Sub Pop: 25 anos de “romantismo” no mercado musical
Entenda a relação dos grupos com a lendária gravadora de Seattle, que busca “diversão” ao fazer negócios

por LUCAS BRÊDA
14 de maio de 2014
Com mais de 25 anos de história, a gravadora Sub Pop ainda mantém em torno do seu nome uma mítica que atrai tanto fãs de rock alternativo quanto bandas que não buscam o mainstream. Sobrevivendo em uma era na qual até os grandes selos sofrem para se manter, a gravadora traz ao Brasil um festival com três das bandas que tem hoje no catálogo: Mudhoney — que há 25 anos lançou o primeiro EP pela companhia — METZ e Obits. Nesta quinta, 15, os grupos escolhidos por Mark Arm, vocalista do Mudhoney, tocam em São Paulo, no Audio SP, e depois seguem para o festival Bananada, em Goiânia, no dia seguinte.
“Não sei se já tivemos um ponto alto, se vamos ter algum ponto alto, ou se este é o ponto alto, isso não importa muito para mim”, confessa Arm, em conversa por telefone à Rolling Stone Brasil. Assim, ele acaba resumindo o espírito dos grupos que assinam com a Sub Pop, que se tornou ícone depois de lançar os primeiros discos de nomes que viriam a se transformar em gigantes do grunge (o Nirvana é o exemplo mais clássico). Ainda sem se preocupar, Arm tem vivido uma boa fase com o Mudhoney: em 2013, eles lançaram o elogiado álbum Vanishing Point, o filme do primeiro show internacional que fizeram (Mudhoney: Live in Berlin 1988) e o documentário I’m Now: The Story of Mudhoney .
Jonathan Poneman, cofundador e presidente da Sub Pop, diz que para ele a escolha das três bandas para o festival “pareceu ser a combinação lógica para levar uma experiência particular da gravadora ao Brasil”. Com fala devagar e serena — em junho do ano passado, Poneman descobriu que tem mal de Parkinson –, ele parece mais um amigo do que um “patrão”, um executivo ou alguém que está preocupado em vender discos.

“Não sei se é exclusivo da Sub Pop, mas, por exemplo, no último verão, eu, minha esposa e meu filho viajamos para a costa oeste, e passamos em Seattle. Eu fui ver os caras da Sub Pop como amigos, sabe? Com a minha família, fora do contexto do rock and roll”, conta Sohrab Habibion, guitarrista do Obits. “Se minha banda terminar amanhã, isso não vai me impedir de falar com alguém da gravadora: ‘Ei, vamos tomar uma cerveja!’.”
A sensação de um romantismo na forma de garimpar, contratar e se relacionar com essa proximidade das bandas ganha força no discurso de Poneman: “Nós somos uma empresa, mas não temos os negócios como prioridade. Nossa prioridade é ter uma vida boa, nos divertir muito e ter muito rock. Em outras gravadoras, talvez haja muito mais ‘negócios’ do que aqui.”
Alex Edkins, vocalista e guitarrista do METZ, corrobora com o presidente da gravadora: “Eles são pessoas maravilhosas. Não pressionam a gente para fazer qualquer coisa, ou para mudar nossa música, e acho que fazem isso com todas as bandas. Eles simplesmente dão apoio ao que você ama fazer.”
“Todo mundo lá, como o Poneman, é fã de música, sabe?”, acrescenta Habibion.
Em um mercado musical que vive de sucessos cada vez mais encaixado em fórmulas e no qual a venda de álbuns físicos deixou de ser a principal fonte de renda, Mark Arm mantém uma vida bem pé no chão. Quando não está em turnê com a banda dele, trabalha empacotando discos no depósito da Sub Pop. Poneman, por sua vez, faz amigos e se diverte lançando álbuns dos quais gosta e mantendo em alto volume o som que lhe move. “Na Sub Pop, contratamos quem a gente ama”, afirma o empresário. “A gente gosta do som primeiro e depois pensamos em como fazer dinheiro com isso.”
