Exposição “Responder a tod_s”

Quando fui convidada pelo Raphael Fonseca para colaborar na atualização brasileira do projeto “Reply all” iniciado em Manchester, a primeira coisa que perguntei foi sobre as relações entre _s artistas envolvid_s. Ele me respondeu: “agora, todos se conhecem. Mas ninguém se conhece de verdade”. E não é assim com todo mundo, o tempo todo, no mundo todo?

A desertificação da vida cotidiana nos leva a uma paisagem de isolamento, onde fronteiras e diferenças são criadas e reforçadas, registrando o senso global de insignificância e solidão. Neste sentido, a provocação da curadoria é exatamente esta: a intimação para nos conhecermos. De verdade. Um exercício de comunicação, intimidade, diálogo, superação de fronteiras, troca de lugar, imersão e empatia. Encontros improváveis, resultados desconhecidos.

Então, “Responder a tod_s” não é um replay do que foi mostrado na Inglaterra. Passados meses e quilômetros, todos os trabalhos apresentados aqui-agora no Rio de Janeiro são novos. Assim como os contextos das duplas que os produziram. Afinal, acontece de tudo com todo mundo… E nos interessam as respostas que não temos para estes acontecimentos. Deste modo, as obras colocam (propositalmente) o público num lugar de especulação. O mesmo lugar que a proposta curatorial deixou os artistas: e se ao invés de refletir sobre aquilo nos diferencia e nos separa, levássemos em conta o que nos une? Para além da divisão cartesiana que nos (des) organiza em sociedades e culturas, haveria um lugar-comum?

Entre o dialogar e o executar, a exposição se faz pela íntima associação entre estes verbos. Como registros visuais de conversas que tivemos e viagens que fizemos, as criações falam de contextos estranhamente familiares, de estarmos na constante presença de ausências, de formas naturalmente artificiais, de conversarmos sem nos ouvirmos, de olhar novamente para aquilo que observamos todos os dias ou de olhar para trás com outros olhos. Como uma caixa de memórias que, ao ser esvaziada, revela marcas no fundo, mas não nos permite lembrar exatamente o que estava ali dentro ou o porquê de ter sido guardado.

O conjunto final chama atenção porque, mais que remeter aos procedimentos criativos, explicita os vínculos entre _s artistas. E isto pode ser um caminho de leitura para as relações pessoais-mediadas que estabelecemos a todo momento. É difícil discernir as horas e os percursos que _s levaram a chegar até aqui. E a vertigem provocada pelo espaço-tempo condensado nestas obras é comparável à experiência diária da expectativa de ser respondid_ e da angústia de ser compreendid_.

Sendo assim, “Responder a tod_s” é uma conversa sobre maneiras de conceber obras vivas tendo as relações humanas como ponto de partida. E, a julgar pela delicadeza destas relações, é bem provável que vamos sair daqui sem respostas.

Foto: Rafael Adorjan