê-lo e ele certamente não convenceu a mim, então pode ter sido isso que o afastou. Mas ele nunca me disse e não nos vemos mais.

PLAYBOY: Mudando de assunto, uma companhia conhecida como Stan Lee Media recentemente processou a Disney em cinco bilhões, reivindicando os direitos devidos de seus personagens. Isso deve ser irritante.

LEE: É inacreditavelmente irritante, porque as pessoas pensam que sou eu. Eu tive uma empresa chamada Stan Lee Media, mas ela faliu. O sujeito que estava por trás disso está na cadeia nesse momento. Foi uma situação lamentável. Por alguma razão pessoas gastaram anos e Deus sabe quanto dinheiro reivindicando que eu tinha direitos sobre os personagens da Marvel. De novo digo, nunca tive direitos sobre esses personagens. A coisa toda é baseada em nada. Infelizmente não consigo impedi-los de usar meu nome.

PLAYBOY: Vamos mudar de assunto. Ben Affleck recebeu críticas duras há uma década, quando fez o Demolidor. O que você acha dele como o novo Batman?

LEE: Acho formidável! Demolidor não foi um sucesso como os outros filmes nossos, mas acho que não foi escrito ou talvez dirigido como eu o concebi. O filme é obscuro, e fizeram tanta coisa com ele e a igreja. Mas quanto a Ben, fará um grande trabalho como Batman. As pessoas estão dizendo que ele está muito velho. Ouçam, na minha perspectiva, ele ainda é um homem muito jovem.

PLAYBOY: O que você prefere: Tobey Maguire ou Andrew Garfield como o Homem-Aranha?

LEE: Quando vi Tobey Maguire a primeira vez no papel, pensei “ele é absolutamente o perfeito Peter Parker”. Quando vi Andy Garfield no papel, pensei “Andy é mais que perfeito”. Os dois são ótimos e os dois são diferentes. Não é como se pegassem o primeiro cara que vissem na rua para esse papel. Pessoas muito mais espertas que eu escolhem o elenco para esses filmes. Eles fazem um trabalho fantástico.

PLAYBOY: O que você acha da ideia que Garfield levantou em uma entrevista ano passado sobre a possibilidade de o Homem-Aranha ser gay?

LEE: Veja, não posso controlar o que atores dizem ou como se comportam. Posso somente comentar sobre como atuam. E, como eu disse, Andy é magnífico no papel. Eu não tenho nenhum receio sobre o Homem-Aranha. Acho que se ele fosse gordo e flácido e não se parecesse em nada com um super herói, então você ouviria algo de mim, mas há dinheiro demais investido nesses filmes para que eles possam brincar por aí com o elenco ou com a concepção básica de como os personagens são.

PLAYBOY: Qual atriz mais te impressionou nos filmes da Marvel?

LEE: Jéssica Alba foi a garota do Quarteto fantástico, certo? Ela foi incrível. Eu realmente gostei dela. Quem foi a garota em X-men com cabelo curto, muito bonita?

PLAYBOY: Halle Berry.

LEE: Garota amável. Falei com ela por um momento e realmente adorei a atuação dela.

PLAYBOY: De todas as mulheres do mundo dos quadrinhos, com quem você gostaria de ter tido um encontro?

LEE: Nunca pensei nisso. Veja, vou te contar algo que talvez você não saiba: elas são personagens fictícios.

PLAYBOY: Mas algumas são mais sexy que as outras.

LEE: Para mim, a mais sexy de todas foi a Mary Jane, do Homem-Aranha. Amei a ideia. O modo como escrevi, a Tia May sempre tentando fazer com que o Peter Parker se encontrasse com a sobrinha de sua vizinha. “Ela é uma garota tão boa. Acho que gostaria dela”. Bem, para um adolescente, ouvir que ela é uma boa garota era a coisa mais broxante do mundo. Peter evitava sempre se encontrar com ela. Um dia fiz o último painel para a história. Ele não poderia evitá-la mais. Ele disse, “Tudo bem, vou me encontrar com ela”. Ele abre a porta e há essa gostosa que diz a ele “Encare isso, tigrão. Você tirou a sorte grande”. Não sei porque não colocaram isso no filme. Eu amo toda essa ideia. “Encare isso, tigrão. Você tirou a sorte grande”. Ele vê essa garota gostosona, e estava esperando alguma entediante qualquer.

