José Saramago: obrigada por escrever

Quem passar por esta vida sem dores não viveu. Hoje morreu o Saramago, autor querido, ídolo, homem de respeito. Tá, eu só descobri Saramago, junto com a multidão, depois do Prêmio Nobel, em 1998.

Ler Memorial do Convento, o primeiro que comprei, levou quatro meses. Ô texto difícil! Nas minhas prateleiras há outros também tão difíceis quanto. A Caverna me trouxe insights generosos sobre a alma humana. E todos, sem exceção, deixam na memória, as vívidas imagens descritas por este José, homem ateu e comunista, que nunca abriu mão de suas convicções. Não importa se você concorda, ele era sensacional por sua consistência. E isso é indiscutível.

Entretanto, foi com os dois Ensaios — da Cegueira e da Lucidez — que realmente frui com ele. Quem não consegue ler, assiste o filme do Fernando Meirelles. Mas o livro, ah, o livro. A gente enxerga tudo na cegueira alheia. E reflete sobre as próprias cegueiras — que vêm da família, da religião, da mídia de massa que nos captura por todos os poros. Livros são assim: fazem imagens na gente, constroem ideias, abrem universos. E Saramago era mestre em afetar os seus leitores. Experimente, por exemplo, As Intermitências da Morte. E descubra o que é uma boa ficção — em português castiço, para completar.

Ler o Caderno de Saramago, nesta internet, foi algo que comemorei. Jamais poderei expressar a minha gratidão à Fundação Mapfre não só por ter trazido, em 2008, este autor único ao Brasil, com a exposição A Consistência dos Sonhos e uma coletiva da qual tive a honra de participar. Saramago, Saramago. Um verdadeiro mago das palavras, homem de construções difíceis e complexas até ao falar que, no fim de sua vida, mudou o tom. Seus últimos volumes — A Viagem do Elefante e Caim — são para rir e muito. Não li “A Viagem”, mas confio no que ele nos contou durante a coletiva. Com Caim, que ganhei de aniversário este ano, rachei o bico.

Que se rale a igreja católica. Caim é sensacional, como também deve ser o Evangelho segundo Jesus Cristo, outro que não li ainda. Só posso, aqui, além de deixar a recomendação de leitura de todos os livros que você conseguir — sim, ele é difícil — agradecer de novo ter visto de perto este homem. Compartilhar, por poucas horas, a sua presença na terra foi uma honra.

Eu fico com uma ótima resposta que ele deu lá naquela entrevista:

Estar à beira da morte mudou algo?

Não acentuou-se a serenidade que eu já tinha.(…) Uma boa doença vale para toda a obra do Paulo Coelho.

Update: Acabei de ler, enviado pela Gabi Contolli, um post no Blog da FLIP que tem a íntegra de um texto escrito pela Vanessa Rodrigues. Coincidências não existem. Esta linda portuguesa sentou-se ao meu lado na tal entrevista. E ao ler o texto dela, revivi um tanto do nervoso da coletiva, de ter que fazer-lhe perguntas. De tantas que tinha, só pude fazer uma… Escolhi fazer a que o Jorge tinha me mandado… Não arrependo. Leiam o texto da Vanessa. É lindo.


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