Garçons
Estávamos — Eu e Ela —bebendo algumas cervejas em um bar como fazemos comumente quando encontramos tempo para ficarmos juntos, o que não é difícil, mas os próximos meses vão incidir um afastamento obrigatório devido o retorno das aulas na universidade e nossos respectivos trabalhos, e isso nos assusta. Ela falava que perdi o hábito de escrever e não tive outra opção a não ser concordar. No meio do bate-papo, propus-me o desafio de escrever sobre qualquer coisa e disse: “dê-me um tema”. Ela hesitou alguns segundos, mas decidiu: “garçom”. Bem conveniente.
Garçons estão em extinção, os bons pelo menos. Não pense que a profissão resume-se em pegar a cerveja mais gelada no congelador, é necessária alta capacidade de lidar com pessoas e mascarar todos os problemas para atender bem. Garanto que não gosta de ser recebido por alguém mal humorado por causa da derrota do curintia ou devido uma briga com a esposa. O ofício não permite o isolamento para reprimir o fel. É necessário honradez para servir.
Sempre admirei os bons garçons. Eles têm a capacidade de entender o cliente no primeiro contato. Conseguem diferenciar os carrancudos que querem ser atendidos com discrição dos plácidos que precisam daquele bate-papo bem humorado para levantar os ânimos. É impressionante. Sem contar que ser bem atendido salva dias, e há quem dirá vidas. Quantas vezes não voltou atrás e tirou uma ideia idiota da cabeça após algumas palavras trocadas com o cara que você chama por “jovem”, “psiu!” ou “ei!”.
Mas existe também os garçons ruins. Os que mais detesto são aqueles que não conseguem ir além do que mostra o cardápio do estabelecimento. Do tipo que não tem a capacidade de trazer sanduíche sem ervilha como solicitou porque o papel plastificado que carrega diz que o lanche tem que vir com aquelas esferas verdes sem gosto. É foda! Existe também os garçons cegos, que nunca te enxergam; os preguiçosos, que fingem que não te enxergam; os bêbados, que bebem mais que você, entre vários outros. A impressão que tenho é que garçons ruins têm várias classes, enquanto os bons são completos: te enxergam, te atendem com educação, escutam com atenção, são rápidos e carismáticos. Estabelecimentos deveriam entender que não é a fachada que mantém o cliente, é o atendimento.
Vou te contar, deu até vontade de ir em um dos meus botecos prediletos ser bem atendido e tomar uma gelada. Abraço!