Não falo de você

Eu não sei escrever sobre você. Me pede uma teoria sobre química nuclear! Mesmo sem nunca ter conseguido compreender a tabela periódica, eu sou capaz de estudar e apresentar um artigo. Pode ser também sobre astrologia, botânica, política ou dança. Me desafie a criar uma paródia de Romeu e Julieta. Me diga que produza uma adaptação de uma peça da Broadway, pode ser Hair Spray, se não se importar. Vou me esforçar.

Posso te escrever uma reportagem, crônica, cantiga, cordel, bula de remédio ou mesmo as “Listas Amarelas”, aqueles tijolões que recebíamos todos os anos e que moravam sob a mesinha do telefone. Pode ser quantas páginas me ditar, nelas vou grafar letra por letra. Redijo até receita do bolo que eu não sei fazer. Só não me peça para escrever sobre você.

Escrever: transpor de maneira gráfica pensamentos utilizando os signos de um idioma de maneira a formar palavras. Palavras… aquelas entidades da língua que deveriam significar. Deveriam, mas por vezes são rebeldes e decidem apenas se amontoar, ali bem no meio da linha. Que bom quando é na linha! Duro mesmo é quando elas congestionam na língua ou morrem bem no meio da garganta. É assim com meu tema mais ingrato. Arrisca dizer qual é?

Tudo parece tão maior! Tudo parece fazer tão mais sentido enquanto está apenas aqui dentro de mim. É como a narrativa de um sonho. Enquanto mergulhados faz todo sentido e uma vez acordados, se tentamos contar, parece efeito de Santo Daime que se toma em devoção. Ficamos ali na cama, cutucando o parceiro que ainda dorme, na ânsia de contar de nossas viagens nas terras de Morfeu com o ineditismo de quem descobriu a pólvora. Não, na verdade, é só megalomania de quem acha que o fez.

Feito bobos argumentamos: “Eu juro que era incrível”. Enquanto isso, o outro só quer voltar a se conchegar. Voltar para seus próprios sonhos. Quem sabe seja isso? Os sonhos só fazem sentido para quem sonha. Como todo sonho dos dormentes, você também é meu sonho unilateral. É daqueles que só dá pra se ter sozinho.

Justo eu que ando por aí contando histórias aos outros e pasme, vivo de fazer isso, não sei prosear ou versar sobre você. Chamo essa mania adquirida de transformar tudo em fatos de oficio, me pagam para isso. Já eu, por ironia, pagaria para que uma vez na vida tivesse a capacidade de dizer o que sinto por você. Da boca da prensa que faço de mim saem tantas pautas quantas um jornal necessita, no entanto dos meus lábios não consigo extrair nada que descreva o que penso de você.

Nos falamos tanto! Nós falamos tanto, só que dizemos tão pouco. Eu te escrevo tanto e a maioria não passa de inutilidades truncas ou cotidianos efêmeros. Coordenadas que desorientam, informativos que pouco explicam. Na tua companhia a minha voz se cala em um silêncio bom de se ouvir. Minha alma fica em paz ao lado da tua, tenho o palpite que as duas sabem conversar em uma frequência que as nossas amarras físicas, talvez sociais, não permitem escutar. Você me cala de diferentes modos e por antagônico que seja, em todos eles, existem verdadeiros discursos sendo feitos.

Não falo de você — Luisa Medeiros