Que todo ano comece com um show do BaianaSystem!

Luigi Madormo
Jan 18, 2018 · 3 min read
Foto: Anderson Carvalho

"Depois da tempestade vem a terapia". Foi assim que Russo Passapusso anunciou a música batizada com a última palavra de sua frase. Não havia jeito melhor de narrar o que acontecia naquela tarde do primeiro domingo do ano. Das camisas suadas aos pés que mais flutuavam do que repousavam, o público se tornou a extensão da música eletrizante do grupo baiano, extasiado pela alegria de viver aquele momento. A chuva chata do pseudo verão paulistano havia insistido o dia inteiro, até que o microfone do Sesc Campo Limpo anunciou a banda. A partir daí, cada pancada esqueceu do céu e roubou a cena no palco tomado pelos artistas.

Desde o início o show transbordou personalidade. De cada membro subindo ao palco com um sorriso largo e claramente inundado por estar ali, até o convite para que as minas liderassem uma das grandes rodas que clarearam a plateia durante a apresentação, tudo parecia espontâneamente arquitetado. Russo nos fazia pensar que conversava cara a cara com cada rosto que o olhava, e escolheu dois representantes dentre todos nós para subir ao palco. A mãe que deu talvez um dos maiores presentes que um filho poderia receber saiu do meio da galera em chamas com o garoto em seus ombros para ver lá de cima aquela catárse em forma de gente. Os aparentes fãs de primeiras viagem, assim como eu, não escondiam a cara de "o que está acontecendo aqui?".

Russo prometia que levaria aquela massa de gente para Salvador. Eu tenho certeza que por alguns momentos muitos esqueceram dos corres a desenrolar na segunda-feira e se viram subindo as ladeiras do Bairro Maciel (nome original do famoso pelourinho segundo o vocalista, que fez questão de cravar o fato durante a apresentação). Aliás, mensagens importantes e bem diretas extrapolaram as letras e fizeram parte do show também nas transições. Quando os sintetizadores e beats de Mahal e João Meirelles se uniam a guitarra baiana e o baixo de Roberto Barreto e SekoBass para chamar a próxima música, havia sempre espaço para algumas verdades.

A conversa íntima com o público deixava claro que a banda se sentia em casa. Tão íntima que muitas vezes não precisava de palavras. Os riffs de Roberto eram suficientes para que o público entendesse que era hora de abrir a roda, fazer o espaço de um virar o de quatro e depois pular adiante como se em algum lugar existisse uma linha de chegada, que nunca aparecia porque ninguém queria que aquela doidera acabasse.

Vídeo: Anderson Carvalho

Enquanto vou convocando as lembranças meio que em ordem cronológica, lembro que o show que era previsto para ter uma hora e meia por pouco não bateu duas. Ou seja, estar com o cardio em dia não seria nada mal para quem quisesse aguentar o tempo inteiro no bolinho da frente. Talvez a hora de maior descanso tenha sido exatamente o auge da mistura frenética de corpos. A participação tão especial quanto regular nos shows do Baiana anunciou o rebuliço. Foi da boca de BNegão que saiu o chamado para o furacão de gente. Todo o esforço necessário foi o primeiro pulo, dali em diante era só viver e torcer para ainda estar no Sesc Campo Limpo quando tudo acabasse. O redemoinho de pessoas levava os corpos em sentido anti-horário aos berros de "furacão, furacão, furacão de gente" que tomavam proporção de show de punk. Inacreditável! Inesquecível!

Foi depois de puxar o climax do show que BNegão não teve outra opção senão constatar: "os melhores shows são sempre os de graça!". Pela energia que foi deixada ali, a impressão é que cada um havia arrebentado desesperadamente o porquinho com as economias de 2017 e dormido na fila da bilheteria, mas a verdade é que a entrega era genuína e sem valores. No meio da periferia, com pessoas que estavam praticamente no seu quintal e outras que vieram de outras pontas mais distantes, era um show para todos. Pretos, brancos, amarelos, azuis. Nunca havia entendido a máscara que via em várias das fotos dos shows do Baiana. Acredito que agora eu tenho um bom chute. E que seja assim cada vez mais, para mais gente, para mais línguas, para mais espécies. Todo mundo merece começar um ano com a energia do Baiana!


Por Luigi Madormo, 15/01/2018.

Luigi Madormo

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Escrevendo pra curar a memória curta

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