MUDHONEY E O BRASIL
Desde a volta para a Sub Pop — após uma sucessão de três discos lançados pela Reprise (Warner Bros.) nos anos 1990 –, o Mudhoney tem mantido uma relação próxima com o Brasil. “A primeira vez que fomos aí foi em 2001 e foi bem legal”, diz Arm. A banda já tocou em Londrina, Brasília, São Carlos, Salvador, Goiânia, São José do Rio Preto e Mogi das Cruzes, entre outros lugares, ao longo da última década. “Sempre nos divertimos muito. As plateias são fantásticas, a comida é maravilhosa.”
Atualmente, o Mudhoney tem sido seletivo em relação a cair na estrada — mesmo com um disco recente, a banda só toca casualmente. “Gosto de ficar em casa, com a minha esposa, meu cachorro, ir surfar, e trabalhar aqui na gravadora”, ele diz. Apesar de ter sido pioneiro no grunge, influenciando e sendo contemporâneo de diversas bandas a difundir o gênero, Arm nega qualquer rótulo de grandeza: “Eu não sei de quem você está falando quando diz ‘músico importante’. Não sei como explicar, é apenas minha vida.”
Mesmo tendo “irmãos famosos” na cena de Seattle, como Nirvana e Soundgarden, que têm hits noventistas cultuados até hoje, Arm revela apreço pelo presente e pela satisfação pessoal, que nada tem a ver com o sucesso. Na letra de “I’m Now”, de The Lucky Ones (2008), ele canta: “O passado não fez sentido, o future parece tenso, eu sou o agora!” (“The past made no sense, the future looks tense, I’m now!”). Em “Our Time Is Now”, de Since We’ve Become Translucent (2002), os versos seguem em uma linha semelhante: “Nosso tempo está chegando, nosso tempo é agora” (“Our time is coming, our time is now”).
A FORÇA DO METZ AO VIVO
A potência em shows é a maior característica do grupo canadense METZ — que lançou apenas um álbum, autointitulado, em 2012. “Metade do que fazemos tem a ver a ver com a maneira com que tocamos, o quão pesado nós somos e quanto tiramos o melhor de nossos instrumentos”, afirma o guitarrista e vocalista Alex Edkins.
Ele explica: “Não teríamos como fazer isso de outra maneira. Nossa música exige isso de nós. Se tentássemos fazer de outro jeito — mais confortável, ou pegar mais leve — a música não se traduziria por completo”. METZ, o disco, traz dez petardos, com guitarras barulhentas e os gritos incessantes de Edkins.
Em processo de composição do segundo álbum, o trio — que fez quase 200 shows no ano passado — deve apresentar a íntegra do LP de estreia por aqui, complementando o repertório com músicas novas e uma cover não revelada. “Acho que será mais… ‘seco’ do que o primeiro [álbum]”, comenta ele sobre as inéditas. “Mas ao mesmo tempo com mais variações nas melodias. Acredito que vai ser mais maluco e mais experimental.”
OBITS: RIFFS E POTÊNCIA VOCAL
De Nova York, o Obits já tem três discos lançados, sendo o mais recente deles Bed & Bugs (2013). Com um instrumental mais elaborado, o grupo destoa da pegada punk do METZ e do Mudhoney, tendo nos riffs de guitarra e principalmente no vocalista Rick Froberg os grandes trunfos. “O Obits é uma banda sensacional. Froberg tem uma das vozes mais fantásticas do rock”, endossa Mark Arm. “Amo o jeito que as guitarras dele e do Sohrab [Habibion] se sobrepõem.”
Para Habibion, a banda se firmou por ser “o mais próximo de uma banda tradicional de rock and roll”, uma vez que os integrantes já estiveram em outros projetos anteriormente. “Nós tocamos guitarra de um jeito totalmente diferente. É bem interessante ver como, musicalmente, conseguimos nos encontrar”, ele conta. O resultado, em músicas como a instrumental “Besetchet”, do último disco da banda, é uma conversa de riffs e solos criativos e difíceis de rotular.
