Exposição “Proximal”

A coleção de arte de Marcelo Bozza reúne trabalhos que, provavelmente, não compartilhariam o mesmo espaço em expografias e catálogos mais “tradicionais”. Porém, uma vez colocadas em contato, estas obras conformam uma atmosfera inusitada de diálogo e familiaridade.

Insistimos em exercícios de aproximação e estabelecimento de relações em um contexto global que reafirma diferenças e fronteiras com veemência. Neste intuito, descobrimos que pontos em comum são também pontos de partida.

Então, naturalmente, comecei o percurso tentando entender de onde vem a vontade de exibir uma coleção particular. Como pesquisador e cientista, Marcelo sumarizou: “a natureza da coleção é ser exposta”. Pois bem. Concordamos e, daí, seguimos.

Ao deslocar do privado para o público, da casa para a galeria, Bozza compartilha um pouco da convivência íntima que ele (e sua família) têm com estas obras e seus autores. Não por acaso, os trabalhos desembarcaram na KM7 — literalmente, a “residência artística” de Marcelo Brantes, que é xará, amigo de longa data e artista estimado do colecionador. De uma casa para a outra, a mudança temporária é suave e, ainda assim, expressiva.

Fica claro, então, que Proximal é reflexo de uma experiência cotidiana e afetiva. Afinal, artistas e cientistas, colecionadores e curadores são motivados por suas investigações e paixões pessoais. Esta exposição é, inclusive, uma tentativa de compreender a coleção: como exibir? Em que ponto o colecionar se cruza com o processo curatorial?

A interseção se deu em uma poética expositiva que não busca evidenciar “critérios de colecionismo”. Sobretudo, porque temos certa desconfiança a respeito destes parâmetros: não raras vezes, eles são mutáveis e inapreensíveis. Logo, esta reunião (mais que uma seleção) de obras é, sim, resultado de escolhas. Mas também de oportunidades, encontros, desejos.

Sendo assim, o que se vê na galeria são “efeitos de conjunto”: tentamos traduzir no espaço o percurso intuitivo e não-linear que tem constituído a coleção. Este arranjo afetivo permite desviar, ainda que momentaneamente, de critérios definidos por notoriedade, pelo mercado, por pontos de vista históricos e/ou formais — algo que o apego (ou o vício) às categorias tradicionais de organização e valoração artísticas, provavelmente, não permitiria acontecer.

É daí que, por exemplo, coabitam a mesma “casa”: o primeiro trabalho vendido pela iniciante Maíra Barillo e a obra do veterano Ronald Duarte. Os tridimensionais minimalistas de Elmar Thome com a subversão dos objetos cotidianos de Daniela Seixas. A cartografia anatômica de Arjan Martins com as paisagens abandonadas de Jonas Arrabal. Os desenhos urbano-contemporâneos de Virgílio Neto com os desenhos antropofágicos de Flávio de Carvalho. E isso só para dar uma pincelada no que Proximal exibe.

Em vez de buscar um discurso legitimador para o colecionismo, Marcelo celebra seu feeling de colecionador: entre um trabalho e outro, constitui uma coleção junto aos artistas, por meio de gestos de incentivo, atitudes de amizade e ações de reconhecimento.

O colecionismo tem como valor intrínseco o tempo. Seu registro e apagamento. Valores de permanência e desgaste. Questionamentos sobre memória e momento. Incentivo e investimento. Para Bozza, as obras de sua coleção têm algo de “fósseis contemporâneos”. Alguns pelos materiais, outros pelas técnicas e até pelos contextos em que foram produzidos. Mas todas falam de um presente que já nasce contaminado de muitos outros tempos, constituindo registros vivos do ecossistema das artes.

Para além das construções narrativas que uma coleção pode desencadear, seu acervo pessoal tem uma dinâmica própria, uma pluralidade fascinante. Uma espécie de arqueologia que estabelece conexões entre autores e revela ligações entre obras, colocando os artistas no centro do processo.

Fico com a impressão de que, realmente, nenhum encontro é por acaso.