PLAYBOY: A galera da Marvel era tipo um Clube do Bolinha. Vocês devem ter se divertido por trás das criações, pensando em que personagens fariam sexo um com o outro e quem teria o maior pé frio.

LEE: Obviamente nós sempre falávamos sobre o Sr. Fantástico e como ele seria incrível para qualquer mulher, com a habilidade de se esticar da maneira que quisesse. Mas era só isso.

PLAYBOY: Todos os personagens são muito coloridos e foram concebidos em tempos “coloridos”. Houve alguma droga psicodélica ou qualquer outro tipo de droga envolvida?

LEE: Não tenho conhecimento se algum dos artistas usou drogas. Ficaria chocado em saber que Kirby, por exemplo, estava usando drogas. Ou John Romita ou Gil Kane. Esses caras eram homens de família, trabalhadores e eles eram simplesmente talentosos assim. A maioria deles poderia ter sido grandes diretores de filmes. Quando um artista desenha um painel, ele tem várias opções. Ele pode fazer um close-up, uma tomada longa, uma panorâmica ou um ângulo estranho. E eles faziam esses decisões rapidamente, sob a pressão da deadline. Drogas? Acho que não teriam sobrevivido. Eles certamente nunca chegaram ao escritório com um ar diferente, parecendo um pouco viajados ou o que quer que seja. E eu definitivamente não usei drogas. Nunca usei e não sei nada sobre elas.

PLAYBOY: Você pelo menos tentou a maconha?

LEE: Não. Eu praticamente nunca fumei um cigarro. Eu comprava esses charutos fininhos porque você não precisa inalar. Eu apenas soprava, mas eventualmente tive que largar isso porque estavam fazendo furos em meus sweaters. As pessoas comentam o fato de eu ter chamado a personagem de Mary Jane, mas honestamente, eu não tinha ideia de que isso era um apelido para marijuana. Nunca entendi porque pessoas usam drogas. Elas viciam e podem te matar. Eu nunca precisei de algo para me impulsionar ou me fazer mais criativo, e não precisei delas para me ajudar com as garotas.

PLAYBOY: Há um curioso boato online que você e Mick Jagger iam a bares juntos para ver quem poderia pegar garotas mais rápido e que, geralmente, não era Mick Jagger.

LEE: Oh, isso não é verdade. Mas eu direi, uma mulher sairia com qualquer celebridade reconhecida mesmo que fosse a celebridade mais feia do mundo. Essa é a lei da fama. Eu me saí muito bem em meus dias. Eu tinha um Buick Phaeton conversível de quatro portas que eu usava para impressionar as garotas. Mas você não pode competir com estrelas do rock. Eu passei um tempo com o Aerosmith, Alice Cooper e com o Kiss. Gene Simmons colocou seu sangue em um pote de tinta para que pudéssemos dizer que os quadrinhos do Kiss que criamos foram impressos com seu sangue. Esse é o tipo de coisa que as garotas estão procurando.

PLAYBOY: Você foi casado com sua esposa, Joan, por quase 70 anos. Qual o segredo para um casamento duradouro?

LEE: Casar com a pessoa certa. Nós nos dávamos muito bem, mesmo os dois tendo fortes personalidades. Minha esposa, que adoro, é metade irlandesa e tem um temperamento muito forte. Lembro que há anos estávamos discutindo sobre algo e ela ficou nervosa. Ela disse “Vou te mostrar” e pegou a máquina de escrever portátil silenciosa Remington que usei para escrever O Quarteto Fantástico e o Homem-Aranha e todo o resto e jogou no chão. Ela se despedaçou em milhões de pedaços. Gosto de provocá-la e dizer “Joanie, se nós tivéssemos aquela máquina agora, você sabe por quanto poderíamos leiloá-la?”

