Carta aberta aos motoristas de SP


Hoje de madrugada eu fiquei em choque com a foto do cruzamento da Faria Lima com JK, aqui em SP. Uma cena estarrecedora, de motoristas fechando um cruzamento (por falta de luz nos semáforos), em que até a ciclovia ficou intransitável, porque não, ninguém respeitou.

Cruzamento da Faria Lima com Juscelino Kubitschek, foto: BandNews

A Cora Ronai comparou com o jogo em que a gente tem pouco espaço para tirar os caminhões do tabuleiro.

Enquanto todos riam, outros diziam que esta é uma ótima razão para não viver aqui. Eu só conseguia ver o desastre humano e educativo que está atrás dos volantes desta metrópole. Não há gestor que dê jeito nisso.

Hoje, ao caminhar para o supermercado, me veio esta carta.


Caros motoristas de SP (quiçá do Brasil)

Venho por meio desta pedir que você deixe o seu carro na garagem de vez em quando. Por favor, ande por sua cidade. Veja o estado de conservação das calçadas do seu bairro, das praças, onde dá para plantar uma árvore e ter mais sombra e conforto.

Ao andar a pé, veja como os motoristas furam sinais amarelos (e vermelhos também) prejudicando a travessia de pedestres. Como “esquecem” da seta — e fica difícil o pobre pedestre saber se tem segurança para atravessar a rua.

Veja o desrespeito — com a faixa de pedestres, com as poucas ciclovias. Perceba como nos falta sombra — que ajuda tanto a caminhar sob o sol. Veja que você, sem carro, não existe, não merece reconhecimento nem respeito.

Sinta a agressividade do motorista genérico — que num sábado sobe na calçada, quase atropela o pedestre a caminho do supermercado, não consegue esperar pelo próximo sinal verde.

Vá para uma grande avenida e perceba que o tempo do sinal de pedestres é pensado para não deixar os motoristas impacientes. A preferência, diz o Código Brasileiro de Trânsito, é sempre do pedestre, mas os gestores do trânsito de SP dão prioridade a quem está no carro.

Eu sei, motorista querido, que é difícil perceber o privilégio — e veja, nem estou aqui pedindo para você abrir mão dele. Só perceba que esta cidade sempre foi construída em torno da sua “necessidade”.

Peço que você desfrute da sua cidade sem a sua armadura de ferro, vidro e motor. Ela é bonita? É boa de caminhar (ou pedalar)? O que existe perto da sua casa?

Você consegue ver as pessoas? Quem são? Perceba que estas pessoas compartilham da mesma cidade com você. O que você tem de igual? De diferente?

Repita o experimento. Se não der todo dia, tente uma vez por semana.

Eu imagino que se muitos de nós percebermos que a cidade é habitada por pessoas, que todas têm o mesmo direito de viver e existir, que são iguais e merecem respeito, talvez a coexistência fique mais fácil.

Não importa o cinza. Não importa o trânsito. Importa mesmo é cada um descobrir que o outro também tem todo direito de existir e estar na rua. Com ou sem carro — a pé, de bicicleta, de moto e em todos os outros modais.

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