Sobre o que fala o RAP nacional atual?

Uma análise do discurso dos principais álbuns de 2017

Luigi Madormo
Apr 5, 2018 · 7 min read

Quando o distante ano de 2016 foi se despedindo, muito já se falava que o ano seguinte seria diferente no RAP BR. A volta da lírica como protagonista nas letras dos MCs era a meta. De crítica social a representatividade, de auto-análise a visão de mundo, MCs como Baco Exu do Blues e Coruja BC1 jogavam gasolina em uma cenário efervescente para ver até onde ele podia chegar. Promessas viraram realidade, e o RAP nacional ganhou um fôlego que há tempos não se via. Passado o hypado “Ano Lírico”, decididimos analisar por onde vem passeando as canetadas dos MCs. Tendo como base a lista de melhores álbuns do ano da música brasileira do Redbull.com de 2017, que contabilizou mais de 100 mil votos populares, transformamos as letras dos álbuns de RAP presentes na lista em números e análises. São 8 álbuns solos, de 7 artistas homens e uma mulher, e 2 álbuns coletivos: um 100% feminino e outro misto.

Os álbuns que representaram o RAP na lista de melhores do ano de 2017 da Red Bull. // Imagem: Pedro Barreto

Material para o estudo não foi o problema: somadas, as 106 faixas dos 10 álbuns contam com 39.695 palavras. A título de comparação, os 10 melhores álbuns não RAP da mesma lista (que vão de Chico Buarque a Pablo Vittar) somam 15.022 palavras. No mínimo, pode-se dizer que no uso do alfabeto o RAP nacional não economizou. E quem mais variou no quesito vocabulário foi o coletivo 100% feminino Rimas e Melodias. Apesar de ter o menor número de palavras totais (e também o menor número de faixas no álbum), o grupo foi o que teve a maior densidade de vocábulo, ou seja, a maior proporção de palavras únicas dentro das palavras utilizadas.

A relação entre palavras totais x palavras únicas nos 10 álbuns analisados. // Gráfico: Pedro Barreto

Se nas palavras diversificadas das sete minas o orgulho e a luta da mulher negra ocuparam o lugar de destaque, na rajada de linhas do Rincon Sapiência a liberdade do negro nos tempos modernos foi exaltada. Foi o MC que mais abusou das palavras. A rebelião do escravo Chico-Rei cantada na faixa "Crime Bárbaro" justifica a palavra "Fujão" ser uma das mais repetidas no álbum, e também mostra a atitude combativa que Rincon celebra diante de situações como as expostas na faixa "Ostentação à Pobreza", que fez com que "Pobreza" tivesse 31 aparições no disco. É tipo Gustavo, ou tipo Djonga, que fez da comparação uma das armas para cantar a auto-estima. O MC mineiro usou a palavra "tipo" nada menos que 50 vezes durante o álbum. Disparado o primeiro colocado no prêmio "Analogias do RAP BR", elaborado e entregue agora por este artigo. Vitória de goleada: o segundo colocado, Rincon, usou a mesma palavra pouco menos de 30 vezes.

Todas as vezes que Djonga usou “Tipo” no álbum “Heresia” // Imagem: Pedro Barreto

Se Coruja BC1 estivesse passando pela difícil missão de escolher seu nome de MC, Dinamite soa como uma escolha fiel a sua lírica ácida e agressiva. Já que depois de ligar o "Modo F" em 2017 o Coruja conquistou de vez seu espaço na cena, Dinamite fica apenas como uma das palavras que o MC mais repetiu no seu álbum "NDDN", somando 14 aparições. No caso de Flora, a âmbição pelo que vem após o amor próprio cantado em "Eletrocardiograma" parece ficar exposta na sua lírica. Por 48 vezes, "vou" esteve presente nas músicas. De longe a que mais prometeu ações. Do amor (ou desamor) de Flora à lovesong do ano, "Te Amo Disgraça" fez obviamente com que "Disgraça" fosse uma das palavras mais presentes no álbum de Baco. Mas deixando o romance do Exu do Blues de lado, Esú foi um suspiro aliviado de um MC que se viu na mira dos fãs de RAP (ou de MCs, diria o outro). A batalha entre o julgamento externo e a liberdade do ser fica clara quando a palavra "livres" é repetida por 18 vezes, e "julgam" ocupa as linhas por outras 15.

Todas as citações de Baco a Deus e a Exu em seu álbum “Esú”. // Imagem: Pedro Barreto

A capa de Esú riscando o "J" e o "S" de Jesus gritou alto desde o primeiro dia que circulou na internet, antes mesmo do álbum vir às ruas. Polêmicas a parte, e se você quiser se aprofundar nelas fique a vontade para acessar este link, a proposta de Baco da reflexão da nossa relação com os deuses, ou até mesmo da relação dos deuses com a gente, foi o tema central do álbum. Até mesmo na quantidade de citações a cada um dos nomes parece existir uma reflexão. Igualmente, Exu e Deus apareceram por 23 vezes.