PLAYBOY: Você tem o Amazing Fantasy #15, a revista que o Homem-Aranha estreou, escondida em um cofre em algum lugar?

LEE: Não. Eu nunca colecionei. Naqueles dias não pensávamos nisso. Quando fazíamos essas revistas nunca pensamos que a arte ou o roteiro teriam qualquer valor. Nós estávamos em um pequeno escritório. As páginas originais eram muito grandes e grossas e uma revista tinha algo como 48 ou 64 páginas. Depois que eram impressos, a gráfica mandava toda a arte original e as provas coloridas de volta para nós e não tínhamos lugar para armazená-las. Nós demos tudo. Algum garoto vinha entregar sanduíches e dizíamos “Hey, menino, quando sair leve essas páginas e jogue em algum lugar”. Se algum desses caras tivesse a ideia de guardar alguma coisa, eles seriam homens de muita sorte agora.

PLAYBOY: Menos crianças leem quadrinhos hoje do que liam nos tempos áureos. Isso te deixa triste?

LEE: Eu não sabia que elas liam menos. Sério? Veja, não sou muito informado sobre o que está acontecendo. Eu só faço meu negócio. Mas não são só os quadrinhos. Tudo está mudando. Tudo está sendo feito em computadores ou iPhone ou iPad. Toda a linguagem está mudando. Palavras terminam abreviadas por causa das mensagens de texto.

PLAYBOY: Você tem algum conselho para donos de lojas de quadrinhos?

LEE: Se eu fosse dono de uma loja de quadrinhos estaria pensando em como posso entrar no negócio de quadrinhos eletrônicos, quadrinhos digitais ou algo do tipo. Não é só com os donos de lojas de quadrinhos que me preocupo. Eu estaria preocupado se eu tivesse uma livraria. Mas não sei. Sou antiquado. Espero que sempre exista uma revista em quadrinhos para crianças e adolescentes e adultos segurarem, porque nada substitui a experiência de virar aquelas páginas, ou cheirar as páginas. Mas sim, tudo está mudando. Em dez anos provavelmente não reconheceremos esse mundo. Graças a deus temos outras mídias. É o que mantém esses personagens vivos.

PLAYBOY: Vamos falar sobe Agentes da S.H.I.E.L.D., a nova série para TV. Está próxima de sua concepção original?

LEE: É algo engraçado, sobre a S.H.I.E.L.D.. Comecei isso porque havia um programa de TV popular na época, O Homem da U.N.C.L.E. e eu quis criar um grupo especial meu. Chamei-o de “Supreme Headquarters, International Espionage, Law-Enforcement Division”. Achei que era meio fofo. Deram à sigla um novo significado agora. Para mim a melhor parte da S.H.I.E.L.D. era Nick Fury, espero que possamos ver muito dele na série. Ele esteve em uma revista mais antiga que criei, “Sgt. Fury And his Howling Commandos”, e o quando o aposentei recebi tantas cartas perguntando aonde ele tinha parado, que eu o trouxe de volta como um coronel. Ele foi o filho da mãe mais durão que já criei e Kirby fez um ótimo trabalho com ele.

PLAYBOY: Muitas pessoas não sabem que seu irmão mais novo, Larry Lieber, ajudou a criar o Homem de Ferro e outros personagens. Como ele nunca foi mais aclamado?

LEE: Larry sempre foi um ótimo escritor e ótimo artista. Ele poderia fazer quase tudo o que eu lhe pedisse. Ele escreveu não só a primeira história do Homem de Ferro, mas também a do Thor. E ele ainda faz tirinhas de jornal diárias do Homem-Aranha. O único problema é que Larry pode ser um perfeccionista. Não é que ele seja mais rápido ou lento que os outros artistas, mas ele tem dificuldade em liberar seus desenhos a não ser que ele esteja 100% satisfeito com eles. Ele sempre trabalhou nas coisas mesmo depois de eu dizer que estavam perfeitas. Acho que isso fez todo o processo um pouco difícil para ele.

