Esse dia foi ontem

Luisa Jubilut
Sep 4, 2018 · 2 min read
Ilustração por Catarina Sabino

Eu não aguentava mais sentir uma vontade absurda de escrever sobre você, ir lá e tirar da gaveta tudo aquilo de lindo que eu tinha guardado com cuidado pra colocar pra fora na hora certa, sentar, escrever, escrever e me dar conta que eu só conseguia falar sobre mim. Mas a angústia passou no dia em que me dei conta que escrever sobre você era escrever sobre mim. Ou o contrário. Ou os dois juntos. Nós dois juntos.

Eu sempre senti muito medo da dor e, até pouco tempo, deixei a mera possibilidade dela voltar com tudo pra minha vida determinar tudo eu eu fazia e deixava de fazer. Qual rua eu ia dobrar, pra quem eu iria olhar, qual risco eu ia tomar.

E daí apareceu você. Digo, apareceu de verdade. Porque você já estava lá. Sempre esteve.

No mesmo dia em que eu percebi que falar de mim era falar de você, descobri um segredo tão secreto que eu não tive coragem de contar pra ninguém: tudo aquilo que era medo ia embora quando você segurava meu rosto nas suas mãos. Medo que eu achei que eu nunca fosse viver sem. No meio daquele inverno, minha vontade de ser sua era tão grande que ultrapassava meu medo de te ver indo embora quando a primavera, eventualmente, chegasse.

Daí eu assisti você indo pra casa e senti todos os medos voltarem pra mim. Entrei embaixo da coberta e sonhei que estava tão distraída sendo feliz que eu nem via quando você percebia que eu não era tudo aquilo que você merecia ter. Que você merecia o mundo e que eu não era o mundo. Quando eu vi, você tinha ido embora de verdade e eu pensava em você no passado. Não mais no presente, ou no futuro.

Acordei, respirei fundo, me revirei na cama e senti um restinho de cheiro seu que tinha sobrado no travesseiro ao lado do meu. Tentei me afundar nele, tentei segurar meu próprio rosto, mas não deu muito certo. No auge do medo, eu só queria você ali.

O dia seguinte era hoje. Ou melhor, é hoje. E eu estou aqui, agora, tentando escrever sobre você, mas escrevendo sobre mim, sobre medo, sobre sonho, sobre cheiro, sobre tudo que eu ainda quero viver com você quando o inverno passar. Quando você me segurar e ver que a temperatura da sua mão não está mais tão diferente da do meu rosto.

É esperar pra ver e viver com você.

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