Terminal

Dia 1

Sentada em um dos bancos de madeira, avisto uma senhora de andar majestoso segurando um leque gigante. Ainda não sei como segurei a vontade de gritar um: VRÁAA! Tive certeza de que estava acontecendo um encontro de “meliores” pessoas no terminal, quando, na sequência, uma mina apressada, ao fazer uma ultrapassagem no meio da multidão, ao invés de “licença” disse: bip bip!!!!

Dia 2

Funcionários brincam felizes daquele rolê de criança de bater as mãos (tipo adoleta). Aproximei-me justamente no momento do grand “Miau” do final e vi a felicidade constrangida que lhes corou a face quando a cantiga acabou e deram por si tão destoantes em meio a multidão de zumbies rumo ao trabalho. Sorri também, porque contagiada e solidária.

Dia 3

Eu vi você. Você estava com aquela camisa polo verde água, daquelas que se ganha de uma tia distante. Na verdade, não chegamos a nos conhecer ao ponto de eu saber teus gostos de moda. Mas não te imagino entrando sozinho em uma loja de shopping e provando camisas polos como qualquer outro burocrata. Eu vi você passar pelas catracas por onde há poucos minutos também identifiquei um calouro que amo muito e uma amiga por quem, além de amor, sinto admiração. Eu estava ali invisível dentro do meu ônibus com o olhar fixo nas catracas. Usufruindo do privilégio de não ser notada para olhar fixamente para quem eu quisesse. Até que você apareceu. Meu olhar então não teve mais qualquer desejo que não o de mirar você. A sua barba está tão maravilhosa. Parece que ganhou peso e eu fico feliz com isso por lembrar que você tinha complexos de garoto mirrado. Eu queria sair do ônibus para o olhar mais. Seguir seus passos sem nada dizer. Eu não canso de querer lhe desvendar. Os anos não apagaram minha fome de descobrir quem é você, ainda que tenham apagado o desejo. Nunca mais voltei a experimentar algo como aquilo que vivemos.⁠⁠⁠⁠ Eu e você, passageiros.