Uma coisa ou duas sobre o amor

Na horizontal. Horas, dias se passaram. Na horizontal. O que é o prazer de permanecer nessa posição, quase sem se mexer, só olhos mexem, mexem para te olhar.

Das horas olhando para cima, quando me viro ali estão seus olhos a me fitar. Não digo nada, sorrio. Não tinha mais hora para levantar. A hora tinha passado. Desisti. Saí da inércia eram 18h. O sol no fim do céu. Meu corpo cheira a você.

A sensação era de que os tempos eram os mesmos de outrora. Naquele mistério dos primeiros encontros, o ar tinha o mesmo cheiro, a luz no seu quarto era a mesma, o som da mesma cidade ao fundo…Tudo me parecia tão estático. Como eu agora.

Liguei o chuveiro. Do reflexo do espelho te vi ainda deitado, parecia em transe. A água quase quente escorria em finas gotas pelo meu corpo, não adianta me ensaboar, meu corpo cheira a você.

Ao sair do banho me olho no espelho, tão nua. Cara nua. Às vezes é constrangedor. Tão peladamente ser amada. Você já se levantou, veio ao meu encontro com um sorriso, aquele seu velho sorriso tímido. Minhas bochechas coram, como lidar com toda essa exposição?

Me alivia sua ternura. Quão nua ainda posso ficar?

Toda. Sempre.

Por aí saímos. À pé. Em Brasília. Sem cortar caminhos. Andar vale à pena. Entre os pilotis, entre as entrequadras, entre os grandes espaços vazios que servem de respiração. Toda grande cidade deveria ter tantos espaços vazios…

Na passagem subterrânea apertei sua mão. Tensa. Achei que você não fosse perceber, mas me olhou de canto de olho. E sorriu.

Não tem cheiro de xixi.

Não.

Uma leve brisa passou, fez meu cabelo voar na cara. Senti seu cheiro.

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