Um sonho clichê

Eu tive um sonho e foi com você. Repetidas vezes me pego pensando se tudo que vivemos é realidade. As pessoas têm o hábito de pintar a vida em escala de cinza, na maioria das vezes, e aí de quem ousar mudar a paleta… Este se submete ao risco eminente de ser apedrejado aos gritos de — Utopia! Inocente! Iludido! É como se fosse um atentado violento ao pudor desnudar o lado bonito do ser humano. Soa como blasfêmia professar que o amor é possível e que, sim, ele pode ser simples e chegar a qualquer altura da vida.

Nesta noite, você não estava na minha cama para que eu te observasse dormir, esgotado, após ter me feito delirar. Eu também não estava na sua, para que você me apertasse contra o peito, como quem faz questão de que eu fique — não só uma madrugada, mas para a vida. Desta vez, eu sonhei mesmo, enquanto dormia. Talvez seja o meu inconsciente me contando o quanto gosto da gente.

Não foi como das vezes em que a rotina se vestiu de fantasia, me fazendo devanear acordada, ou quando o desejo mais reprimido transbordou dos nossos corpos sobre a cama. Também não foi uma das tantas histórias que traduzem a sua alma e se espalham em papéis que cobrem os cadernos, que preenchem a mesa, que se espalham pelo sofá, que saem de você e que inundam quem lê. Dessa vez o conto foi uma grata surpresa na madrugada, uma forma da minha mente de te trazer pra mim. Uma narrativa minha, da qual a única espectadora era eu, um sonho que teve a ousadia de ser poesia.

Ah, as maravilhas da mente humana… Sobre meu devaneio noturno, ele começa com um clichê, com um símbolo de doçura, romantismo e erotismo: a rosa. Ela que é da cor do sangue que corre acelerado nas veias dos apaixonados. O símbolo poético da vênus feminina que gera: prazer e vida. A flor que arremata os lábios da dançarina de tango, a mesma do adorno da cama nupcial, aquela que acompanha a noiva, declara, homenageia e se despede no leito eterno.

Algumas vezes, nada pode ser mais expressivo dos que os clichês românticos. Assim, no meu sonho, como em qualquer comédia-romântica-açucarada, as rosas estavam por todos os lugares. Seu aroma, inconfundível, era misturado ao cheiro da tua pele, que eu sei de cor. As rosas não nasciam da terra, da água e do sol, mas das virtudes: uma vinha da lealdade a um amigo, a outra de um ato de coragem, a seguinte brotava da sinceridade e a outra da paixão diária pela profissão. Elas estavam por onde o olho podia alcançar… Acho que meu inconsciente entende mais de metáforas do que eu.

O maior defeito das rosas são os homens, eis ai um ponto em comum que elas têm com o amor. A natureza as dá de graça, para quem souber plantar e cuidar. Contudo, algumas vezes, tanto rosas quanto o amor, nascem até em uma moita desgrenhada — sem muita atenção, nestes casos não ganham tanto destaque e talvez convivam com um amontoado de ervas daninha. Nessa nossa vida tão industrializada, a maioria das flores não são vivas, mas de um plástico vagabundo qualquer, e as poucas rosas de verdade, custam caro e morrem rápido, já que são cortadas de suas raízes.

Não sei quanto tempo dura a vida, quanto vivem as rosas ou por quanto tempo se estendeu meu sonho. Quem se importa? Existe um pequeno infinito em cada instante. Dos sonhos que já sonhamos juntos, especialmente aqueles em que os dois estavam acordados, eu não sei a soma, mas dá pra passear por uma eternidade.

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