
Há muito que olhas para mim com um ar vitorioso que nem tens a elegância de disfarçar, cheia de ti e do teu significado. És perfeita e imaculada, foste poupada a humilhações como frases ocas, observações redundantes e tentativas de escrita tímidas e miudinhas. E eu deixei-te em paz, não no teu cantinho, mas no centro do palco, em todo o teu esplendor branco. Até hoje.
Hoje decidi preencher-te e, assim, anular-te. Anular tudo o que representas e vencer esta batalha. A guerra, essa, logo se vê, mas por enquanto já me basta este ato de desafio, este encher de peito e levantar de queixo. Esta cidade não é suficientemente grande para nós as duas e eu gosto de estar aqui. …
por Luísa Ferreira

A tentação de esclarecer este mito com uma resposta curta e grossa é tremenda, e essa resposta seria um rotundo “não”. Mas como não é com mau feitio e respostas contundentes que se desmistificam ideias preconcebidas e se esclarece quem quer ser esclarecido, vamos aqui explicar as traduções de calão e palavrões risíveis que surgem com demasiada frequência nos nossos ecrãs.
De facto, os críticos têm razão, há traduções que pecam por um pudor absurdo que retira aos diálogos a sua força e significado. …
por Luísa Ferreira

O título parece uma piadinha de mau gosto no mínimo exagerada e dramática mas, como tradutora-legendadora, já ouvi perguntas e comentários desta natureza mais vezes do que gostaria de ter ouvido.
Tal como acontece com outros ramos da tradução, a perceção que se tem do tempo que este trabalho implica é um pouco deturpada, tanto da parte dos espetadores como da parte dos clientes.
A tradução de audiovisuais e a legendagem, apesar de consistirem, muitas vezes, em projetos de curta duração — como um filme ou um episódio de uma série — não são tarefas que se despachem enquanto o diabo esfrega um olho. De facto, essa ideia tão disseminada é um dos maiores inimigos do profissional que quer apresentar um trabalho bem feito, com a qualidade que o conteúdo, o cliente, o público e o próprio tradutor merecem. …
por Luísa Ferreira
Por vezes, sentimo-nos mórbidos. É um facto que (quase) todos nós temos um animalzinho sinistro e sombrio aninhado no canto mais obscuro do nosso cérebro que precisa de ser alimentado. Os filmes de terror costumam ser a opção mais óbvia e é uma escolha que faço amiúde, mas a literatura de terror é uma alternativa igualmente adequada e satisfatória para quem gosta de nadar nas águas profundas do susto, do desconforto e da pele de galinha.
Já perdi a conta às conversas que tive e tenho com amigos sobre a verdadeira definição de terror, mas, pessoalmente, fracassei redondamente no momento de chegar a uma conclusão definitiva. Seja como for, não sou mulher de conclusões dogmáticas, portanto, adoro aqueles debates intermináveis a que voltamos de quando a quando, aqueles temas de conversa que não se esgotam. Além disso, e peço perdão pelo chavão irritante, é sempre gratificante ter uma mente aberta. Mas a verdade é que cheguei a uma conclusão em construção, uma quase-conclusão, se preferirem. O terror vai muito além de rainhas do baile de finalistas empapadas em sangue de porco ou campanhas pouco palatáveis contra hostels da Europa de Leste com um gostinho pela pornografia da tortura. Uma verdadeira obra de terror, seja um filme ou um livro, é aquele carocinho de treva que nos tira dos eixos e toca os nossos medos mais profundos. Talvez seja por isso que bocejo com o gore mas sou incapaz de ver o “Brincadeiras Perigosas” ou tenha sentido medo a sério com “O Senhor Babadook”. …
por Luísa Ferreira

Na faculdade, tive uma cadeira de tradução e pensei quase de imediato: “Isto não é para mim.” Mas, como diz o povo e muito bem, pela boca morre o peixe e, poucos anos depois, iniciei-me no estranho mundo da tradução, e logo num dos ramos mais ingratos: a tradução e legendagem de audiovisuais. “Oh, mas isso deve ser tão giro e passas os dias a ver filmes!”, parece que já vos estou a ouvir. Não, não passo o dia a ver filmes e sim, é giro, mas não é, como indica o título deste artigo, pera doce.
Poucos ramos deste ofício expõem tanto o tradutor de uma forma tão imediata ao escrutínio e à crítica do público como a tradução de audiovisuais. No final do filme ou do programa, lá surge a legenda que identifica tradutor e/ou empresa e que marca o início do julgamento, tantas vezes cruel e quase com direito a carrasco. Contra mim falo, porque antes de exercer a profissão, também era tradutora de bancada e tinha as minhas opiniões mais ou menos acertadas sobre esta ou aquela legendagem, esta ou aquela escolha de terminologia, esta ou aquela gralha. Enfim, como aprendi muito cedo na minha carreira, sabes que fizeste um bom trabalho quando ninguém comenta. Não que esperemos palmas ou elogios, nada disso. …
por Luísa Ferreira
Há muitos autores universalmente apreciados, louvados, e muito bem, pela sua inegável qualidade literária, pelo seu contributo para a cultura e para o pensamento, e pela marca indelével que deixaram ou que estão a deixar no mundo da literatura. Sim, são bons, mais do que isso, são excelentes, mas isso não significa que tenhamos de gostar deles. Ao longo de muitos anos, tentei gostar de alguns grandes autores e fracassei epicamente, para meu grande desgosto; é-me simplesmente impossível gostar de ler Jane Austen, Ian McEwan ou George Orwell. De facto, quando li o aclamado clássico 1984 de Orwell, a rejeição manifestou-se quase a um nível físico. …
por Luísa Ferreira
Sempre tive um medo tremendo de ser snob, de ter a mania, de ser um daqueles leitores que julgam estar um degrau ou dois acima da “maralha” que se entretém com sagas de vampiros, romances menores e regurgitações cor-de-rosa. Será do meu background de classe remediada de subúrbio? Da minha revolta contra todos os que franzem o nariz à realidade com que cresci, entre autocarros da TST e as experiências que só os suburbanos têm? Com o passar dos anos, apercebi-me de que não era apenas um apego às origens que alguns olham de cima. …

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