#01–22/07/2015
As vezes me sinto preso em uma realidade onde tudo é um caos. Pessoas machucando umas as outras, sem pensar em nada além do gosto pela dor do próximo. Os grandes pisoteando os menores, sem compaixão alguma. Guerras sem sentido ou razão, com a premissa de superioridade religiosa e(ou) econômica.
Mas quando foi que isso aconteceu? Em um momento eu estava em meio a uma paz indescritível, tudo era colorido e alegre. Justiça para tudo o que era errado ou prejudicial aos demais. Era possível ver o brilho nos olhos de cada um, e principalmente nos olhos dela. Ela que sempre me alegrava quando cantava, quando falava… ela era tudo para mim, a minha maior felicidade. Sua existência era capaz de despertar inveja até mesmo na maior das felicidades e na paz mundial. Ela era tudo.
De uma hora para outra ela sumiu, junto com tudo o que era bom no mundo. Cinzas e fumaça tomavam conta dos céus e dos pulmões dos menos afortunados, que não tinham como pagar por uma máscara de oxigênio, que convertia o ar ambiente em ar puro.
Agora estou sozinho, com nada além das lembranças que carrego no coração e lágrimas que refrescam o meu rosto e, ao mesmo tempo, evitam que eu exploda com toda a tristeza e saudade acumuladas dentro de mim. Quanto mais eu tentava escapar de tudo isso, mais imerso eu ficava nessa realidade, a qual eu me recusava a aceitar. Tudo o que eu posso fazer agora é dormir. É a única forma de escapar de toda essa desgraça para me confortar no abraço dela.
Ao acordar horas depois, me senti estranho. O chão onde eu costumava dormir, as dores, os ventos gelados, isso não existia mais. Estava tudo calmo. Imediatamente pensei que tinha morrido e estava indo de encontro as autoridades místicas, ou seja lá quem fosse. Tudo era quente, macio. Me perguntava várias vezes: “O que está acontecendo aqui?”. Isso não pode ser possível, eu dormia debaixo de uma ponte, com apenas uma placa de papelão que me mantia aquecido e protegia da chuva.
Ao me dar conta, eu estava em casa e o dia estava amanhecendo. Acordei desesperado, olhando para todos os lados enquanto o suor escorria em meu rosto. Levantei e comecei a andar pela casa, procurando algo ou alguém. Ainda não tinha me recuperado do choque. Nada. Estava sozinho.
Após alguns segundos de agonia, escutei um barulho. Na hora percebi que eu não estava sozinho, e comecei a seguir o som. Estava vindo da cozinha. Lentamente fui caminhando até conseguir ver quem ou o que estava lá. Ao entrar, meu coração dispara e se enche de alegria. Ela estava lá. Seu brilho competia com o brilho do nascer do Sol, estava sorridente preparando algo. Não pensei em mais nada, apenas andei até ela, tirei as coisas de suas mãos, lhe dei um abraço bem apertado e sussurrei em seu ouvido:
Eu te amo.
Ela sorriu, me abraçou também, e disse:
Eu também te amo. Feliz aniversário.