Por que abrir mão da voz do público?

Os comentários dos leitores e a nossa incapacidade de criar relacionamentos com aqueles que nos acessam

A diferença entre publicar e socializar é crucial para a comunicação e determina o modo como tratamos as audiências e, por consequência, o resultado de muitas das nossas ações digitais.

Publicar era a ação natural nos meios analógicos, de tornar uma informação pública, de levar conhecimento, um ato relacionado diretamente a uma entrega.

Socializar, por sua vez, é um processo de integração, que busca um sentido coletivo, que invoca um espírito de cooperação, de adaptação, um ato relacionado diretamente a ser e fazer parte.

Com o surgimento da internet, o meio essencialmente interativo, a comunicação recebeu as condições necessárias que antes não dispunha para ser finalmente social. A indústria da mídia, porém, sempre tratou essa questão de forma rasa e quando a enfrenta, o faz longe dos seus próprios ambientes.

A comunicação é refém de uma antiga lógica de volume, que trata público ainda como massa. Cada sujeito desse público, no entanto, se vê e quer ser tratado como indivíduo, como alguém que está disposto a ouvir, mas quer também ser ouvido. Mesmo considerando isso uma obviedade, devemos admitir que estamos pouco dispostos a ouvir e que nosso olhar não costuma ir além da leitura de relatórios de dados de analytics. O leitor pouco se importa em ser tratado como estatística, desde que a ele se garanta a voz e se dê atenção quando ele a pede. Essa disposição deveria ser bem-vinda porque o engajamento e a fidelização sempre poderão produzir muito mais conhecimento do que o relatório quantitativo de analytics.

Há uma má vontade com a participação do público nos nossos canais que fica mais evidente quando olhamos para os espaços de participação que oferecemos a ele. Essa participação está submetida quando muito a uma caixa de texto no pé de página e os comentários ali postados são para muitos profissionais conteúdo inóquo, que só produz aborrecimento.

Eu, ao contrário, acredito no potencial do comentário para ser parte da narrativa, muitas vezes para melhorar uma história. Tanto que sempre defendi que o autor deveria participar do processo de moderação e ser eternamente responsável pela interação com o público no âmbito do que publicou. A conversação que ele é capaz de estabelecer nesse ambiente pode ampliar o tempo durante o qual um conteúdo permanecerá relevante. A conversação é o oxigênio que manterá vivo esse conteúdo por mais tempo.

Sem nunca abrir mão da capacidade do próprio público de influenciar no ranking do que é mais relevante, a curadoria do próprio autor é fundamental para valorizar o que o público aporta de informação importante e até para ignorar o que deva ser ignorado.

Muitas publicações, no entanto, estão fechando suas áreas de comentários e terceirizando para as redes sociais o espaço de conversação. Não há melhor prova de que ainda pensam apenas em publicar e não em socializar. Ignoram que cada debate que se instala em torno de um post é uma nova comunidade que se cria. Ela é efêmera e se desfaz na medida do interesse que a publicação é capaz de manter, mas a satisfação desses indivíduos com suas possibilidades de participação pode ser a chave para o engajamento, a garantia de que eles se reunirão em novas comunidades em torno dos novos temas e publicações do canal.

Precisamos enfrentar essa nossa incapacidade de construir relacionamento com o público e tratar a socialização como um segundo passo obrigatório após a publicação. Não deveríamos estar ainda debatendo se vamos ou não nos envolver, mas como vamos nos envolver com as pessoas que nos acessam.

Este artigo foi originalmente publicado no blog InteratoresPR no portal da Aberje.
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