O 11 de julho

Ludimila Ferreira
Sep 9, 2018 · 4 min read

Todo mundo em algum momento vai ter seu 11 de julho. O dia em que você vai surtar e desistir. O dia em que vai voltar para casa mais cedo e se enrolar no cobertor enquanto tenta se distrair da crise assistindo vídeos no YouTube ou aquela série da Netflix.

Cada um já vem com um problema diferente, o problema, é que eles ficam piores. No meio do caminho você não percebe que está adoecendo — fisicamente e, principalmente, psicologicamente. Depois do primeiro choque com o barulho de tanta gente falando ao mesmo tempo, parece que você é anestesiada, então é sugada pela rotina e não percebe que está enlouquecendo — se posso chamar assim.

Eu acredito que há algum prazo de validade para as pessoas que entram no mundo do telemarketing, eu não sei qual é, mas atingi o meu. E essa é a minha história. (Pelo menos, uma parte dela.)

Imagine viver num mundo com pessoas gritando com você por 5 horas e 40 minutos. Imagine viver num mundo onde você não pode sequer olhar para o lado sem alguém dizer “vamos lá, olha a conversa, foco”, quando na verdade você ainda nem disse nada. Ser privado da interação humana pois tempo é dinheiro. Impor-se ser motivo para mais perseguição barata e algum tipo de punição.

De repente você não está mais no trabalho, está na prisão.

No começo, você é bem cuidado para a exposição, depois que todos já te conhecem e uma nova leva chega ao estábulo você vira só mais uma mercadoria barata e substituível. Trabalhamos em baias como cavalos, mas cavalos amarrados. A diferença é que cavalos, normalmente, são bem tratados.

A primeira vez é sempre mais fácil.

Murmúrios altos demais. Caixa de abelha. Show do seu ídolo adolescente — só que pior. Pode chamar do que quiser. Quase cem pessoas conversando ao mesmo tempo, entre si, ao telefone, consigo mesmas. A primeira vez assusta pois você nunca tinha reparado o que são tantas pessoas aglomeradas no mesmo espaço, com uma única ventilação vindo do teto, dividida em alguns ares-condicionados, e você não sabe que dali um tempo você nunca mais vai melhorar da gripe, e que nem é gripe. Que sua garganta nunca mais será a mesma. Que você tem mais alergias do que achava que tinha.

A primeira vez é horrível.

Mas seus ouvidos acabam acostumados com o ruído constante. Você entra na rotina, faz amigos, segue todas as regras, se sente mal por ficar doente e não percebe que ficou doente por causa do ambiente de trabalho, se sente mal por ter que faltar, levar um atestado, vai trabalhar doente. Fica mais doente ainda. É como aquela história de Perséfone que é raptada por Hades e levada ao mundo inferior: você é Perséfone. Passado os três meses, você está presa para sempre lá embaixo. É manipulada a colocar a empresa em primeiro lugar.

Um ano depois as coisas começam a ficar estranhas, e com estranhas quero dizer que você começa a ficar louca. Alguns “colegas” de trabalho chamam de frescura, minha psicóloga chama de ansiedade.

Gritaria. Ninguém gosta de gente gritando com você ou ao seu redor.

Gestão abusiva que tenta te manipular e acreditar que está inventando histórias. Se não tivesse em quem se apoiar talvez se achasse mesmo louca. “A ditadura está de volta”, é o tipo de coisa que passa pela sua cabeça quando é sábado, está entardecendo e você não vê pois vive dentro de um aquário, tem mais cinco horas de trabalho pela frente, ao telefone, alguém vai gritar com você, alguém vai te tirar do sério, tirar seu chão. Alguém vai gritar com você e não vai ser ao telefone. A pessoa que deveria te gerir, vai te destruir.

Você busca abrigo, como a maioria, no banheiro, mas mesmo assim é lugar barulhento demais para ficar quando sua mente está à 1000/h. Você deseja estar em qualquer outro lugar. Você tenta segurar o choro, mas as lágrimas insistem em cair. Quando você voltar para a baia, todo mundo vai saber que você chorou.

Frescura.

Na maior parte do tempo você tem medo de se tornar um número não relatado de suicídio, de tantas histórias que você ouviu onde o banheiro não foi refúgio suficiente para alguém. Você já é um número, o 7000 e pouco, mas ainda respira e tem esperança. Esse texto é para todos que a perderam, e se perderam, no meio desse caminho tortuoso e obscuro chamado call center. Eu estou apenas começando.

Escrevo demais e tiro fotos no espelho - www.lu.blog.br

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