Novos meios digitais: a sociedade pode ser a incubadora?
Saiu na quinta-feira, 20 de julho, o maior estudo já feito sobre meios jornalísticos digitais na América Latina, um documento que vai consumir muitas horas de leitura e análise dos empreendedores e da academia, mas que traz um recado para a sociedade. Para transmiti-lo, será necessário encontrar um porta-voz e uma narrativa.

Entre as muitas conclusões do estudo, do qual fui responsável pelo capítulo Brasil, destaco duas muito relevantes.
A primeira. Vários dos meios que participam da pesquisa, apesar de pequenas operações de mídia, conseguiram causar impacto com suas reportagens, produzindo benefícios para a sociedade, como derrubar políticos corruptos, modificar leis ou mudar a percepção das pessoas sobre um determinado tema. Muitos deles sofreram represálias por suas publicações como ações judiciais orquestradas, ataques de hackers ou fuga de anunciantes.
A segunda. Apesar de muitas histórias de sucesso, de meios que já conseguem um bom resultado financeiro com baixo investimento, esse ecossistema ainda em formação convive com o desafio cotidiano de encontrar fontes de financiamento que garantam a sustentabilidade e, por consequência, a independência editorial.
Quanto mais impacto provocam esses meios nativos digitais, maiores as chances de represálias e mais risco financeiro eles atraem. Quanto mais o meio se fortalece e causa impacto, mais ele expõe suas fragilidades.
Com a decadência econômica dos meios tradicionais de informação e o surgimento de vazios informativos ocupados imediatamente por informação não verificada ou, no seu limite, por fake news, cresce a importância de um ecossistema digital consistente para que o jornalismo se mantenha como uma instituição fundamental para a democracia. Esse vácuo tenderá a aumentar se o espaço coberto pela mídia tradicional diminuir numa velocidade maior que a capacidade de ocupação desse espaço pelos novos meios digitais. É necessário, a meu ver, aditivar o combustível dos novos empreendimentos para que eles possam evitar o surgimento desse vazio.
Acredito que estamos diante da inevitável e inadiável tarefa de discutir a criação de um fundo público e privado que fomente o surgimento de novas organizações de mídia, que apoie e ajude a dar sustentabilidade aquelas que já estão operando, que financie novos projetos e reforce o ecossistema do jornalismo digital.
Se o jornalismo é fundamental para a sociedade, precisamos provar isso a ela e pedir seu apoio. Precisamos de ideias e boas referências para apoiá-las. Quem se habilita?
