Habituar e …desabituar — Parte 1
Umas das (muitas) coisas diferentes de tudo o que experimentei na Europa é é… a comida!
Como era de esperar o picante faz parte da rotina por cá. Na primeira semana cá foi o mais difícil de habituar. Cheguei ao ponto de não conseguir comer um simples arroz que me estava a tornar num dragão que cospe fogo. Mas agora, um mês desde o primeiro dia, já não é um problema. Claro que continuo a sentir (por enquanto) o picante mas não ao ponto de ter que beber água cada vez que mastigo.

Relacionado com a comida uma das coisas que tive de me habituar foi a comer com as mãos. Por toda a Índia, a maneira de comer o prato da foto acima é pegar no pão, tirar um bocado e tentar apanhar um dos pedaços de queijo. Tentar fazer isto sem ficar com os dedos cheios do molho é impossível! Ao fim de uns dias tive que aceitar que se é para sujar, é melhor nem preocupar com isso e comer à vontade. Outra maneira de “comer” o molho é fazer um pequeno rolo com o pão e apanhar o molho como se fosse uma colher. Existem colheres e garfos, mas se olharem para a foto, como é que iam utilizá-los para comer isto? Não é nada prático e (vai ser estranho dizer isto) nem é muito mau comer com as mãos. Em todos os sítios de refeições (felizmente) existem sempre lavatórios. A única falha neste processo é mesmo a falta de detergente para a mãos. É impossível tirar a gordura das mãos só com água a correr mas pronto, ao menos posso lavar as mãos. Uma coisa curiosa de comer com as mãos é que ninguém utiliza o telemóvel à mesa! Só de meter as mãos no bolso já ficava com nódoas infinitas quanto mais pegar num ecrã touch.



Para quem em Lisboa está habituado a demorar 1h para chegar à universidade, cá é o paraíso. Entre sair do quarto e sentar na sala de aula vão 5min se pedalar bem. E não é só em relação ás aulas, o mesmo aplica-se para comer e fazer desporto. Nós (os internacionais, como nos chamam quando se referem ao grupo de pessoas que veio de outro país) reservámos os campos de voleibol para todas as quartas à noite. Sair da residência, andar 1min e estar no campo, jogar por 1h e em 2min estar num chuveiro depois de fazer exercício até dá vontade de fazer isto mais vezes durante a semana.
No campus existe de tudo. Vários sítios para comer, supermercados, dezenas de campos e recintos para desporto, hospital, bancos, etc. Para além disso, o campus é quase uma espécie de floresta. As ruas não têm passeios, têm árvores gigantes onde muitas famílias de macacos e muitos outros animais habitam. A quantidade de carros que circulam dentro do campus é também bastante limitada o que juntado ao resto torna a vida cá dentro bastante tranquila.
Uma das coisas que também é fácil habituar é a simpatia dos indianos. É das coisas que me surpreendeu até agora. Claro que existem casos em que a simpatia é para tentar me enganar, como o caso de um senhor que aproveitou-se da minha viagem de tuk-tuk e me tentou vender a história de que ajudava crianças e que precisava de uma pequena contribuição. Respondi-lhe várias vezes que a minha contribuição era a parte dele da viagem. Claro que ele agradeceu e lá continuou a falar do Ronaldo e dos tempos da cabeçada do Zidane. Quando chegou o fim da viagem, já à porta do campus, pediu-me a tal “pequena” contribuição (que se revelou bem grande!). Rapidamente lhe disse que não lhe ia dar dinheiro e a resposta dele foi perder toda a cara de simpatia, virar costas e ir embora…

Mas por outro lado, dentro do campus quase nunca existem segundas intenções. No fundo estamos cá todos para o mesmo: tirar os nossos cursos. Desde indianos me impedirem de sair do elevador por estar distraído e não ser o meu piso, a explicarem-me várias vezes um exercício super difícil ou até mesmo a ajudar com o menu das comidas quando não fazia ideia do que era cada coisa. E conhecer indianos (e pessoas no geral) é necessário por aqui. Quase tudo cá funciona pelo passa-a-palavra. Quando a palavra chega até nós é bom mas quando não chega é bastante frustrante. Um exemplo foi quando uma aula que supostamente era ás 13h foi mudada para as 12h. Tive aula da mesma cadeira no dia antes e nem uma palavra do professor, simplesmente disse a um dos alunos e a palavra foi passando…só que não chegou até mim. Por sorte encontrei um dos meus colegas da aula e disse “See you at 1pm” e ai sim, a palavra foi passada até mim. Outro exemplo: a andar de tuk-tuk, se o condutor não souber o caminho, chega ao pé da primeira pessoa que encontra e pergunta-lhe. Nem um “Desculpe, podia me ajudar” nem um “obrigado” no final. Toda a gente está disposta a ajudar e ninguém tem problemas em perguntar. Funciona por estes lados!
