Profissão esposa?

Já tem um bom tempo que eu tô pra escrever esse texto, mas esse assunto mexe tanto comigo que simplesmente não conseguia. Me sentia meio travada toda vez que pensava nele. Vocês vão entender o porquê.

Desde que cheguei aqui em Auckland, um fenômeno tem chamado a minha atenção: a quantidade de mulheres que abrem mão de tudo para acompanhar seus companheiros. Parece coisa de antigamente? Pois não é, mesmo. Por aqui é bem comum você conhecer casais como nós — o homem, profissional da área de TI, que consegue uma boa oportunidade de trabalho com chances de crescimento na carreira, acompanhado da esposa que largou tudo no Brasil, inclusive a profissão.

Vejam meu caso. Publicitária, mais de 10 anos de formada. Cansada da vida de agência, indignada com o mercado cruel e injusto que não permite que se crie grandes expectativas. Tudo o que eu precisava era de um motivo forte o bastante para me fazer chutar o balde de uma vez por todas. E aí, quando veio a oportunidade de construir uma vida, uma família com o homem que escolhi pra ser meu companheiro nessa jornada, aqui do outro lado do mundo, vi como a grande chance de dar uma grande virada, sair da famosa zona de conforto.

Acredito que o mesmo possa ter acontecido com outras mulheres que conheci na Nova Zelândia. Um sonho, a falta de perspectiva de crescimento profissional, o amor, seja lá o que for, trouxe cada uma delas até aqui. O que, possivelmente, elas e eu não tínhamos a exata noção era de que, ao abrir mão da profissão, estaríamos abrindo mão de muito mais. Explico.

Eu não sei precisar, mas a vontade de viver um sonho possível, a imensa expectativa e uma mistura louca de sentimentos podem fazer a gente não se dar conta do lado prático da coisa.

Só quando você chega, você se dá conta que a única coisa que você sabe fazer era aquela bendita profissão. E aí, meu bem, você percebe que essa história de começar do zero não é tão bonita quanto possa parecer nos textos motivacionais internet afora.

Pensar numa nova profissão? Mas o quê? E se você não domina a língua, piorou, porque você se sente tão insegura que não se acha capaz de ocupar os cargos mais simples. Até que se dá conta de que precisa arrumar um trabalho qualquer porque precisa da grana ou porque sua cabeça já não segura mais a onda de ser dona de casa e você vai acabar pirando.

Então, você abre o coração e encara o que rolar. Mas aí eu te pergunto: e a sua satisfação, sua realização, onde ficam? Claro que você pode acabar descobrindo que você prefere servir café aqui do que ter uma vida de executiva no Brasil. Isso realmente acontece. Mas e se não rolar ou se demorar demais? Bom, aí a gente se agarra na terapia e tenta viver um dia de cada vez. Sigo tentando.

Só sei que pra mim não tem sido fácil, e pra muitas mulheres com quem tive oportunidade de conversar a respeito também não foi/tem sido. Acho que o que mais pega nessa história toda é que fica uma sensação de deixar de ser protagonista da sua própria vida pra ser coadjuvante na vida do outro, sabe? E isso mexe com a gente para caralho (desculpem, mas esse é o termo técnico).

E tem mais. Enquanto a mulher está nessa piração, o homem se manteve na profissão, conheceu mais pessoas, está cada dia mais adaptado à nova realidade, o inglês só melhorando e vendo sua carreira deslanchar. Adivinhe o que acontece. Mais uma mistureba de sentimentos pra facilitar tudo, só que não: a felicidade de ver seu parceiro se dando bem e a angústia de estar vivendo no ‘paraíso’ e (muito) insatisfeita.

Eu tenho a sorte (se eu escolhi foi sorte?) de ter do meu lado um cara generoso que não faz pressão, ou eu nem sei o que seria! O entendimento do companheiro nessa hora faz toda diferença, é preciso levar o significado da palavra ao seu máximo. Mas nem sempre é assim. Se com apoio a gente já fica fazendo malabarismo pra dar conta de tanta confusão emocional, imagina sendo cobrada.

Eu só fico pensando se fosse o contrário, sabe? Será que eles conseguem se imaginar no nosso lugar? Perceber como é difícil? E se fosse o contrário, eles abririam mão de tudo, tudo mesmo, pelo outro? Será que eles suportariam o que as mulheres suportam? Somos mais fortes por isso?

Sinceramente, não sei essas respostas, mas penso que essa situação é mais que uma coincidência, vem de longa data. Tem lá seus vestígios da sociedade patriarcal, em que a mulher é ensinada a ter como objetivos de vida casar e manter o casamento.

O problema todo é quando, mesmo não passando totalmente ilesa a esse padrão, você se dá conta de que foi criada para ter outros objetivos e não consegue se contentar em viver para ser bela, recatada e do lar. Com isso, a frustração e a baixa auto-estima passam a ser visitas constantes e indesejadas, estão sempre por perto. Mas como eu disse, vamos vivendo um dia de cada vez. Quem sabe a grande virada ainda vai acontecer, não é mesmo?

E pra embalar o post de hoje, escolhi a diva Elza Soares, porque eu queria celebrar todas nós, e porque eu sou mulher e tô no fim do mundo. Aproveitem. ;-)