45 graus

Era sexta-feira. O sujeito tinha dinheiro no bolso e queria gastá-lo. Numa cidade sem opções, não demorou saber aonde iria. Era sempre o mesmo lugar, mas como de costume, chegava em casa com histórias para contar e era o que importava. Tudo bem que a maioria delas eram altamente alcoólicas, com frequência envolvia alguma atitude idiota de um amigo ou até dele próprio e amanheciam incompletas, mas, para o sujeito em questão, o mosaico de opiniões digladiando em busca do melhor retrato da madrugada era divertido e amenizava a ressaca que o acompanharia.

No ambiente apertado o som era agradável e o calor predominava. A quantidade de pessoas não ajudava no conforto, mas isso era algo que esqueceria em duas doses de uísque. Doses essas difíceis de serem adquiridas devido a descomunal fila. Todos queriam inebriar-se. Mal sabia o sujeito que não precisaria de álcool para isso. A beleza faria as honras naquela noite.

Desnorteado em meio a multidão, seus olhos foram atraídos. O fascínio foi imediato por razões que ele não saberia explicar. A mulher não tinha atributos que chamava atenção de todo e qualquer homem — conclusão que tirara após 10 minutos de conversa com os amigos no balcão — porém, encontrava-se embasbacado por aquela desconhecida que mexia o corpo de forma tímida e franca ao som da música.

Ela dançava sacudindo descompromissadamente seu cabelo quando ele resolvera aproximar-se. Na medida em que as caixas de som permitiam, desenrolaram uma conversa. Perceberam em alguns minutos que tinham pouco em comum, apesar disso, existia ali atração mútua. Beijaram-se.

Na manhã seguinte não lembraria de quase nada da noite, exceto da garota. Ele não a gravara, pintara-a em sua mente como obra de arte que era. Inesquecível seria aquele sorriso estampando no rosto dela. Rosto que levantava em um angulo de 45 graus mostrando olhos meio baixos de metade sono, metade embriaguez, quando insistia em lembra-la de que era linda.

Nunca mais a vira.


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