
Conversas para não se ter na noite de Natal (e pensar no restante do ano)
Por não se falarem há muito tempo, falaram sobre tudo. Em mais de 1 hora de conversa, falaram mais do que as fotos falavam todos os dias, nesse tanto tempo que não se falavam. E o assunto rolou. E a dúvida era. Todas eram. Eram todas as dúvidas.
O natal se aproxima e todos os parentes na mesa irão comentar como você mudou. Não adianta fugir, o espírito natalino mundial consiste nisso: analisar os outros, caçar defeitos internamente e verbalizar elogios. Sempre foi assim. Quando as tatuagens e os piercings começaram, sempre tinha algo novo a ser comentado na fatídica mesa de natal. Você vai dar aquela risadinha sem graça, vai agradecer o elogio (mesmo sabendo o que o cara achou de verdade e não vai falar pra ninguém engasgar com a uva-passa) e vai continuar a noite natalina. As crianças vão gritar, puxar seus piercings e você fará cavalinho em todas elas, na ânsia que possam dormir logo.
Mas, algumas coisas, ninguém irá comentar. Nem você.
Quando te perguntarem “e aí, tudo bem, como foi o seu ano?” infelizmente você não vai responder que foi um ano confuso demais. Que todo mundo está perdido mas, pela primeira vez, você acha que está se encontrando. Seria cantar vitória. Que apesar de todas as adversidades, você olha no espelho e pensa “essa é a pessoa que fará alguma coisa no dia de hoje. É essa a cara que eu estampo pro mundo. Essa sou eu”. Infelizmente, você também não vai falar de quantas vezes ficou duro, quantas vezes precisou que alguém ligasse pra falar algo a toa e muito menos quantas vezes deixou de ligar pra alguém por estar ocupado demais. Isso você não vai falar.
Quando perguntarem do seu cabelo, você não vai falar que passou o ano amando e odiando ele todos os dias. Mas que hoje, no natal, você enxerga que é o melhor cabelo que poderia ter em 2015, porque de alguma forma, ele deu moldura pra todas as suas imagens do ano. Quantas vezes você prendeu para suar no trabalho, quantas vezes soltou porque estava com frio nas orelhas, quantas vezes você teve que penteá-lo porque ia encontrar com gente importante. Ninguém vai perguntar do cabelo, mas ele teve seu valor.
Com certeza, vão perguntar porque você ainda não faz a unha como toda mocinha. Porque lavar louça milhões de vezes desgasta. Porque mexer com material desgasta. Porque o nervosismo quebra as unhas. Talvez, as faltas de vitaminas da alimentação ruim também. Mas, toda vez que a unha estava ali, sofrida do dia, você sorriu para ela. Foi mais um dia em que vocês lutaram.
Vão perguntar também porque do nada você usa maquiagem o tempo inteiro. Mas não vão perguntar das olheiras das noites mal dormidas apagadas com corretivo, nem do tom amarelado que a falta de sol gera e o blush compensa, nem da boca ressecada que algum batom milagroso jura que vai melhorar. Ou então, apenas o rímel para tornar os olhos mais interessantes. Ninguém vai perguntar, mas você vai olhar esse rosto maquiado e vai conseguir se reconhecer no espelho.
O peso perdido, o corpo diferente: ninguém vai perguntar da sua alimentação. O que você, que odeia cozinhar, comeu o ano inteiro. A gastrite? Ninguém quer saber. Só querem saber o milagre que você fez para esse corpo estar assim. Comi mal, só isso. Mas isso, você não vai dizer.
Quando perguntarem sobre os seus planos, você vai segurar as lágrimas. Você não vai demonstrar fraqueza, ah não. Não mesmo. Você vai falar dos planos. Que por enquanto são apenas planos mas, sempre foram assim.
E vai achar aquele caderninho do ano anterior com todos os sonhos para 2015, ver que a grande maioria não foi como o planejado. Vão perguntar das suas conquistas e você precisará responder: a minha maior conquista é continuar viva. Acreditando em mim. Acreditando que todo dia, por pior que seja, é só um dia ruim. E que eu posso fazer alguma coisa diferente no dia seguinte. Que toda dificuldade, toda ausência pode ser preenchida por coisas boas. Nem tudo foi difícil, tiveram situações e pessoas tão leves como o barulho das plantas no fim da tarde. Tão quentes quanto a forma de um pudim que saiu do forno e tão confortáveis quanto um abraço demorado. Mas, deixa quieto.
Por fim, na noite de Natal, você estará apenas reproduzindo a tal máscara que aprendeu a vestir todo dia para sobreviver. A máscara do superficial. Aquela que não dói, que não fere. Porque a opinião de quem não vive pouco importa perante os desafios diários de ser alguém no mundo. De ser justo, de ser honesto. De só querer ser em paz. De pouco importa saberem a luta. Fiquem com o exterior. As dúvidas continuam sendo minhas.
Minhas. Um caderninho novo para 2016, para rir no final do ano de todo os planejamentos. Porque se algo foi aprendido em 2015, digo para vocês: a maior aventura que se pode viver é acordar vivo todo dia com a certeza de que é a última vez que um dia foi ruim. E ser. E fazer diferente.
E deixar as polêmicas da ceia para a uva-passa.