I quit, finally

Essa semana aconteceu uma coisa inédita. Pela primeira vez, em 11 anos, eu respondi diferente ao meu pai. Ele me liga toda semana e me pergunta “E aí, como você está? Tudo bem?”, e por 11 anos eu respondia “sim”. Em 99% dos casos a resposta era “não”, mas meus problemas sempre pareciam pequenos e nunca nada era suficiente pra dizer que não tava tudo bem. Afinal, meu pai tem os problemas dele e tem mais dois filhos pra criar. Eu sou a mais velha, a única garota, a que mora longe e, sem ofensa, a que tem a mãe mais cuidadosa. Devotada, eu diria. Tem coisa que papai simplesmente não precisa saber, pronto.

Acontece que talvez a questão não seja o que ele precise ou não saber, e sim o que eu preciso ou não dividir. Eu tô muito confusa. Perdida. E precisando de ajuda. E, dessa vez, eu até respondi “sim, tudo bem”. Mas depois troquei por um “mais ou menos” até finalmente admitir que, minha vida está uma bagunça e eu sequer me lembro como caralhos isso foi acontecer.

Me lembro apenas de, aos poucos, ir desistindo das coisas, até desistir de tudo. E eu desisti de tudo. É triste, mas é isso aí. O mundo não está perdendo muita coisa, acredite. Eu parei de escrever ficção, que costumava ser minha maior paixão. Larguei o estágio, já estava arrastando lá por meses apenas pela bolsa. Larguei todos os sonhos que costumava ter, de trabalhar com música, com cinema, enfim. E, por fim, meio que larguei a faculdade também.

Digo isso porque tive prova e deixei pra estudar momentos antes, escolhendo um texto aleatoriamente pra ler. Digo porque deixei de contribuir de maneira decente com os trabalhos, deixando as maiores partes nas mãos de outras pessoas. Digo porque faltei mais do que nunca e me atrasava quase todo dia. Resumindo, eu fui um lixo de aluna esse semestre, e não tenho nenhuma vergonha ou culpa de admitir. Um lixo de aluna foi tudo o que consegui ser.

Mas aí eu fico matutando, será que é isso mesmo? Será que não dava pra eu ter me esforçado mais? Eu tenho convicção que não, eu sofri muito pra passar por tudo isso sem reprovar em nada, e foi um esforço do cão pra levantar da cama todo dia, pra tomar banho, pegar o ônibus e ir pra aula. Mas, ao mesmo tempo, porque eu me ofendo tanto quando alguém vem e fala que “não tem que aceitar o que a vida impõe e sim lutar pelo que se quer”? É porque eu não tenho mais pelo que lutar, ou é porque talvez, se eu me esforçasse, eu conseguiria?

Bom não sei, eu não acredito mais no meu talento. Eu desisti de verdade dos sonhos que tinha e de tudo que almejava pra minha vida. Pra mim, o que vier é lucro sim. Eu quero só sobreviver, só isso. Pelo menos por enquanto. Acontece que até levar a vida com a barriga exige certo equilíbrio. Não dá pra jogar tudo pro alto, mas também não dá pra dar 100%, entende? Quando eu nem me sinto mais um ser humano 100%, uma pessoa completa.

Bom, e o meu pai, né? O que ele tem a ver com isso? Seguinte: eu gostei de conversar com ele e não achei que fosse gostar. Tipo, minha principal dúvida nesse momento é como eu devo me comportar diante do meu problema. Eu não posso deixar que isso paralise minha vida, mas também não posso ignorar porque isso tá me destruindo. Falando com papai, ele não foi nem de longe uma daquelas pessoas que “ah, foda-se você, problema todo mundo tem e a gente aprende a lidar”. E também não supervalorizou a situação, nem me tratou como uma coitada. Ele soube a medida certa. Eu é que não sei.

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