Jardim de bitucas e tampas de cerveja

Para onde miram os olhos quando as recordações invadem nossa cabeça?

Estou ansioso. Não há uma boa razão, sou simplesmente assim. São 15 horas de um sábado e resolvo enfrentar o calor infernal que minha cidade proporciona para uma caminhada até a conveniência mais próxima. Vou adiantar algumas cervejas enquanto meus amigos não aparecem. Algo inédito acontece, saio de casa sem me preocupar com meu cabelo, os desgranhados fios na minha cabeça que insistem em prejudicar minha já não boa aparência. Chego no posto de gasolina, a uma quadra de distância de casa. Antes de me dirigir ao estabelecimento, passo antes no banheiro, só para conferir minha cara. Péssima! Pareço um maníaco que acaba de fugir do manicômio. Mas isto não chega a ser uma novidade.

Desisto do espelho e vou pegar uma Heineken. Todos na conveniência me apresentam olhares frios e feios, quatro velhos bêbados de olhos vermelhos, um jovem casal atrás de uma Coca-Cola; a atendente me pareceu simpática até tentar me passar a perna no troco. “Eu te dei R$ 10,00, moça”. Puta que pariu, além de maluco pareço idiota!? Não querendo ficar naquele lugar, dirijo-me a um pequeno jardim logo ao lado. Me sento no chão e começo a tossir como um tuberculoso. O som é irritante, seco, um ruído doente. Ao levantar minha cabeça para o primeiro gole, meus olhos encontram o céu, que me parece bipolar. De um lado, nuvens brancas como algodão e os raios de luz dão um ar divino; a minha direita, nublado, mal humorado, prestes a chorar. Ao afastar a lata verde da boca e colocá-la no chão, vejo ao meu lado tampas de cerveja, bitucas de cigarro, papéis de balinha, entre outros lixos. Pelo visto, não sou o único a sentar por aqui, o que me trouxe uma memória.

Alguns anos atrás, estava exatamente naquele lugar sentado com uma garota. Assim como agora, bebia; ela também. Diferente da lata verde, tínhamos garrafas de Antártica em nossas mãos. Não entendo por que estas lembranças surgem aleatoriamente, mas vou colocar a culpa na cerveja. Recordo dos seus cabelos cacheados, da sua tatuagem e da maneira extremamente serena como falava, o que me encantava e causava agonia ao mesmo tempo.

Para onde miram os olhos quando as recordações invadem nossa cabeça? Não sei dizer. Quando voltei a mim, uma dupla de motociclistas assistiam minha solidão — por que todos me olham torto? — e eu estava confuso. Não era noite? Não, só na minha memória, o sol escaldante fez-me voltar à realidade. As tampas de cerveja, bitucas de cigarro, papéis de balinha ainda estavam por ali e nenhum amigo apareceu. Estou só e meus cabelos continuam a me travestir de insano.