PARIS IS BURNING

Há pouco tempo a Netflix renovou seu catálogo e no meio dessa atualização veio Paris is Burning, um documentário sobre a Cultura Ballroom de Nova York nos anos 80.Vencedor do Grand Jury Prize Documentary no Festival de Sundance em 1991, o longa explora a vida noturna nova iorquina através da ótica de gays, drag queens e mulheres transexuais, suas lutas diárias, o orgulho de sua identidade e do que fazem, seus sonhos e esperanças.

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Dirigido por Jennie Livingston, o filme levou seis anos para ser produzido com um orçamento de apenas quinhentos mil dólares e arrecadando mais de quatro milhões de dólares de bilheteria. O documentário foi um sucesso na época e puxou os holofotes da mídia mainstream para esse universo marginal, ainda que durante pouco tempo.

BALLROOM

Uma ballroom é um baile, uma festa na qual a comunidade LGBT negra e latina de NY sentia-se livre para serem quem quisessem ser. Além de uma simples festa, a ballroom também é uma competição na qual as pessoas desfilam divididas em categorias tentando servir a realness daquela categoria, isto é, tentando passar a imagem mais próxima do real que a categoria supõe.

A ballroom permite às pessoas performarem uma realidade que geralmente lhes é negada devido à etnia, sexualidade ou identidade de gênero, tanto é que existem categorias de Executivo, Militar, Supermodelo (uma das categorias preferidas dos gays afeminados, drag queens e travestis nos anos 80) e Opulence, uma categoria que surgiu durante o hype da série de televisão Dinasty na qual os personagens são extremamente ricos.

Uma das categorias da ballroom é o Vogue, uma dança de rua estilizada que surgiu nos presídios de Nova York por volta dos anos 60 sob o nome de “Pop, Dip and Spin”. Os movimentos são inspirados por hieróglifos egípcios e poses de modelo de revistas, afinal, um dos poucos materiais de entretenimento a entrar nos presídios nova iorquinos era a revista Vogue e era dela que os presos gays tiravam inspiração para suas batalhas de dança.

O Vogue recebeu esse nome e se popularizou por volta dos anos 80, hoje ele é mais diversificado e divide-se em algumas categorias: Old Way, New Way, Femme Soft Cunt e Femme Dramatics.

HOUSES

As houses são famílias unidas por um laço afetivo para além do sangue. Essas famílias se formam a partir dos legendary, os competidores lendários das ballrooms que adquiriram fama no circuito após vencerem diversos troféus e que concedem seus nomes às houses, eles adotam suas crianças, outras pessoas LGBTTQ que geralmente foram expulsas de casa e não tem pra onde ir. Também pode-se dizer — como é dito no próprio documentário — que as houses são a versão gay das gangues de rua, mas ao invés de brigarem com socos e pontapés, elas competem dançando e desfilando na ballroom.

PERSONALIDADES

Ao longo do documentário somos apresentados à algumas das principais personalidades da comunidade LGBT do Harlem nos anos 80, as legendary — pessoas que fizeram seu nome no circuito das ballrooms ao ganhar muitos trófeus — e alguns de seus púpilos. Infelizmente, grande parte das personagens que ilustram o filme com suas histórias de vida foram mortas pelo preconceito contra pessoas LGBT.

Angie Xtravaganza, mulher trans e mãe da House of Xtravaganza

Pepper Labeija, mãe da House of Labeija e uma das mais famosas drag queens da história

Willi Ninja, mãe da House of Ninja e um ícone do Vogue

Dorian Corey, uma das principais drag queens da cena LGBT do Harlem nos anos 80

Freddie Pendavis, membro da House of Pendavis, não desfilava nas ballrooms, mas estava sempre ajudando Kim.

Kim Pendavis, membro da House of Pendavis e uma das legendary child durante a gravação do documentário. Alguns sites afirmam que ele era um homem trans.

Venus Xtravaganza, da house of Xtravaganza. Ela é uma mulher trans e uma das personagens mais carismáticas do filme, sonha em ter uma casa, se casar e fazer a cirurgia de transição de sexo, infelizmente foi assassinada em 1988 num quarto de motel, provavelmente um ataque transfóbico.

Paris Dupree, mãe da House of Dupree, organizava a ballroom Paris is Burning que deu nome ao documentário

Octavia Saint Laurent, da House of Saint Laurent, é uma mulher trans que sonha em ser modelo. Durante o filme acompanhamos sua tentativa de entrar no mundo das passarelas.

É difícil tentar colocar em palavras a magnitude desta obra e das histórias de vida que a compõem. Cada pessoa traz uma enorme carga de vivências e opiniões, falam da sua luta contra as drogas, do medo que tem da aids e os riscos do trabalho sexual, mas também falam de seus sonhos e aspirações, das esperanças de um dia serem famosos no mundo branco e hétero mainstream.

Paris is Burning é um documentário para ser reassistido de tempos em tempos, é muito mais do que um filme sobre um bando de bicha dando pinta num salão qualquer, ele carrega importantes lições sobre a dura vida das pessoas LGBT num mundo dominado por homens brancos heterossexuais, mas também ajuda a manter viva a memória de uma cultura e de um povo tão marginalizados que desfilam com orgulho de serem quem são.