PLAYBOY: Qual o personagem da Marvel mais te surpreendeu, em termos de sucesso?

LEE: Provavelmente o Homem de Ferro. Mas muito desse sucesso é por causa do filme. Eu não sabia o que pensar quando Robert Downey Jr. Foi anunciado como O Homem de Ferro. Eu não conseguia imaginá-lo. Quando criei o personagem, eu meio que pensei em Howard Hughes, porque ele era um aventureiro, um inventor, um milionário naqueles dias, e ele era estranho. Para mim Downey não era um Super-Herói; ele era Chaplin. Mas no instante em que o vi eu disse “Ele é o Homem de Ferro”. Acho que ele foi a maior escolha de elenco de todas.

De todos os personagens que fiz, o Homem de Ferro é mais popular com as mulheres. Eu sei disso. Ele é um bilionário e ele é bonito e glamouroso, mas ele precisa de alguém para cuidar dele. Ele tem um coração fraco. “Ah, se eu pelo menos conhecesse um homem assim”. Nós temos mais cartas/e-mails de mulheres sobre essa revista do que sobre qualquer outra. E agora o filme fez dele o personagem mais popular depois do Homem-Aranha.

Hulk, Batman e Bob Kane, a morte, DSTs e uma visitinha de Federico Fellini são apenas algumas das coisas abordadas na última parte da imensa entrevista do mestre para a Playboy.

PLAYBOY: Vamos voltar ao início de sua carreira por um minuto. Você se lembra da primeira revista em quadrinhos que escreveu?

LEE: Foi uma história em prosa em uma das revistas do Capitão América, uma história de duas páginas tipografadas. Ninguém lia essas histórias. Foi por isso que me deixaram fazer uma. Você não pode chamar um gibi de revista e conseguir as taxas postais para revistas sem ter pelo menos duas páginas escritas. Um dia eu estava por lá enchendo potinhos de tinha e apagando páginas para os caras, e alguém disse “Hey, Stan, precisamos de uma história de duas páginas”. Então escrevi uma. E foi isso.

PLAYBOY: Você foi para o exército na Segunda Guerra Mundial e escreveu panfletos militares com um grupo de elite que incluía Frank Capra, William Saroyan e Theodor Geisel. Quais as suas melhores memórias sobre isso?

LEE: Aquele Dr. Seuss ela lento. No mundo dos quadrinhos, você vive e morre em sua própria velocidade, mas Geisel era lento. A maior parte deles era lento. Eu escrevia mais rápido que todos eles. Um dia o major que estava no comando da unidade disse “Sargento, você pode trabalhar um pouco mais devagar? Você está fazendo os outros caras parecerem ruins.” Escrevi o roteiro desses filmes de treinamento sobre coisas que eu não tinha conhecimento. Lembro que fiz um filme, “A nomenclatura e Operação daCâmera16 mm IMO Sob Condições de Batalha”. Mas o que recebeu mais atenção foi algo que escrevi sobre doenças venéreas.

PLAYBOY: Você escreveu um manual sobre sexo?

LEE: Não, eles precisaram de mim para ajudar com que os aliados evitassem doenças. Eles sempre pegavam DSTs. Então eles tinham o que chamavam de estações profiláticas, pequenas construções de um quarto, com luzes verdes no interior. Depois que você tinha contato carnal com uma fêmea, você deveria ir a uma estação de tratamento para ser desinfetado da maneira mais terrível. Minha missão era avisar as tropas para irem às estações de tratamento depois que tivessem feito sexo. Então fiz um pequeno cartum de um soldado. Havia a luz verde. Sobre sua cabeça havia um pequeno balão de diálogo que dizia “DST? Eu não!” Eles imprimiram uns dois milhões desses panfletos. Acho que provavelmente nós ganhamos a guerra com base nisso.

PLAYBOY: É verdade que você continuou trabalhando para a Marvel durante todo esse período?

