O tempo que não passou

Lívia olhava para o relógio nervosamente. Já havia se passado muitas horas. Tantas, que o que antes era o amarelo solar iluminando sua cama, agora era a penumbra púrpura da noite a envolvendo. A espera, intensificada pela sua impaciência, parecia mesmo ter durado um sem-fim de horas. “Engraçado como os ponteiros do relógio podem abrigar os segundos e também a eternidade, não é?” pensava, um pouco indignada com tamanha falta de lógica.

Aos poucos, no ritmo vagaroso dos ponteiros do relógio fixo à parede azul de seu quarto, ela percebia que não adiantava esperar ali sentada. Nada mudaria antes do tempo estabelecido.

No entanto, era o que todos queriam, não era? Que ela esquecesse logo, que deixasse o passado para trás, afinal “já fazia muito tempo”. À medida que os marcadores se arrastavam pesados sobre os números, ela notava o óbvio que ninguém parecia perceber: o tempo, em sua inconstância, acontece à sua própria maneira.

Em momentos exatos, ela observou, o tempo parece se compadecer de nós. Então nos permite mais espaço para refletir, para sentir, para crescer… A vida não desacelera para que possamos nos recuperar do que quer que seja, mas os ponteiros parecem caminhar mais devagar nos permitindo mais tempo. Cada pessoa tem o tempo que precisa. Nada a mais, nem a menos.

O tempo emocional é algo tão profundo, particular e puro, que chega a ser hostil a insistência para que saremos logo, já.

Com suas próprias vontades, nosso tempo emocional não corresponde às condições cronológicas habituais. Não pode ser mensurado, nem ultrapassado antes do momento certo. Em nosso íntimo, ele apenas pede para existir naturalmente. Apenas pede para existirmos, naturalmente, junto aos nossos sentimentos. Precisamos viver o que ele nos incumbiu, seja alegria, seja dor. Assim, um dia, poderemos deixar certas coisas no passado.

E Lívia, ainda que cansada, sabia que era preciso respeitar sua demora. Sabia, também, que as outras pessoas teriam que lidar com isso e deixá-la sentir tudo aquilo até passar. Apenas deixá-la sentir.