“Eu nunca mais serei o mesmo após Chapecó, eu dei uma outra dinâmica para a minha própria vida”.

Assim Thiago Suman conta como foi a sua maior experiência exercendo a sua profissão. Jornalista graduado pela PUCRS e filósofo formado pela UFRGS, Thiago Suman também é um dos principais nomes dentro da rádio grenal, onde é ancora de um dos programas de maior audiência dentro do rádio esportivo, o dupla em debate, além de narrador. Não apenas isso, Tiago também é correspondente freelance do jornal inglês The Daily mail, um dos maiores tabloides do mundo e professor de filosofia no unificado lajeado e fênix vestibulares.

Thiago Suman (Reproducão: Twitter pessoal)

Thiago costuma dizer que ele acaba por ter uma vida parecida com a de Bruce Wayne, lendário personagem/herói das histórias em quadrinhos também conhecido como o Batman, já que ele faz as duas funções durante seu dia de trabalho, fazendo o on e o off das duas funções, onde há uma dinâmica bastante diferente, mas ao mesmo tempo, tem um processo de semelhança entre as duas profissões. O professor/narrador fala que professor comunica, e que dentro deste processo de comunicação, ele acaba desempenhando das duas maneiras. Tendo o seu começo de carreira acadêmico no direito, o seu envolvimento com as áreas das humanas o levaram para o jornalismo e para suas outras áreas.

Sua jornada de trabalho consiste basicamente em ir até a rádio, participar do programa no qual o mesmo é âncora, sair da rádio e ir até os cursinhos no qual da aula para mais de 100 alunos por semana, sair da aula e ir até ao local da jornada esportiva onde será o narrador, as vezes até sair da jornada e voltar a dar aula, o que o próprio Tiago relata que já teve que fazer mais de uma vez.

“Tempo para tudo isso? É apertado, mas da forma como eu desempenho, é tentando trazer o máximo de comunicação, informação e construir o senso crítico tanto dos meus alunos quanto do público ouvinte”.

Começando a fazer rádio com apenas 15 anos de idade, Thiago começou em uma rádio comunitária na zona sul de Porto Alegre, extinta RCB (rádio comunitária belem velho), e com 16 anos já trabalhava com festivais de música dentro do aspecto regional, onde conheceu o diretor da rádio e pediu para este lhe abrir um espaço dentro da rádio para ter um programa musical destinado aos festivais, e a partir deste ponto, ainda menor de idade, abriu um trabalho de ancoragem e produção de seu próprio programa, programa este apenas transmitido para o próprio bairro. Com 17 anos, é convidado a ser repórter da rádio santa mariense, de Santa Maria, onde cobria festivais musicais, onde teve sua primeira experiência com a radiofonia.

“Com 18 anos, eu optei por largar o curso de direito e me transferir para o jornal, onde troquei uma bolsa por pagar uma faculdade, e decidi que eu tinha que trabalhar. Mandei currículo para mais de 25 empresas, onde ninguém me deu retorno, até que a rede Pampa me deu uma oportunidade, com 18 anos ainda, dentro da rádio Caiçara, onde começo um trabalho como produtor. Pouco tempo depois, acabei por ser alçado ao cargo de apresentador de um projeto que ainda estava sendo encubado, que viria a se tornar a rádio grenal no futuro, na época chamada de rádio jornal o Sul, e isso foi muito dinâmico para mim, no meu primeiro ano de rádio com a rede Pampa, eu chego como estagiário, viro produtor, passo a ser apresentador e narrador e logo em seguida sou promovido a coordenador da rádio. Foi tudo muito rápido, e de lá, estagnou um trabalho que fomos sedimentando com a rádio grenal, que hoje é o projeto que eu toco na minha vida jornalística”.

Thiago vem de uma escola nova na narração esportiva, onde tendo apenas 26 anos de idade, esta em um meio onde já existem nomes consagrados, como Pedro Ernesto Denardin, Haroldo de Souza, Marco Antonio Pereira, entre outros. Acabamos por perceber uma diferença em suas narrações, uma linguagem um pouco mais informal do que o comum, diferente das narrações de seus colegas de imprensa. Ele explica que o público que o escuta não é o mesmo que escuta os narradores de anos passados, e sim o público que o escuta é o que esta começando a ouvir as narrações esportiva agora e que estes novos ouvintes será o que irá o acompanha-lo durante a sequência de sua carreira.

“Eu preciso criar uma linguagem que seja aderente ao meu público. Eu preciso do vocabulário, das gírias, e das expressões populares que este público irá pegar. Dentro disso, eu acabo usando muitas expressões de músicas, porque assim eu faço com que eles tenham uma aproximação com o rádio, e acabo tentando fazer com que eles se acostumem a ouvir o rádio com esta linguagem próxima a eles. Com isso, acabo usando o “despacito”, expressões de funk, gírias do momento, memes de internet, porque acaba quebrando um pouco o gelo desta narração mais formal, mais regimental, fazendo algo mais popular para o público mais jovem”.