LEE: Sim. Sempre que eu estava livre eu escrevia algo novo. Comprei um carro com o dinheiro que eles me enviaram enquanto estava no exército. Eu costumava passear com vários oficiais. Alguns eram meus melhores amigos, Majores e capitães, mesmo eu sendo um homem alistado. Eu supostamente não deveria ficar passeando com eles, então eu usava um sweater verde oliva que tampava o a graduação. Nós saíamos e bebíamos e nos divertíamos. Mas eu sempre fui um motorista responsável.

PLAYBOY: Falando nisso, você se lembra do momento em que surgiu a frase “Com grandes poderes vem grandes responsabilidades’?

LEE: A verdade, juro por Deus, é que acho que criei isso para o tio Ben dizer. Mas então alguém me escreveu dizendo que Voltaire havia dito isso em francês há alguns séculos antes. Eu nunca li Voltaire. Eu não falo francês. Eu só gostei de como isso soou.

PLAYBOY: Quando você notou pela primeira vez que havia criado um frisson global com seus personagens?

LEE: Houve muitos momentos. Nós recebíamos cartas de todos os lugares e também visitantes, incluindo alguns famosos. Lembro-me de ser visitado por Federico Fellini. Ele veio e disse que queria me conhecer. Nunca esquecerei. Eu tinha um pequeno escritório no fim de um longo corredor. Recebi uma chamada avisando que ele estava a caminho e vi Fellini andando em minha direção, acompanhado por quatro de seus assistentes, todos vestidos com o mesmo sobretudo preto, todos em ordem decrescente de altura. Fellini era o mais alto, e atrás dele estavam os outros quatro. Foi uma visão engraçada. Eu queria conversar com ele sobre os filmes que fez, 8 ½ e todos os outros. Ele queria conversar sobe o Homem-Aranha. Anos depois ele foi gentil o bastante para mostrar a Itália para minha filha e cuidar dela. Teria sido interessante trabalhar com ele. Ele teria sido bom com os X-Men. Fellini e Magneto seria uma combinação interessante.

PLAYBOY: No próximo filme dos X-Men, os X-Men dos anos 70 se encontram com o grupo dos dias modernos. Você se preocupa se alguém vai estragar seus personagens originais?

LEE: Eu nem penso nisso. Sei que normalmente eles aparecem com algo interessante, e se não, algo mais surgirá. A coisa boa sobre histórias é que você sempre pode encontrar um novo ângulo que será bom. Pra ser honesto, eu há muito tempo deixo isso pra lá. Deixei esses personagens de 1972 quando me tornei editor. Nunca fui um editor de verdade porque editores são homens de negócios e eu não sou. Mas como um editor, eu parei de escrever revistas, a maior parte do tempo. Todos esses personagens eventualmente encontraram seu caminho.

PLAYBOY: O Hulk sempre foi especialmente difícil. Mesmo a popular série dos anos 70, com Lou Ferrigno, é mais camp do que clássica.

LEE: Eles tentaram um Hulk Verde e um Hulk Vermelho e um Hulk Azul. Todo mundo tentou alguma coisa, mas eu acho que todo mundo fez errado. No último filme ele ficou muito bom, e o ator foi muito bom. Mas eles o fizeram grande demais e começaram a mudar sua cor. É algo tão simples. É como Dr. Jekyll e Mr. Hyde, como eu o concebi. Ele é um cientista que se torna um monstro. Ele detesta o monstro e quer se curar de se tornar isso. O monstro detesta o cientista e não quer se aquele tipo de cara que é um nada, um fracote. Ele gosta de ser o Hulk. Para mim, como escritor, eu poderia brincar com isso e surgir com um milhão de roteiros. Por alguma razão, Hollywood continua fazendo o Hulk grande assim, um louco bruto. Algum dia alguém deveria voltar ao básico.

PLAYBOY: Você está excitado para ver “Vingadores: A Era de Ultron”?

