Fast food faz mal ao coração
Quando eu era pequena, lá por volta dos 8, era meados da década de 1990 e o advento by “American Way Of Life”, chamado Mc Donald’s, desembarcava nas terras de Tom Jobim, mais específicamente nas ruas em que o Manoel Carlos gostava de ambientar suas novelas: o Leblon. Ou pelo menos é a primeira ocasião em que tenho lembrança de uma lanchonete do Ronald, sem ser no kit do Lego. A minha família não era daquelas que viajava para o exterior. O meu horizonte não alcançava muito mais do que alguns quarteirões, não estou falando de sanduíches, ainda.
Aquele explendor de letreiro vermelho com um ‘M’ gigantesco e um palhaço medonho dando as boas vindas, logo ganhou duas casas no bairro da minha infância. Um dos estabelecimentos existe até hoje, numa esquina que dá de frente para aquele que era o cinema mais badalado da geração 90’ daquela região. Ali fizemos muitos programas do tipo “Os Batutinhas” mais Mc Lanche Feliz. Era o auge!
Os aniversários? Eram todos regados a lanche do palhaço. A criançada emendava após a escola, num tipo de happy hour mirim. Cada um podia pedir seu lanche direto para o atendente, sem a supervisão de um adulto, estes só pagavam a conta no final. Comer hambúrguer com batata frita era sair da rotina, o ponto fora da curva.
Minha avó sempre fazia questão de destacar: “ Aquilo é comida mas não é alimento”. Estava criado o conceito de fast food na minha cabeça. Lá em casa éramos todos do time do feijão, que variava em todos os seus cinquenta tons de marrom. O cheiro da comida que se sentia do elevador era um conforto indescritível que nenhum restaurante no mundo é capaz de reproduzir. “Comida é o que é cultivado ou criado”, dizia a minha matriarca.
Atualmente, os médicos e as editorias de saúde fazem coro com a minha véia e afirmam: Fast food faz mal, inclusive ao coração. Os altos níveis de gordura entopem as veias, o sódio aumenta a pressão arterial, os compostos químicos propiciam o câncer e para aumentar o combo de todas estas maravilhas, custa apenas R$1,00.
Eu cresci e muita coisa ficou na gaveta das memórias, junto com as fotos das festas da turma do Ronald, com direito ao show de fantoches. O Fast food se tornou frequente, pela falta de tempo. Depois, foi se tornando cada vez mais raro, porque comecei a pensar que queria mais tempo pra viver e veias entupidas não pareciam uma meta favorável. Foi mais ou menos na mesma época em que fui apresentada ao conceito do Fast Fode.
Em meio a era Tinder de relacionamentos relâmpago,as pessoas passam seus aplicativos como num cardápio de gente. Enquanto isso, em outro aplicativo, eu passava o Spotify numa ida para o trabalho e encontrei a Vanessa da Matta cantando “ Na contra-mão do amor puro, o Fast Fode, jato do alívio”. Voltei a música umas 3 vezes para absorver o conceito. Aquele verso explicou tanto de tanta coisa!
Juro que as vezes eu confundo o Ifood, APP de delivery de todo tipo de comida, com o Tinder quando vejo alguém operar um ou outro. Os mecanismos me parecem estranhamente semelhantes. No final, a pergunta é a mesma “Você tem fome de que”? O Fast Fode pode ser atrativo, saboroso e vir com quantas carnes o freguês quiser, regado aos mais variados molhos. Para quem está faminto qualquer coisa serve. O problema é que estamos ficando obesos e desnutridos ao mesmo tempo. Temos tantas opções neste cardápio e nenhuma delas de fato alimenta.
É possível viver uma vida baseada e fast fode, claro que é. No entanto, não espere ser saudável, alguma hora o corpo e a alma precisam de mais do que marketing e sabor. Não estou falando mais de sanduíche, mas ainda assim, faz mal pro coração.