Thiago esta dentro da rádio grenal aproximadamente a sete anos, onde pegou a rádio na décima terceira colocação do ibope, de quatorze emissoras, tendo 0,2% de audiência. Em quatro anos, ele criou a programação, onde fazia a coordenação da emissora, projetou a equipe, criou a linha editorial da rádio junto da coordenadora Marjana Vargas, onde em quatro anos, a rádio passou de penúltima colocada para segunda colocada no ibope no segmento de esportes.

“Levando em consideração o tamanho de uma rádio gaúcha, guaíba, bandeirantes, colocar a rádio grenal, uma rede regional, jovem, com uma equipe jovem no segundo lugar da audiência, sem dúvidas foi e segue sendo um projeto sensacional, até hoje uma das sacadas mais brilhantes da história do rádio brasileiro”.

Perguntado sobre se acreditou se este projeto daria certo, ele diz que no começo não acreditou que pegaria, quando virou rádio jornal o Sul, diz que talvez poderia dar certo, mas quando chegaram na rádio grenal conta que pensava para si mesmo que ninguém compraria a ideia da rádio, onde os gremistas não gostariam do “NAL” e os colorados não gostariam do “GRE”.

“Nosso projeto deu tão certo que nós temos registro de audiência de torcedores do Rio de Janeiro, São Paulo e até Minas Gerais, 3 eixos que nos consumem muito, a ponto de o Milton Neves falar em rede nacional que o sonho dele era querer criar a rádio FLA-FLU no Rio de Janeiro, ou a rádio CRU-A em Minas, nos moldes da radio GRENAL, mostrando o sucesso que a rádio fez em tão pouco tempo”.

Narrador desde os primórdios da Rádio Grenal, tentou fazer televisão, mas brinca que a TV não gosta dele, pois não acredita que tenha um perfil para o mesmo. Prefere o rádio pela dinâmica, pela orgânica. Essa coisa do imediatamente o fez ter maior amor pelo rádio do que a TV, mas não sabe se sempre quis fazer isso.

“Desde pequeno eu brincava narrando vídeo game, foi assim que virei narrador. A diretora pediu para eu encontrar um narrador na equipe, eu procurei e acabei não achando. Logo resolvi por assumir a bronca, falando que poderia narrar. Fui questionado por ela se eu sabia narrar, disse que sim, e na verdade só tinha narrado jogos virtuais, e foi assim que eu surgi como narrador. Eu brinco que não me apaixonei pelo rádio, mas eu vou para a cama todo o dia com o rádio. O meu amor maior é a filosofia, mas é um amor platônico, mas eu vou para a cama mesmo é com o jornalismo esportivo”.

Trabalhar nesse meio esportivo não é fácil, todos nós crescemos torcendo para ou Inter ou Grêmio, e aqui no nosso estado não tem como fugirmos disso. Todo jornalista que trabalha com o meio esportivo segue torcendo para um desses dois times, mas deixa um pouco de lado quando se torna um profissional. O futebol se idiotiza em determinados momentos, acaba passando dos limites de torcida e chega em um ponto de loucura. Thiago nos conta que em um GRENAL, acabou sendo agredido por um torcedor do inter após um gol do grêmio, aonde ele tinha dito na semana que determinado jogador do grêmio seria supressa no clássico, e foi exatamente o que aconteceu.

“Eu já fui agredido dentro do Beira Rio, por estar narrando um grenal, e ter dito durante a semana que o Elano era um elemento surpresa em uma cobrança de escanteio, onde todo mundo marcava os atacantes e ele surgia por trás da zaga. O Elano surge, faz o gol, o torcedor pula a grade e fala que a culpa era minha, porque eu tinha dito no rádio naquela semana sobre isso. Teve que a segurança do estádio ter que intervir na situação. Também já fui agredido fisicamente e se não fosse outro colega de imprensa, eu estaria apanhando até hoje. E o futebol tem disso, infelizmente”.

Como âncora do dupla em debate, ele convive com alguns “dinossauros” do rádio esportivo, como por exemplo Kenny Braga, Roberto Pato Moure, Chicão Tofani, nomes bem conhecidos dentro deste meio. A vaidade destes nomes faz com que não seja fácil de trabalhar com estes personagens, já que todos os exemplos citados possuem anos de experiência.

