Foi o meu primeiro beijo

Luisa Jubilut
Aug 8, 2017 · 4 min read

Uma breve história sobre uma situação meio torta e meio fofa

Eu nunca me identifiquei com histórias de amor. Com treze anos, eu me sentia a anti-heroína. Uma menina sem autoestima que achava que dava pra levar a vida escrevendo e desenhando durante as aulas chatas, sem olhar pro lado. E de repente, deixei de ser invisível pra alguém.

Minha mãe viu meu primeiro beijo.

Ela demorou muito tempo para me contar. Mas não fiquei brava ou envergonhada, até porque foi uma cena, aparentemente, e friso, APARENTEMENTE agradável. Foi meio ruim, na verdade. Tipo, ele era um cara bem daora e, ao mesmo tempo, meio excluído. Que nem eu.

Conheci ele numa festa na casa de um cara que era o peguete da minha então melhor amiga para todo o sempre. Eu estava assustada, as pessoas estavam fumando narguilé e tinha uma garrafa de vodca em cima da mesa, pronta pra ser engolida por um monte de pivetes um ano mais velhos do que eu.

Essa amiga minha, no fundo, tinha mais medo daquelas pessoas do que eu. Ela fingia ser a rainha hippie-edgy-descolada do primeiro colegial da escola dela. Mas no fundo, sabia que ela ficava aterrorizada com a possibilidade de perder controle da situação.

Logicamente, eu queria fazer parte daquilo, daquele mundo rock’n’roll dela e dos amigos dela, todos altamente idealizados na minha mente. Só que eu não conhecia ninguém. E ninguém me conhecia de volta. Na verdade, eu mesma me desconhecia até escutar três músicas do Led Zeppellin num mp3 jurássico do meu pai e ter uma epifania. Descobri que aquilo me inspirava e saí caçando tudo o que estava ao meu alcance (no caso, a estante de discos do meu pai): Beatles, Rolling Stones, Bowie, Stooges, Pink Floyd e The Who, amém. Vi o Iggy Pop no filme Cry Baby e enfiei na cabeça que aquele velho seria meu um dia e fazia altos planos para o nosso casamento. Cada um, cada um. Mas isso não entrava na minha cabeça. Me sentia errada.

Enfim, lá estava eu, uma menina gordinha, espinhenta, que tinha acabado de descobrir alguma coisa sobre si e que usava calça de moletom velha, furada e camisetas com as golas, mangas e barra cortadas, naquela festa estranha com gente esquisita que eu pensava querer ser.

Tinha um cara muito feio dando em cima de mim. O que já era estranho pelo fato de que nunca tinham dado em cima de mim na minha vida. Daí, teve OUTRO. BONITINHO, ainda por cima. Mas o menino era um verdadeiro idiota. Do tipo que derruba, não que ajuda a levantar. Me senti hostilizada por aquela aproximação, e decidi que queria ficar na minha. Sentei do lado do Cara do Violão. O moleque mandava bem pra caramba, muito bem mesmo. Ficou tocando e cantando baixinho com uma voz rouca. Ele parecia de boa, tranquilo e achei que, dentro daquele ambiente, sentar do lado dele era a coisa mais sensata a se fazer. Ele era gordinho e cabeludo, novamente, que nem eu. Fiquei lá durante um tempo, a gente trocou umas ideias e descobrimos que frequentávamos o mesmo clube, onde eu fazia aula de tênis. Fui pra casa. Naquela época, as redes sociais eram Orkut+MSN. Ele me adicionou. A foto de perfil era um pôster do filme Tommy, baseado no melhor disco de todos os tempos do The Who, o meu favorito da estante do meu pai. Sabia que ele era um cara legal.

Esbarrei com ele no tal clube no dia seguinte, sem querer. Eu senti que a gente ia se encontrar. Começamos a conversar durante as minhas tardes no MSN, mas nunca combinamos de nos encontrar. Até então, eu era aquele tipo de menina que, por ser insegura, agia de maneira agressiva com qualquer ser do sexo masculino. Tinha medo que eles vissem em mim aquilo que eu julgava ser feio, ridículo e que tirassem sarro de mim.

Em pleno feriado, meu telefone tocou. Era ele, que estava na casa de praia de algum primo, perguntando se eu ficaria com ele. Gelei. Aquilo era GRANDE. Eu não sabia como proceder. Não sabia qual era o protocolo e a burocracia do contrato em questão. Eu só disse que sim.

Ele voltou. A gente não tocou no assunto durante nossas conversas no MSN. Não frequentei mais nenhum festa hippie de escola particular. Me fechei, com medo. Chorei 100 mL de lágrimas no colo da minha mãe. Ela não fez muitas perguntas. Naquele momento, eu só queria colo. Não queria falar sobre o assunto. Ela entendeu. Eu não.

Aquele drama perdurou até a gente combinar de se encontrar na praça na frente do clube. Respirei fundo e fui. Ele estava lá, dedilhando o violão de aço. Reparei de ele tinha deixado a unha crescer pra tocar, reparei também que sua mão estava tremendo. “Somos dois nesse barco, colega” pensei.

Enrolação. A gente conversava, mas não se ouvia. Só pensava no tal beijo. Beijo, bei-jo. A palavra começava a me soar estranha.

“Então, sobre o papo do telefone e tal, seilá, quer dizer, tipo, então, seilá, sabe, será que ainda tá em pé?”, ele soltou. Engoli seco e assenti com a cabeça.

Ok, boca com boca. Língua. Ou melhor: línguaS, no plural. Argh. ARGH, estava me afogando. Abri um olho, ele parecia confuso e esforçado. Foi aí que eu entendi: era o primeiro beijo dele também. Algo se manifestou dentro de mim. Era um calorzinho que irradiava no meu peito, dizendo: “está tudo bem, é assim mesmo.”

Respirei fundo. Coloquei os meus braços em volta da cintura dele e tentei não pensar tanto. Eu ia lembrar daquilo pra sempre. Ele também.

Olhei a minha volta, eventualmente e vi o carro da minha mãe. Levantei num pulo. A gente riu de nervoso escroto e se deu um beijo rápido de tchau. Eu abri um sorriso. Ele também.

Não foi pra frente.

Aquilo virou uma história na minha memória. A única evidência de que realmente tinha acontecido era a biografia do Bob Dylan que ele me deu dois dias depois, no meu aniversário de 14 anos.

Às vezes, a gente se esbarra. Sempre que o vejo, o identifico como um cúmplice. A gente se cumprimenta e não fala nada, mas assistimos mentalmente ao filme do nosso beijo. Juntos.

Luisa Jubilut

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(meu nome não é julia)