Há uma égua brava nos pastos em que passei, ela "das éguas da noite", ríspida ao toque, alta e negra, estendida sobre o campo, sozinha, seu nome é Solitude. Poucos a domam, eu tento, me arrisco, vou a lhe rodear, pulsando em sua trêmula respição pesada, meu corpo se encolhe e murcha diante dela, sua respiração quente, forte, profunda como a terra.
 Ao seu olhar, o abismo, não escapa nenhum movimento, ela nota minha chegada, estou ali, diante dela, cheguei cedo demais? Lembro do dia que montei sem antes domá-la, até hoje trago feridas. Mas estou ali vivo, vou lhe alisar os cabelos oleosos, sob a crina crespa afundar minhas mãos, recheando meus dedos, e tentar domá-la.
 Solitude é dona de si, apenas sua, caminho um pouco com ela até o pasto mais alto, onde se ergue uma castanheira solitária, ela me dá a honra de montar-lhe, cavalgamos o mundo, descemos aos mais assombrosos lugares, distantes do resto, não tremo mais, estou ali, pulsando no ventre da terra, sobre o dorso de Solitude, a aguentar o sol e a chuva dos dias, não temo, nem as estações nem o cansaço, estou sobre o dorso do mundo. Estou quieto. Ela me deixa em qualquer lugar e vai...vai.
 Afinal, o que mudou? Caçar e ser caçado, morrer e ser morto, um ano já passou e nada mudou, já não me lembro de mim mesmo, já esqueci quem sou. Porque essa noite é diferente das outras? Eu me pergunto ingênuo, esquecido das velas de yom tov, talvez, no próximo ano, em Jerusalém, talvez, ainda sou escravo no Nilo. Porque essa noite é diferente das outras? Ainda há muito mundo a desbravar, muita história pra contar. Porque essa noite é diferente das outras? Minha mão a se entranhar por teus cabelos negros e oleosos, tua espinha arrepiada, tua barba roçando por nós. Porque essa noite é diferente das outras? Já me pergunto sem resposta. Porque monto no dorso do mundo? Estou vivo, l’chaim