Alívio ou abismo?

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Ele te observa. Cada passo, cada pensamento que tu tens. Ele sabe. É como estar em uma casa escura, fria e bizarra. Não parece haver saída desse labirinto claustrofóbico. Lá dentro, nada além do silêncio, interrompido apenas pelo baque surdo das batidas do teu coração. A iluminação fraca impossibilita saber o que está há mais de um palmo à tua frente. Sabe-se que existem dois tipos de temor: o que antecipa o pior e te prepara e o que paralisa.

Inicialmente, és tomado pela sensação de desamparo, de que o pior vai acontecer e nada vai te proteger. No escuro, isso é ainda mais intenso, a paranoia comanda teus movimentos e parece mais sensato olhar para todos os lados de forma quase incessante, em constante estado de alerta. A tua sobrevivência parece depender disso. Em todos os casos, tememos a perda. Ouvi mesmo dizer que homem que nada teme é homem que nada ama.

E isso tudo é tão esquisito, tão assustador. O mistério que envolve o desconhecido é a escolha entre dois caminhos, igualmente gélidos e sombrios. Um deles leva à redenção. O outro, ao abismo. Nunca há como saber qual caminho nos levará à ruína. De todo modo, tem que se escolher um. E assim segues com as mãos geladas, suando frio, veias aceleradas, olhos tentando enxergar além do que são capazes e coração golpeando a garganta.

O Sr. Medo pode estar caminhando atrás de ti, tudo o que ele mais quer é te alcançar. Seus passos são lentos, dificilmente serás capaz de ouvi-los, mas ele é ágil. Por isso é preciso ter cuidado. Ele ouve tua respiração, prevê teus movimentos. É uma força querendo te vencer e dominar, capaz de paralisar tua carne.

Tu caminhas no corredor mal iluminado, passando por lugares em que te assustas, até mesmo, com tua própria sombra e com teu reflexo por entre os espelhos. E se ele surgir de repente? Sim, dá medo do próprio medo. Apreensivo, desejando ter feito a escolha certa, aumentas o passo. O caminho parece não ter fim, ele te deixa mais desconfiado. Teus passos aceleram e corre, junto a eles, inquietação em tuas veias. Nos pensamentos, indecisão. Se eu voltar correndo ele me pega, mas e se eu ficar?

O medo é uma armadilha, que te enlaça e te sufoca.

Finalmente chegas à porta. Uma vontade de chorar e gritar invade teu corpo, ele está cada vez mais próximo de ti. Simultaneamente, tua mão toca a maçaneta e uma mão toca teu ombro. A poucos segundos da libertação, tu não questionas, tens de abrir a porta e encarar: seja o alívio ou o abismo.