O famoso desabafo
Tem umas coisinhas que a gente vai ouvindo dos adultos enquanto crescemos, e a gente vai engolindo porque, afinal, eles são supostamente mais sábios. Mas algumas coisas fazem um mal que talvez quem nos criou e foi metendo essas ideias nas nossas cabecinhas nem imagine. Esse papo de que “ninguém é 100% feliz”, “sempre vai ter algo que você não gosta em qualquer carreira que você escolher” eu sempre ouvi não só da minha mãe, mas de um monte de gente. E, não sei, eu não espero que minha vida adulta seja um campo de flores de lavanda, com um céu azul e vários dogs correndo em volta, mas será que era pra ser angustiante assim mesmo?
Nesse exato momento da minha vida, eu estou simplesmente cansada. Cansada de me sentir inadequada, insuficiente, de ter a sensação constante de que devia ter feito mais. De ver um episódio de série de 20 minutos e me sentir culpada o resto da semana. De pensar dez vezes antes de sair pra qualquer lugar, porque tem algo “mais importante” pra fazer. Cansada de ficar sem almoçar inúmeras vezes porque as coisas vão se amontoando e, mais uma vez, o que eu preciso fazer por mim (comer, por exemplo) vai ficando pelo caminho em detrimento do que eu preciso fazer pelo curso, pelo estágio. Cansada de sentir que nunca tenho tempo e que não vou dar conta das coisas que eu tenho pra fazer (muito menos das coisas que eu realmente quero fazer). Cansada de me sentir um lixo por não conseguir tocar os famigerados “projetos paralelos” não só por falta de tempo, mas até por falta de ânimo, de energia.
Mas sobretudo, eu tô cansada de ter que lidar com tudo isso sozinha. E ultimamente, eu tenho percebido que muita gente que eu acho incrível se sente assim também. Tipo, umas pessoas que eu pensava “porra, que legal, a fulana faz 500 coisas ao mesmo tempo” e na verdade a fulana está fazendo o impossível pra dar conta, abrindo mão de coisas importantes e necessárias pra fazer tudo, abrindo mão do lazer e da própria saúde, quem sabe. Enquanto quem olha de fora, acha tudo impressionante e fica mal por não conseguir ser desse jeito. E na verdade tá todo mundo meio que no mesmo barco, sabe?
Mas ninguém fala sobre isso. Sabe porquê? Porque a gente aprendeu que é normal. Que essa é a vida adulta e você tem que aprender a lidar, é assim mesmo. Que tem que engolir o choro e seguir em frente, porque dificuldade todo mundo tem. Que, se você quer ser bem sucedido na carreira, tem sim que abdicar de vida social e o caramba, tem que fazer sacrifícios. Que dormir apenas quatro horas por dia é suficiente. Que comer, uma refeição completa, é só de vez em quando, se der tempo. E assim, uma por uma das coisas que a gente gosta e sente prazer fazendo vão sendo substituídas por trabalho, trabalho e mais trabalho.
E, quando chega o momento de “relaxar”, você só pensa em trabalhar. Relaxar parece um absurdo, parece perda de tempo, porque, enquanto você está despretensiosamente tomando uma cervejinha com amigos ou vendo um filmezinho em casa ou o que quer que seja, tem outra pessoa que está trabalhando e essa pessoa é melhor que você, é ela quem vai ganhar a bolsa de estudos que você queria, é ela quem vai tirar a melhor nota enquanto você tira apenas o necessário pra passar.
E, não se enganem, eu nem sou uma workaholic. Na verdade, essa sensação de fracasso constante vem de sempre ter mil coisas pra fazer e, isso mesmo, não fazer nenhuma. Sou uma procrastinadora reclamando de ter muito trabalho. Basicamente, uma farsa. Mas eu não gosto de me sentir assim. Nos últimos tempos, tenho me debatido bastante atrás do real motivo de procrastinar. Ainda não achei uma resposta, e na minha cabeça ainda parece que eu sou a única, ou que minha situação é a pior. Mas talvez nem seja.
Eu vejo várias pessoas próximas à mim, comentando que entraram nos seus cursos pelo motivo X e agora não estão mais empolgadas. E tudo gente talentosa, gente que eu admiro. Então, sei lá, honestamente, eu nem ligo mais se acharem que é frescura e coisa de menina mimada, inclusive to acostumada com isso. Mas a gente precisa falar, porque senão vamos continuar guardando tudo dentro do peito, como fomos ensinados a fazer, e isso faz mal. Ao invés disso, a gente podia se apoiar. Eu acho uma opção melhor.