LEE: Excitado? Claro. Mas tenho que ser honesto. Eu não tenho ideia de quem seja Ultron. Ele foi um personagem criado depois que eu deixei de estar envolvido nas histórias dos Vingadores. Eu estava perguntando a alguns caras do escritório quem é Ultron, mas meu telefone tocou e fiquei ocupado e nunca descobri. A Marvel introduziu tantos personagens e situações estranhas que é difícil conhecer tudo.

PLAYBOY: Verdade, mas por que nunca mais criamos novos Super-Heróis? Nós ainda, na maioria das vezes, dependemos de personagens como os seus e muitos outros, como o Super — Homem e o Batman, para salvar o dia.

LEE: Bem, editores não precisam de novos heróis agora. Eles precisavam quando eu estava os criando. Meu editor dizia “Hey, Stan, o último vendeu muito bem. Crie algum outro — ou quatro — para mim.” Agora eles não precisam dizer isso. Tudo o que eles tem que dizer é “Quando vamos encontrar tempo para fazer um filme sobre o Homem — Formiga ou publicar outra edição do Surfista Prateado?” Temos muito material que a audiência adora na reserva. E você sabe que Hollywood adora algo certeiro. Não há fins de semana ou canais de TV ou estantes de livrarias suficientes para todos os títulos que a Marvel planeja lançar. Não é só Capitão América, Quarteto Fantástico, Demolidor e o resto. Temos dúzias para desenhar, e os fãs ficam perguntando “Stan, quando eles vão fazer algum filme sobe o Pantera Negra?” Por coincidência, eu mesmo adoraria ver um filme do Pantera Negra. Sei que estão trabalhando em um. Mas os fãs dirão “E sobre o Homem — Formiga? Ou os Inumanos? Ou o Aniquilador?“.

PLAYBOY: Depois de décadas de eventos como a Comic-Con e agora seu próprio Comikaze Comic — Book Expo, você deve estar cansado de perguntas de fãs geeks.

LEE: Eu gosto das perguntas e sempre tento dar alguma resposta engraçada. Por exemplo, eles dizem, “Quem Ganharia, Hulk ou Galactus?” Eu digo, “Depende de quem está escrevendo a história”. “O que fez você trabalhar tão duro e fazer todas essas histórias?” Eu digo a eles, “ganância”. Mesmo se eu já tiver ouvido a questão 800 vezes antes, sempre teto dar a eles uma resposta que eles não esperam. Como quando perguntam “Que tipo de super poder você queria ter?” Digo “Sorte, porque se você tem sorte você tem tudo”. Na verdade eu acredito nesse.

PLAYBOY: Você mencionou o Homem — Formiga um minuto atrás. Qual é o status da versão para cinema?

LEE: Está vindo. [Nota do Editor: O filme, dirigido por Edgar Wright, com Hank Pym interpretado por Michael Douglas, e com Scott Lang, está programado para Julho de 2015] O que é incrível sobre o Homem — Formiga é que ele é pequeno e pode fazer um monte de coisas que uma pessoa normal não pode, mas ele também é incrivelmente vulnerável. A coisa mais importante com qualquer herói é que ele em que ser vulnerável. Se alguém nunca pode ser machucado, não tem graça. Um dos problemas que eu sempre tive com o Super — Homem é: como posso me importar com ele? Você não pode matá-lo, você não pode machucá-lo. Mas com um cara pequeno como o Homem — Formiga há tantas coisas que ele pode fazer, mas ele está em perigo a cada minuto de sua vida. Há essa tensão de pensar que ele deveria ficar maior e mais ágil. Para dar outro exemplo, nos filmes mais recentes o Batman esteve mais vulnerável, e isso o fez mais interessante.

PLAYBOY: Falando do Batman, como era uma noite na cidade com seu amigo e criador do Batman, Bob Kane?

