#primeiroassedio

tem rolado tantos absurdos estes dias em relação a este tema, que eu não sei como começar a falar como me sinto. é tanta mulher compartilhando histórias horrorosas sobre o #primeiroassedio que me dá uma tristeza tão enorme que eu travo. é o verdadeiro não sei o que falar e só sentir, sabe? pois é. não sei mesmo o que falar. dá vontade de pedir para recomeçar o mundo pq deu ruim demais.

pensei muito sobre minha infância e adolescência e de como estes comportamentos influenciaram quem eu sou. eu quase nunca falo sobre isso, pq sempre achei que era um fato isolado ou algo que de fato não mexeu com quem eu sou, mas infelizmente isso não é verdade. tudo que acontece com a gente influencia em como somos.

quando eu tinha uns 11 anos, estava andando de bicicleta com minha irmã e algumas amigas na praça perto de casa. com 11 anos eu não tinha nenhum corpo desenvolvido — para ser bem honesta eu demorei muito para desenvolver meu corpo, pois sempre fui muito magra e alta. menstruei tarde e por isso meus peitos demoraram uma eternidade para aparecer. num certo momento, um carro parou e me perguntou se eu sabia onde era uma rua específica. eu sempre fui muito solicita e sempre gostei de me sentir útil, por isso eu cheguei bem próximo ao carro para escutar o nome da rua e poder ajudar.

o motorista devia ter uns 30 anos no máximo. ao chegar bem próximo, me deparei com ele se masturbando. minha memória é de completo horror. eu montei na bicicleta e saí correndo e gritando para minhas amigas. lembro de jurar várias vezes que aquilo tinha acontecido, como se ninguém fosse acreditar em mim. foi a primeira vez que eu vi um pinto na vida. a sensação de horror foi imensa.

fomos para a casa de uma amiga e contamos para o pai dela que, na mesma hora, pegou o carro e foi rondar o local para ver se achava o tarado. eu não tenho lembranças de ter contado isso para minha mãe, nem para meu pai. mas por muito tempo eu lembrava do cara, do carro e da sensação de medo que senti quando tudo aconteceu. ele não encostou em mim, nem me agrediu fisicamente, ele não falou nenhum palavrão, nem me ofereceu nada, ele se quer me chamou de gostosa. foi apenas a cena e um silêncio sepulcral.

anos depois, num passeio com minha avó — sempre que ela vinha para são paulo eu queria fazer tudo com ela — num ônibus na avenida morumbi, levantamos das nossas cadeiras para descer pois nosso ponto se aproximava. nas escadas da saída um homem estava parado, com uma perna em cada degrau. a cena seria corriqueira se ele não estivesse com aqueles shorts de jogar futebol, sem cuecas, com o pinto para fora, por baixo, escapando por uma das penas. minha vó notou e não comentou nada, apenas me abraçou, pediu licença e descemos. no ponto eu contei para ela o que eu tinha visto e ela tentou minimizar a cena, falando que ele não devia ter notado.

nunca me senti parte da estatísticas de mulheres que sofrem algum tipo de assédio, mas hoje entendo que estas duas situações foram assédio sim. e, mesmo que vc, homem, que anda tranquilamente pelas ruas sem o risco eminente de sofrer alguma violência, ache que isso é uma coisa boba, isso não é nada bobo. isso é bem sério.

infelizmente estas duas experiências não foram únicas. já passaram a mão em mim diversas vezes, em bailes de carnaval, em baladas. já tb me xingaram e me agrediram quando recusei ser beijada. mas juro, que o pior mesmo é ler alguém próximo escrever que é bobagem ou fazer piada com o tema. eu não ia me pronunciar, sabe? tenho evitado entrar em conflitos nas redes sociais. mas é tanta, tanta história sendo compartilhada, que resolvi escrever a minha.

para meus amigos, peço que repensem em seus atos. peço que percebam que não é normal. e que mesmo sabendo que é uma atitude ~esperada~ de vcs, que está apenas com vcs o poder de mudar isso. de dizer não, eu não vou fazer parte desta estatística! a nós, mulheres, resta o falar. pq calar não vai mudar nada, nem muito menos resolver! temos que falar sim!

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