OS ALVOS DO RAP

Em um cenário que viaja do pequeno quarto de Nill em Jundiaí a uma lírica global sem deixar de ser do Nordeste de Don L, vozes de diferentes cantos vem se fazendo ouvir. Mas mesmo assim, sera que ainda é possível identificar uma unidade no discurso no RAP nacional? Provavelmente a resposta dos saudosistas seria falar que o RAP não é mais o mesmo, a dos otimistas exaltaria que hoje existe espaço para todo tipo de som, e os recém-chegados diriam que tem várias “punchlines pesadíssimas”. O fato é que existem repetições e similaridades nas músicas, e elas podem dizer alguma coisa sobre isso.

A nuvem das palavras distintas mais faladas dos álbuns analisados. // Imagem: Pedro Barreto

Ao que parece, os questionamentos existenciais ainda parecem bater mais forte na cabeça dos MCs. Os substantivos mais repetidos pelos 10 álbuns não são sobre carros, festas e drogas. Ao invés disso, vida, amor e mundo lideram a presença na mente dos letristas. E a urgência que os 3 temas pedem é claramente ouvida por eles. Querer, ir e fazer são 3 dos verbos mais recorrentes. Essa intensidade se revela também através das antíteses. Opostos como tudo e nada, sempre e nunca, vida e morte se encontram e ajudam a construir as narrativas que vestem o RAP nacional.

Antes mesmo das palavras, o perfil dos MCs já é um discurso explícito. Em sua grande maioria, negros e negras, ainda com uma predominância masculina, vindos de periferias espalhadas por diferentes cantos do Brasil. Se o assunto é hip hop, é redundante pensar em valorização da cultura e luta negra, mas em um contexto onde uma das críticas mais presentes no cenário vinha sendo o embranquecimento do RAP e o esvaziamento de seu discurso, linhas como “Que os pretos liguem a TV e se identifiquem”, do Rincon ou “Black Panther não Black Bloc, dos Black Belt em Hip Hop” do Akira, fazem questão de bater mais forte nos falantes.

O “ponta de lança” do RAP Nacional atual, Rincon Sapiência. // Imagem: Divulgação

Essa auto-estima e empoderamento do negro são pontos recorrentes e marcantes e se tornam uma das temáticas centrais dos álbuns analisados. Dos 10 trabalhos, 8 trazem essas questões como principais bandeiras. A diferença está no ponto de vista. “Heresia”, por exemplo, expõe questões que vão além da vida de Djonga, mas que são contadas na maioria das vezes através do seu olhar. “Onde tem que acha graça zuar viado, eu acho engraçado um racista baleado.” É como se Djonga assistisse sua vida na TV, e colocasse nas letras as reflexões do que está vendo. Já o Manicongo Rincon Sapiência muitas vezes se coloca de lado para se permitir narrar a história do outro. “A Volta pra Casa” é um bom exemplo, onde Rincon conta a tensa rotina de volta do trabalho do morador de periferia.

Mas mesmo nos álbuns que trazem essas temáticas, não é possível reduzi-los apenas a isso. A religião e as diferentes maneiras de se ter fé; auto-conhecimento e o eterno duelo entre o Eu x o Mundo; a desigualdade e o sistema cruel; o amor da família e o amor de um relacionamento. Todos esses temas costuram a narrativa que os principais álbuns do RAP BR contam. Por mais que outra parte do cenário possa seguir um outro discurso, os 10 álbuns selecionados através de uma votação popular mostram que o RAP nacional ainda tem uma lírica ácida, representativa, e inteligente.

O QUE ESPERAR DE 2018?

O discurso de 2017 é marcante não só pela retomada de um RAP mais combativo, mais representativo e conectado com suas origens. Mas também por ser a voz de diversos MCs que até então estavam se fazendo ouvir apenas nas batalhas ou nas garagens Brasil a fora. Mas mais do que conclusões, o estudo nos deixa perguntas que os próximos capítulos do RAP nacional vão responder. Quem falou em empoderar, seguirá na conscientização? Agentes políticos tomarão a frente de ações e projetos paralelos? O que esperar desses MCs em um ano de eleições presidenciais? Enfim, o primeiro trimestre já mostrou que em termos de quantidade o ano vai ser ainda mais intenso que 2017. Resta ver o que vamos poder tirar das linhas de 2018.


Texto por Luigi Madormo. Pesquisa por Pedrenrique.

Para acessar o arquivo com o estudo completo, clique aqui.

Contatos:

Barreto.pedroh@gmail.com

Lmadormo@gmail.com

Thanks to Pedrenrique

Luigi Madormo

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Escrevendo pra curar a memória curta

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