A mulher que encontrei no ônibus

Você vai me chamar de doida, e vai estar correto.

Tive um encontro no meu reflexo daquele vidrinho do ônibus, aquele que divide o motorista do primeiro passageiro que senta logo no banco individual, o que fica ao lado da roleta. Estava embaçado e cheio de marcas de cola que foram deixadas por anúncios velhos que alguém arrancou. Ali, entre as sobras das publicidades, estava a imagem de uma mulher a quem venho tentando conhecer. Verdade que brigamos várias vezes, mas sempre fazemos as pazes. Invariavelmente fazemos as pazes. Já que ela não me deixa, melhor seguirmos felizes juntas. Ela prometeu estar comigo para sempre.

É o segundo encontro deste tipo. Sempre casual, nunca marcamos. Ela gosta de me surpreender com seu sorriso de mistério, mas que de mim não esconde nada. Ou pelo menos eu gosto de pensar assim. O que nem de longe significa que esta moça não me pregue umas peças, pois das vezes que quero que ela apareça, nem sempre consigo vê-la com tanta clareza. Ela se traveste de tantas personagens ao longo dos dias — ocupada em ser quem dizem que ela é, ou quem ela mesma quer ser — que acaba deixando na camada mais interna quem simplesmente é, organicamente.

A primeira vez que lembro de vê-la, desta forma, foi em 2009 no ônibus voltando da entrevista de emprego na TV. Eu não tinha resposta para ela e nem para mim. No fim, dá no mesmo. Mas me olhava no reflexo, e ali me encarando, sentia amor, empatia e orgulho da pessoa que estava refletida. Me sentia grata. Me sentia produtora e nem tinha recebido o “sim” do processo seletivo. Me sentia.

Hoje, eu olhei o reflexo, indo pra um workshop de empresárias, o “Mulheres que Transformam Mais”. Poderia ter chamado o Uber, estendido o dedo pro Táxi. Peguei busão. Estava ali no ponto, estendi o dedo e apenas entrei. E que bom, pois foi ali, em um simples trajeto que encontrei com ela. Me olhando naquele mesmo vidrinho, me senti de frente pra uma amiga. Gostei do que vi e pensei longe da modéstia que os anos estavam me fazendo bem. Talvez não esteja esteticamente melhor. Quem sabe naquela época fosse até mais bonita, com aquele rosto de quem ainda produz colágeno natural com a mesma facilidade de quem respira. Só que nunca antes me senti tão bonita de dentro pra fora, tão em paz na pele que ocupo.

Não é sobre aparência. Me olhei e me senti minha me desejei o melhor. Me olhei como quem encara um amigo querido, que vacila, mas que a gente perdoa. Se olhar com perdão, olhar para si e perceber mil motivos de gratidão. Como amei encontrar essa mulher.

A mulher que encontrei no ônibus — Luisa Medeiros