“Não é nada fácil trabalhar com eles, não vou mentir, inclusive já falei isso para eles. Quando se trabalha com Kenny Braga, 40 anos de crônica esportiva, Pato Moure, trabalhou na tv RAI, uma das maiores do mundo, foi assessor do Falcão, jantava com Berlusconi, um cara que tem uma vida que todo mundo quer ter, Chicão Tofani, uma instituição da crônica e da tv. Esses são de fato dinossauros do jornalismo, e é muito difícil, embora não possa me queixar deles hoje, porque eles percebem a representatividade de âncora, então eles me respeitam. O problema é quando todos estes entram em um confronto pessoal, e tentar controlar isso as vezes é uma queda de braço muito forte, ou quando tentam legitimar a minha opinião e dos outros jovens integrantes do programa, por conta de idade. Muitas vezes, os antigos personagens da crônica esquecem que o mundo mudou, e acabam por manter suas opiniões antigas, não mudando a opinião com o que vivemos hoje, e esse é o meu maior medo, pois eles estão comunicando e dando opinião para mais de 80 mil pessoas, são 80 mil pessoas que cada coisa que eles falam, pode ser uma bala atirada. Então esse processo é bem difícil de se ter, mas um desafio bom de se ter”.

Thiago no comando do dupla em debate, junto de seus companheiros de bancada (Foto: Instagram pessoal)

Em dias de jogos, a preparação para a narração as vezes fica a par do jeito que deveria ser. Ele conta alguns segredos de sua jornada de trabalho dentro da cabine. As vezes sai correndo da sala de aula direto para o estádio, as vezes chega cedo e prepara todo seu repertório para a narração.

“Minha preparação deveria ser melhor. Procuro não tomar muito café, o que é terrível, tomar bastante água, fazer exercícios para a voz, ficar uns 20 minutos quieto dentro da cabine, desopilando as informações. Estudo o jogo, preparo planilhas, aviso nas minhas redes sociais que estou indo para o jogo, para que as pessoas mandem seus recados, para que eu tenha já pronto um ponto de comunicação com os meus ouvintes. Mas o que melhor me prepara são esses 10 20 minutos, onde eu fico quieto, no escuro, liberando a cabeça olhando para o nada, para conseguir criar um bordão. Dependendo do dia, se eu vejo que o jogo pode ser ruim, eu dou uma aquecida física, dou uma corrida, uns polichinelos, para ficar bastante acordado”.

Como freelance do The Daily Mail, Thiago cobriu a tragédia da equipe da Chapecoense, e este até o momento, foi o seu maior trabalho como jornalista, e não apenas como jornalista, foi a sua maior experiência de vida. Quase sete meses após, o que ele viveu naquela semana, dormindo pouco mais de duas horas por noite, e o resto do dia trabalhando dentro do gramado da Arena Condá, esperando a chegada dos corpos, sentindo um cheio forte dos corpos, vendo famílias, mães, esposas viúvas, filhos, torcedores, torcedores de diversos lugares do continente, ver tribo Kaigang fazendo homenagem, perder amigos na tragédia, tudo isso mexeu e mexe até hoje com o seu emocional.

“Foi uma cobertura de muito envolvimento, me demandou muito. A responsabilidade era muito grande, eu trabalhei para um jornal que cada post era lido por mais de um milhão de pessoas. Nós fomos replicados na Austrália, na China, em Portugal, na Coréia, em outros tabloides, ou seja, nós fomos lidos pelo mundo inteiro. Era apenas eu, que estava lá, e o meu editor, que estava em Minas Gerais. Eu tinha que preparar tudo e mandar para ele, mas o Daily Mail nos obrigava a ter exclusiva, mas fica muito difícil ter exclusiva quando mais de 120 países cobrindo a volta dos corpos. Eu convivi com os maiores repórteres do Brasil naquela semana, foi uma experiência assim que… A frase que eu uso é que Chapecó foi um rio que passou na minha vida, e na verdade, eu nunca mais vou ser o mesmo após cruzar esse rio. Se fosse remontar agora na filosofia, eu nunca mais serei o mesmo após Chapecó, eu dei uma outra dinâmica para a minha própria vida. É difícil eu traduzir para vocês o que nós passamos lá, quem passou em Chapecó consegue saber o que vivemos lá naquela semana”.

Thiago Suman é um cara simples, um estudioso, que ama o que faz. Tendo o acompanhado em um de seus locais de trabalho, acabei por perceber que ele é um exímio profissional. Fui muito bem recebido por ele na rádio, fui apresentado para os seus colegas de trabalho, fiquei junto do estúdio com ele e os outros integrantes do programa. Eu como um fã do jornalismo esportivo, me vi um dia fazendo o mesmo trabalho do que o meu perfilado, tive mais ainda a certeza de que um dia quero estar na mesma posição que Tiago esta hoje, não como narrador, mas sim trabalhando em um veículo de comunicação de grande audiência como a rádio grenal.

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Luã Fontoura’s story.