Exposição “Urbanidade”

“Urbanidade” é um desdobramento dos trabalhos apresentados por Cacau Rezende na série “Desenhos” de 2013. Desde então, é possível identificar uma marca em sua produção: o gosto pelas cores, pelos traços, pelas linhas. Sua paleta é bastante singular: rica, viva, quase-pop. De modo que as cores não são usadas para “descrever” elementos — elas bastam a si mesmas. E, da mesma maneira, não dá para saber se são as linhas que seguem o artista ou se ele é conduzido por elas. Um fluxo contínuo como a própria malha urbana. Não se trata de linhas que delimitam, mas que apenas sugerem. O percurso é por nossa conta.

Agora, na mostra apresentada na KM7, os desenhos ganham corpo, dando forma a uma nova ambientação urbana — o que Cacau chama de “exoespaço”: algo que está “fora” da nossa concepção tradicional de cidade — tanto espacialmente, como ideologicamente. O que vemos é uma configuração mais organizada (porém, não hierárquica) que pressupõe diálogo e participação. Assim, esta dimensão está mais próxima de um conceito plástico e ideal de “pólis” — onde todos são livres e iguais, do que de uma mera abstração formal da cidade como a conhecemos cotidianamente — com seu caos e desigualdades característicos.

Diferentemente do lugar onde vivemos aqui-agora, nesta distopia contemporânea narrada com discursos opressivos e cuja metáfora imagética é a de um beco sem saída, Cacau nos apresenta uma dimensionalidade fluída e pictórica, que é a visão de uma outra cidade, um mundo ideal. Algo que deveríamos vislumbrar. Ou melhor, ter como objetivo.

O artista está em busca de soluções e respostas. Então, pinta um caminho desejável. E faz isso com cores. Muitas cores. Elas revelam seu afeto pelo cotidiano na cidade. Seu interesse está no ir e vir, no entrar e sair. Nos movimentos, usos combinados e distribuídos ao longo dos espaços e tempos. Por isso, a concentração de Cacau na força do desenho. Labirintos cromáticos e animados que nada se assemelham ao clichê urbano cinza e retorcido.

Este tema tem sido uma das principais motivações do artista: grande parte do seu tempo é dedicado a pensar sobre a cidade, como ela se molda de acordo com as necessidades e vontades sempre mutantes dos seus diversos agentes. Como uma tela que nunca termina de ser pintada.

Aí está o vértice onde se encontram o Cacau engenheiro, político e pintor. Com suas linhas projetivas, ele constrói uma cidade antropomorfizada, que é o personagem principal dos seus quadros (de sua profissão e de sua militância). Então, podemos dizer que “Urbanidade” se faz no entrecruzamento da experiência estética, da abstração técnica e da reflexão política. Fruto de uma pesquisa cotidiana que investiga e recorta a paisagem urbana, assinalando os pontos de interesse a serem desenvolvidos e enfatizados — às vezes como imagem, às vezes como ações.

Então, os elementos que compõem a exposição são parte da reelaboração de um contexto vivido. Por isso, a expografia é encorpada com croquis, imagens de projetos realizados, tirinhas de jornal e um vídeo — que é um registro vivo dos movimentos criados por Cacau. Finalmente, como a cidade nunca é silenciosa e se alimenta de ruídos, o áudio-ambiente preenche o espaço expositivo, dando voz à pluralidade do engenheiro-artista.

Frequentemente, estas figuras (a do artista e a do engenheiro) são colocadas como distintas e antagônicas, corpos que se estranham no jogo produtivo. Uma representaria aquele que processa a realidade executando a obra com poéticas, estéticas e sensações-sentimentos; a segunda é vista como responsável por viabilizar ideias e dizer, por meio de planos objetivos, até onde a potência criadora é capaz de se realizar e expandir materialmente. Cacau é a prova de que tal entendimento não passa de cartesianismo e “Urbanidades” é a celebração deste entrelaçamento. Não se trata de valorizar objetivamente a ciência ou a arte, a produtividade ou a criatividade, a política ou o prazer. Mas de valorizar o desejo de realizar coisas e a vontade de mudança. Vamos concordar que sem essa pulsão, nenhum projeto, em qualquer área, aconteceria. E, em última instância, a arte é um instrumento de transformação.

A produção artística ativa a cidade e vice-versa. Sendo assim, esta exposição é a experiência de um ambiente vivo, a partir do qual não é possível definir uma perspectiva, pois são intricadas as visões, sensações, sonoridades e relações que se dão no espaço-tempo das paisagens urbanas percorridas e discutidas por Cacau. A cidade não nos cerca: nos constitui.

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