13/11/2010

Oi, já ta saindo? — Daqui a pouco.

Essa foi a última mensagem que recebeu dele.

Eram umas cinco da tarde. Estavam combinando de fazer algo juntos depois que ele saísse do trabalho. Coitado, era um sábado, ter que fazer plantão é uma merda. A semana tinha sido conturbada. Praticamente uma briga por dia, se reconciliaram na sexta. Essa saída tinha que ser a melhor possível, pois teriam a casa para si durante todo o feriado, a família tava fora. Ela já sonhava com o abraço quente enquanto dormissem juntos, pois era raro que conseguissem fazê-lo.

Seis horas. Devia estar enrolado, trabalho é foda. Ela se distraiu falando bobagens no twitter e jogando no computador. Pensou na roupa que ia usar e em como ia deixar a casa perfeita pra receber ele. Decidiu que talvez fosse melhor esquecer a saída e partir direto pro abraço que não teria hora para acabar.

Oito da noite. O celular ta desligado. O ramal não atende. Ele não responde no gtalk. O lugar onde ficava o prédio do trabalho não era dos mais seguros. Já tá escuro. Que merda, que merda. Cadê ele? Filho de uma puta, tá me enrolando. Ou então decidiu fazer uma surpresa. Seria tão ele, isso de surpresa. Teve aquele dia da aliança, foi lindo. Ela serviu exatamente. Cadê ele? To preocupada. Aparece, porra.

Nove e quarenta. Espero até as dez e vou direto pra porta da casa dele. Ligaria pra mãe porém ela me odeia, certeza que vai mentir sobre ele estar lá ou não. Se demorar demais eu vou dar um jeito. Puta que pariu onde que você se enfiou. Pega celular e chave. Vai andando mesmo porque essa hora não tem ônibus, ainda mais sábado, né.

Quase meia noite, desiste. Ligo ou não? O celular segue mudo. Nenhuma mensagem. Anda até o portão. Vê algo estranho ao lado do prédio. Olha, é o seu carro. Puta merda, porque não me avisou nada?

Seu carro ta com o pneu furado e uma outra dentro enquanto vocês se beijam. Como assim furou o pneu. Como assim você tá beijando outra. Eu grito, ela não entende nada. Você sai, dá a volta no carro, pega ela pela mão como o perfeito cavalheiro que é e sai andando como se eu não tivesse ali.

Sei lá a hora, vê bem se eu tenho cara de relógio. Eu grito, tu olha e me ignora e ainda diz que não sabe do que eu to falando pra outra. A guria me ameaça, diz que é advogada e que vai chamar a polícia pois não vai aceitar uma louca gritando com ela. Eu grito mais alto, tu não tá ouvindo? Ele mente pra ti também. Tu é mina, você tem que me entender, o mentiroso é ele.

Eu paro de gritar, parto pra cima dele. Ela entra na frente e me ameaça de novo. Eu empurro tão fácil como se ela fosse um rato enfrentando um elefante enfurecido. Ele se aproxima. Dela. E saem andando como se eu fosse um pedra na qual ela tropeçou. Eu grito até ficar rouca. Grito até doer. Grito até morrer. Tu me vira as costas e segue seu rumo como se eu sequer existisse.

Se tem uma hora pra morrer, é essa. Eu olho pra via expressa e respiro. Tá vindo. De novo, ando. Ando, não, corro. Corro como quem aceita que não tem mais nada a perder. Vem o baque. Vem a queda. O celular espalhado na pista, os óculos quebrados ao lado. A dor da queda, qual delas? A dor da vergonha arde no meu rosto esfolado pelo asfalto. Mais gritos, mas não são os meus.

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