Três mulheres são demitidas, três dias após o Dia Internacional da Mulher, por usarem sua liberdade de expressão.

Era uma proposta de emprego irrecusável, maior salário, promessa de autonomia criativa, e a esperança de, no novo posto de trabalho, começar a construir uma grande carreira numa das agências mais conhecidas da cidade.

A esperança começou a virar dúvida nos primeiros burburinhos dos colegas (homens e mulheres) : “não bate de frente com ele”, “quem discorda é demitido”, “não adianta falar com o dono da agência, não vai mudar”. Mas pensei comigo: “não é possível que serei realmente punida apenas por manifestar minha opinião e por estar trabalhando, acreditando no meu trabalho”.

Mas o dia a dia descortinou uma rotina dominada pelo medo. Não era incomum ter ideias cortadas: “Esquece! Isso não é importante.”, quando questionava erros de português, “você até escreve bem, mas não tem experiência”, frases que impedem qualquer ideia criativa nova.

Desestímulo, marasmo tomando conta de uma equipe em que ninguém concorda com as peças aprovadas, ou parte delas, mas falta coragem de falar, sabe como é, o salário no fim do mês é muito importante para pagar as contas… Conviver com o silêncio e o medo fazem parte da rotina de quem precisa colocar comida à mesa.

Um episódio isolado de pedidos de desculpas do diretor, até me deu uma esperança : “chamei você aqui, para pedir desculpas, sei que fui Rude” embora a desculpa pela grosseria pública tenha se dado de maneira isolada de todos, aquilo até que me confortou, tenho mania de coração mole e, poxa, só queria trabalhar.

A dificuldade era conseguir passar qualquer ideia, quase todas eram vetadas pelo diretor de criação e ao mesmo tempo o diretor da agência cobrava mais iniciativa, como fazer?

Aí chegou o dia internacional da mulher, uma oportunidade de fazer uma bela campanha, uma homenagem, a data é histórica e significativa a todas as vozes femininas do passado e do presente, para garantir um futuro de igualdade.

As ideias da equipe? Sem valor… a ideia do diretor misógina. A mensagem caiu na reprovação geral da agência, homens e mulheres questionaram, falaram que aquilo não representava a ideia da equipe, não comunica com a data, que não queríamos que fosse ao ar, mas no dia internacional da mulher, as mulheres foram caladas.

Se você já se sentiu ofendido na rua, deve imaginar como isso é ruim,

Se sentir ofendido no próprio trabalho, você não tem ideia.

Não deu, o nó da garganta, a ofensa às ideias foram demais, caímos na besteira de mostrar a peça aos outros colegas de profissão e uma chuva de comentários negativos foram postados por todos, o case foi motivo de piada, inclusive, por professores de publicidade e agências de grande porte nacional. Ah! Houve dois posts defendendo a ideia: o do diretor, autor do post, e o do dono da agencia, diretor que aprovou o post, que se gabou de proteger todas as suas funcionárias com igualdade.

Passou um dia e o clima no trabalho não foi dos melhores, passou outro e eu já até estava esquecendo e voltando à rotina para continuar desempenhando o trabalho para qual era paga.

No terceiro dia, uma sexta-feira feliz, a primeira noticia do dia:

Você está demitida. Vou desativar o núcleo de conteúdo e demitir todos.
 
 Demitiram apenas mais duas pessoas, embora todos tenham se insurgido negativamente.

3 dias após o dia internacional da mulher, 3 mulheres foram demitidas por expressar sua opinião. E eu fui uma delas.

Eles foram espertos, esperaram uma sexta-feira, após o fim de semana todos esqueceriam, haveria tempo para digerir.

Não sei o que mais me incomoda:

Se a mentira do diretor geral da agência que disse a mim que iria demitir todos e escolheu apenas três para pagar o pato;

Se mesmo após a defesa inconteste e veemente de que a campanha de homenagem à mulher produzida por eles era boa, ela ter sido APAGADA! (mas não era um bom post?);

Se saber que os colegas que ficaram lá, vão ter que continuar vivendo com o silêncio e o medo por necessidade;

Se saber que é mais fácil demitir três mulheres de opinião do que admitir o próprio erro e aprender todos juntos a fazer um time de verdade;

Se saber que até hoje, homens não se permitem fazer uma autocrítica;

Se saber que ainda hoje acontece isso com mulheres.

Talvez o que mais incomode, seja o silêncio dos oprimidos.

Passei um tempo pensando se devia ou não contar esse fato, mas conclui que meu silêncio não iria mudar nada, mas que minhas palavras poderiam servir de estímulo para que as mulheres busquem seu lugar ao sol.

Luísa dos Santos Costa Valério. Publicitária, desempregada desde em 11.03.2016