LEE: Ele sempre estava atrasado, para começar. Nós fazíamos uma reserva em um restaurante para as 19:30 e Bob com sua esposa chegavam às 20:30. Se nos atrasávamos meia hora eles se atrasavam meia hora mais. Isso se tornou um jogo. Eles estavam sempre mais atrasados que nós. Então assim que nos sentávamos, depois de alguns segundos ele tinha que dizer ao garçom “Você sabe quem eu sou? Sou Bob Kane. Eu desenho o Batman. Veja, vou te mostrar” E ele desenhava um pequeno Batman. Ele era feliz sendo quem era. Você podia notar isso. Ele nunca estava no horário para jantar, mas ele amava Batman e amava ser reconhecido por isso, e nós tivemos bons momentos falando sobre esses personagens. Tive vários bons momentos.

PLAYBOY: Tem sido uma vida fácil para você?

LEE: A vida nunca é completamente sem desafios. Tenho uma nova válvula no coração que foi colocada há dois anos. Tenho um pouco de asma, fico cansado às vezes. Mas não tenho tido muita angústia. Digo, certamente no começo da minha carreira, antes do Quarteto Fantástico, eu batalhei. Eu sentia que nunca iria chegar a algum lugar. Mesmo depois eu ainda ficava embaraçado ao dizer que escrevia quadrinhos para viver. Eu tinha muita vergonha sobre isso. Mesmo quando eu já tinha uma boa vida, meu pai não pensava em mim como alguém de sucesso. Ele estava muito fechado em si mesmo na maior parte do tempo. Algo disso me afetou. Eu sempre ficava olhando para as pessoas que estavam se saindo melhor do que eu e desejava estar fazendo o que elas faziam. Steven Spielberg ou um escritor como Harlan Ellison, ou até mesmo Hugh Hefner. Parte de mim sempre sente que eu ainda não cheguei lá.

PLAYBOY: Você já fez terapia?

LEE: Nunca tive tempo, não. Mas se alguém me pedir uma auto avaliação, eu diria que sou particularmente normal, um cara equilibrado. Eu sou só um cara que gosta do que faz.

PLAYBOY: Você começou sua carreira escrevendo obituários. Você já pensou sobre o que gostaria que o seu dissesse?

LEE: Sei que o meu já está escrito. Está ali descansando em algum computador do New York Times. Está pronto para ser publicado. Você não pode parar isso. Tive uma vida feliz. Não quero que ninguém pense que tratei Ditko ou Kirby desonestamente. Acho que tivemos um relacionamento maravilhoso. O talento deles era incrível. Mas as coisas que eles queriam não estavam em meu poder para dar a eles.

Sempre estou olhando adiante, mesmo nessa idade. Sabe, meu lema é “Excelsior”. É uma velha palavra que significa “para cima e para frente rumo à grande glória”. Está no selo do Estado de Nova York. Continue adiante e, se é tempo de ir, é tempo. Nada dura para sempre. Inferno, estou com 91 anos. Se eu tiver de ir enquanto falo com você, eu tive uma vida longa o bastante. Eu detestaria deixar minha esposa e minha filha, mas Deus sabe que está acima de mim. E eu nem acredito em Deus na verdade.

PLAYBOY: Na revista nº 700 de O Incrível Homem — Aranha Peter Parker morre em uma batalha com Doutor Octopus.

LEE: Sim, mas ele não morre. Eles o trazem de volta, ou vai acontecer dele nem ter morrido de verdade. É como Sherlock Holmes. Amava Sherlock Holmes quando era mais novo, e havia tantas situações. Ele sempre saía de cada uma. Você nunca fica sem ideias.

PLAYBOY: Talvez haja uma versão zumbi do Spidey.

LEE: Zumbis são intrigantes para mim. Eles estão no ápice agora, mas nunca os entendi. Pense nisso: se eu estivesse morto e voltasse à vida eu não sairia por aí tentando matar pessoas. Eu estaria dizendo “Wow! Sou o cara mais sortudo do mundo. Não é incrível? Olá, sua pessoa maravilhosa, vamos sair e nos divertir” Se eu morresse em um instante e de algum modo voltasse, eu não estaria bravo. Haveria uma grande festa.