Foto: Ricardo Stuckert

Reconquistar o povo, ex-aliados e o centrão desgarrado: Lula começa a desenhar sua estratégia pessoal para 2018

Lucas Santana
Aug 23, 2017 · 4 min read

Em caravana nordestina, líder petista quer ouvir a base eleitoral do partido e retomar conversas com PSB e desgarrados do PMDB de Temer

O início da jornada “Lula pelo Brasil” na região nordeste carrega a mensagem explícita de que o ex-presidente quer se reaproximar de sua base eleitoral mais fiel na região. Além dos numerosos discursos nos estados do Nordeste, Lula está ouvindo muita gente por onde passa. Muita gente mesmo. De trabalhadores mais pobres à líderes de movimentos sociais e políticos, incluindo velhos caciques conservadores locais.

Depois de passagens meteóricas por Bahia e Sergipe, onde fez discursos em praças lotadas, estações de metrô e em atividades de movimentos sociais, na chegada a Alagoas pelo Rio São Francisco Lula subiu no palanque de Renan Calheiros e seu herdeiro, o governador Renan Filho. Era o aceno que o clã precisava para tentarem colar em Lula no próximo ano.

A caravana avança em seguida para Pernambuco, onde Lula novamente deve arrebatar trabalhadores da base petista e se encontrar com aliados. Há na agenda um esperado encontro com Renata Campos, viúva do ex-governador Eduardo Campos, morto em um acidente de avião durante a campanha presidencial de 2014.

A estratégia

Caso se confirme o encontro com os Campos, será mais uma etapa concluída da estratégia pessoal de Lula para o ano que vem, que busca o reencontro do líder com o povo severamente prejudicado pelas políticas pós-golpe de 2016 a fim de convencê-los de que a atual política econômica é desastrosa e que ele e o PT podem fazer o país voltar “aos trilhos”.

Na onda de popularidade de Lula, antigos aliados do ex-presidente também querem surfar. E o ex-presidente sabe disso.

Renan Calheiros se mostra no mínimo receoso sobre os destinos do país e demonstra interesse na candidatura Lula. Em diversas ocasiões o senador criticou a política econômica do atual governo e acenou para outra alternativa. Como o cenário se desenha hoje, com a crise política e econômica nas costas do PMDB, Lula seria mais útil a Calheiros do que o contrário.

O ex-presidente ainda entende que o apoio do Partido Socialista Brasileiro (PSB), ligado à família Campos em Pernambuco, é importante para a eleição de 2018. Parceiro do PT desde a redemocratização, o PSB teve dificuldade de diálogo no governo Dilma, o que causou o rompimento da sigla com o governo e o apoio ao impeachment no ano passado. No governo Temer, a base do partido se divide entre apoiar e criticar o governo.

E o PT?

É importante saber que o PT não tem interferência direta nas decisões de Lula em sua caravana pelo nordeste. O encontro com Renan não foi pautado em discussões internas. Tudo é decidido pela equipe do ex-presidente. O que o PT fará com a estratégia de Lula ainda é uma incógnita. Há muita resistência interna à ideia de dividir palanques com caciques locais, em especial do PMDB golpista.

Algumas dúvidas ficam no ar para o partido: ao mesmo tempo que a militância e setores da esquerda criticam Lula por repetir fórmulas do passado, o que fazer com o “centrão” do PMDB que não se identifica nem com Temer nem com o PSDB? Vale a pena se aliar a ele para conseguir apoio em 2018? Em caso de aliança com essa turma, os setores progressistas vão exigir uma mea culpa pelo golpe?

Eleição de 2018 não deve repetir cenários anteriores

O núcleo do PMDB governista segue tentando encontrar um caminho para a próxima eleição. E a direção aponta para algo oposto a 2014. Interlocutores de Temer tentam aproximar o prefeito de São Paulo João Dória para o partido e lançá-lo contra Lula. Isso se conseguirem convencer o paulista a deixar o PSDB de Alckmin e ainda declinar da mesma proposta do DEM de Rodrigo Maia para disputar o governo em sua sigla.

Fica claro que oficialmente o PMDB não irá fechar apoio à candidatura Lula em 2018. A dúvida é se quadros como Renan Calheiros, Kátia Abreu e Roberto Requião — aliados de Lula — vão dividir o barco ao meio ou se vão pular fora.

Lula também já disse não querer repetir o governo de 2003.

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Lucas Santana

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Jornalista. Ainda acredita na tecnologia, na mídia democrática e na política como instrumentos transformadores da sociedade.

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