Músicas e décadas

Escadaria do cine Indaiá, em 13 de janeiro de 1997. Alguns papagaios nos acompanhavam, entre eles o Luiz Ponce, o Leandro Sotto e mais algumas figuras que eu não lembro.

Eu vestia uma camiseta da Guess, uma saia da Ópera Rock, um meião e um Adidas Superstar. Eu não lembro a roupa que você vestia e certamente você também não. Aposto que uma bermuda de surf, um All Star velho e uma camiseta que você não escolheu.

Não entramos no cinema.

Demos uns beijos e minha mãe logo apareceu pra me buscar.

Afinal, eu tinha 14 anos. Catorze.

Não paramos de nos falar desde então. Claro, que pessoalmente sempre tinha um ou outro. O que mais lembro é do Luiz, sempre segurando uma vela como desculpa para minimizar a preocupação dos meus pais. Afinal, tinha o Luiz junto, né? Luiz já tinha feito a imagem de bom moço dele, passando as tardes em casa ensinando as meninas da oitava série sobre física, química, matemática.

Já você: 18 anos, magrelo, inicialmente tímido, levemente encrenqueiro, começando a faculdade (e eu na escola). Recém dirigia um Gol quadrado, meio bronze e calorento.

Nossa história começou assim, ao som da Jovem Pan, Macarena, do axé que chegava letargicamente em Santos — e de muitas músicas esquisitas.

Um ano depois não parávamos de ouvir UB40 e Counting Crows. Impossível não passar um filme na cabeça ouvindo essa música.

De vez em quando o Luiz trocava o CD (aquele cujo carro não podia trepidar) para Alanis ou The Fugees. Aliás, faz VINTE ANOS que ele não devolve seu CD do Fugees, caso você tenha esquecido. Favor cobrar em comida, pois depois de duas décadas anos ele aprendeu a cozinhar muito bem.

Ao contrário de nós.

Já namorávamos há uns anos, saí da escola, comecei a trabalhar, fui pra faculdade, abrimos uma empresa e saímos da faculdade no mesmo ano. Eu abandonei, você virou engenheiro.

Começamos meio que “sem saber direito o que estávamos fazendo”, iniciando um negócio juntos. Depois de cinco anos namorando e contrariando todo mundo.

Nunca foi difícil contrariar todo mundo, aliás. A gente mesmo começou nossa história contrariado se detestando virtualmente no mIRC.

Recentemente, o Fabio Pedroso disse que eu era “meio irritadinha”. Injusto. Eu só tinha 14 anos e falava o que pensava. E que coincidência, você também.

Um dia você me viu num encontro de nerds sem saber quem eu era. Viramos amigos muito rápido e você era muito mais legal do que parecia. Seus amigos eram engraçados, o que eu achava ótimo. Com quatro anos a menos eu preferia as piadas idiotas deles do que as dos meus amigos de 14 ou 15 anos.

Tinha MTV. Tinha boliche. Tinha muita praia e tardes que faziam o tempo se multiplicar. Tinha tanta coisa que acontecia junto em um mundo que ainda era bem separado. Poucos usavam a Internet como a gente usava e de fato nos sentíamos o elo entre dois universos: o dos nossos pais e o dos nossos amigos.

A gente amadureceu.

Ou não. Nos separamos adolescentemente por exatos 60 dias uma única vez, pra isso nunca mais acontecer depois.

Eu ouvi tanta música ruim nesses dias sem você. Mas foi tanta que você não faz ideia.

Anos depois, viramos empreendedores juntos. Fazer isso sem o Google era foda. Sobrevivemos ao Altavista. E a tantas tecnologias, PCs, softwares, browsers e players de MP3 que só aí dá pra fazer.

Trabalhamos muito. Mais do que parece, talvez menos do que deveríamos. Talvez o suficiente.

Passamos por muitas coisas, mas até aí todo mundo fala isso.

No nosso caso, tem uns pontinhos a mais no nosso ranking. Trabalhamos muitos dias em jornadas duplas ou triplas. Passamos por muitas semanas, dias, com dúvidas se aquilo ia dar em algum lugar bom.

Vimos muita gente namorar, casar, separar. Várias festas. Algumas mortes pelo caminho. Alguns sustos, muitas surpresas boas.

Um câncer, uma sobrevivência. Logo depois de triplicarmos de tamanho.

Alguns gatos, um apartamento.

Viajamos tardiamente, mas com parte do tempo recuperado em milhas aéreas. Foram alguns países, ainda não suficientes. Nova York muitas vezes, longe das vezes que precisaremos voltar lá.

Nesses anos teve Burt. Muito Burt. Em shows ao vivo, inclusive. Foram 3, aqui no Brasil e fora também. Mas ainda foram poucos, afinal violins are never enough.

Em uma das nossas viagens em 2013, lembro que alugamos uma town house fantástica em São Francisco. Ao entrarmos no quarto de casal havia um quadro pendurado. Ao longo de tantos anos, poucas coisas tiveram um lirismo tão profundo.

Era uma memória do casamento do casal dono da casa, um quadro com a letra de This must be the place.

Poucas músicas representam tão bem esses 20 anos.

E eu gosto dessa versão específica.

Nossas duas décadas juntas anos tem essa letra.
Tem violino pra cacete.
Tem cabelo branco.
Tem um palco que vira ao fundo.
Tem coro por mais de 7.300 dias.

Que ainda é pouco.

Love you so much, baby.

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Home is where I want to be
Pick me up and turn me round
I feel numb burn with a weak heart
(So I) guess I must be having fun
The less we say about it the better
Make it up as we go along
Feet on the ground
Head in the sky
It’s okay I know nothing’s wrong nothing

Hi yo I got plenty of time
Hi yo you got light in your eyes
And you’re standing here beside me
I love the passing of time
Never for money
Always for love
Cover up and say goodnight say goodnight

Home is where I want to be
But I guess I’m already there
I come home she lifted up her wings
Guess that this must be the place
I can’t tell one from another
Did I find you, or you find me?
There was a time before we were born
If someone asks, this where I’ll be where I’ll be

Hi yo We drift in and out
Hi yo sing into my mouth
Out of all those kinds of people
You got a face with a view
I’m just an animal looking for a home
Share the same space for a minute or two
And you love me till my heart stops
Love me till I’m dead
Eyes that light up, eyes look through you
Cover up the blank spots
Hit me on the head ah ooh

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